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Língua

Georgeana Alves

Há muitas línguas
A língua do pê
Do Saci-Pererê
Do Senado
Do favelado
Do letrado
Do letrista
Do linguista

Há línguas extintas
Há muitas línguas
A língua das tintas
Da pintura
Da Magistratura
Da prisão
Da mansão
Da nobreza
Da fraqueza
Da regência
Da descrença

Há uma língua azul
Há muitas línguas
A língua de Raul
De queixas
De Seixas
De Camarões
De Camões

Há língua de “palmo”,
De “trapo”
De “badalo”
De Saramago!!!

Há línguas no museu
Há língua de Abreu
De formação
De catalão
De Libra
De fibra
De Louis Braille!

Há línguas no baile
Há muitas línguas
A língua indiferente do indiferente
A língua oposta do oposto
A língua nacional do irracional

A língua do jornal
Do sinal
Do santo
Do Esperanto
Do romeno
Do tormento
Do Chico Bento!

A língua de Castro
A língua do astro
Do roqueiro
Do grafiteiro
Do “jeitinho brasileiro”!

Há línguas no mundo inteiro!
A galega
A francesa
A espanhola...

Há a língua portuguesa!
Filha do Latim
Falada por Jobim
Em Portugal,
Angola,
Guiné-Bissau... Cresceu;
E a tribo Guarani também aprendeu!

Língua da Ilha da Madeira...
Do Brasil!
À brasileira!
Do nordestino
Do velho
Do jovem
Do menino
Do mineiro...

Português brasileiro
Também é português verdadeiro!

Há línguas e línguas
Há muitas línguas
A língua viperina
A neolatina
A analfabética
A poética
A materna
A “eterna”...

A língua da “guerra”,
A língua viva,
E viva todas as línguas da Terra!
A verbal
A musical
A gestual
A obscena
A da cena...

A língua da lei
Da canção
Da boa razão
Do destino
Dos meios
De Afonso Arinos...!

Há língua nas leis do mundo inteiro!

Com a língua se acha o respeito
O direito
A dignidade
A amizade
A razão
A compreensão...
O caminho da inclusão!

Língua pra falar
Pra amar
Pra participar
Pra ler
Pra escrever...
Pra sonhar!

Com a língua se viaja
Pela imagem
Pela coragem...
Pelos mares!

Com a língua se descobrem novos lugares
Outras terras
Outras serras
Outros saberes!

Assim a quis
Machado de Assis
Com a língua Machado criava
Os dias quentes de verão
Os jardins da primavera
E o beijo dos beija-flores!
E recriava o romance dos amores!

E no jardim da infância
Um pouco de lembrança
Das cores,
Das flores...

Há muitas línguas
A língua que forma
Que informa
Que inclui
Que exclui...

Línguas que se destroem
Línguas que se constroem
Línguas no trem...

Língua é poder
É força
E domina quem a tem!

Há muitas línguas
Há homens sem língua
Há homens de língua
Há, porém, homens sem vozes
Porque lhes roubam a língua!

Mata-se o homem, mata-se a língua
Mata-se a língua, mata-se o homem
E mata-se todo o mundo!

Muda-se o Homem, muda-se a língua;
Muda-se o tempo, mudam-se as línguas;
Muda-se a língua, muda-se todo o mundo!

Há muitas línguas
Há sempre novidades,
Diferentes em toda e qualquer cidade;
E do mau uso da língua
Ficam as marcas na sociedade
E do Casimiriano as saudades!

A língua define origem
Traça os destinos
Ilumina na escuridão
Quebra as correntes da escravidão
Expande a mente
Torna seres mais conscientes!

Porém, com a sobrevivência na mente
O aprendizado no chão
E a incerteza na frente
Sem lei nem grei:
É a língua que encontrarei!

No entanto, resta-me a esperança
De um estalar de latidos da consciência
E ainda na minh’existência
Poder ver
Um belo saber
Um belo viver
E toda criança ser bem-sucedida quando crescer!

Publicado em 28/02/2012

Publicado em 28 de fevereiro de 2012