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Temperamento e carreira motivadora

Armando Correa de Siqueira Neto

Psicólogo e professor

Chamou a atenção o jeito otimista e educado pelo qual o moço atendia os consumidores naquele comércio. Mesmo faltando parte dos produtos oferecidos por aquela marca que ele representava, sabia contornar a situação de maneira simpática sem perder a venda (uma coisa é ser gentil, outra é trazer resultado), envolvendo cada pessoa em sua gostosa conversa. Era um dia de intenso calor e ele não se queixou uma única vez, diferentemente de todos que ali se encontravam. Resolvi então conversar e conhecê-lo, perguntando as razões que o motivavam a ser daquele jeito. Ele respondeu que gostava de ser assim, e que não conseguia ser diferente. Questionei-o sobre o que mais o motivava no trabalho. A resposta foi curta: “as pessoas!”. Disse que adorava gente de todo tipo. Acrescentou espontaneamente que todo trabalho é “ruim” e que não existe empresa “santa”. No entanto, a motivação, segundo ele, estava em se relacionar com clientes e fornecedores no ambiente de trabalho. Este era o seu prazer.

Ao refletir sobre o jeito de ser de cada um, localiza-se o tipo de temperamento, cujas diferenças podem (ou não) facilitar o ajuste entre a pessoa e a função profissional que ela exerce. Um exemplo claro é justamente esse jovem atendente, que confirmou ser assim desde a infância, corroborando a ideia sobre temperamento e tipo de trabalho. Ele possuía atitude extrovertida. Ou seja, de acordo com os estudos do médico suíço Carl Jung, “os extrovertidos envolvem-se com o mundo externo das pessoas e coisas; tendem a ser mais sociais e conscientes do que está acontecendo à sua volta. Já os introvertidos concentram-se mais em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior”. Imagine, portanto, as adequações e, sobretudo, inadequações existentes no mercado de trabalho. Quantas pessoas sentem-se mal compreendidas?

Nem sempre, porém, é possível conciliar tal questão, levando muita gente boa a sofrer pelo desajuste. Todavia, cumpre-se destacar que as pessoas podem desenvolver aspectos existentes de outro temperamento, além do que tímidos e festivos sempre encontrarão espaço no mercado de trabalho.

É relevante o fato de que muitas pessoas lutam para superar diferenças percebidas por elas em relação às outras. Por tal perspectiva, o psicanalista Alfred Adler definiu a vontade como “sinônimo de luta pela superioridade e realização de objetivos de vida”. Segundo ele, quando há a presença de sentimentos de inferioridade no ser humano, ele tende a buscar superioridade pessoal em face de sua insegurança. É de se pensar a respeito, pois, semelhantemente, alguns funcionários se preocupam com o que os superiores podem achar deles (ser considerado fraco, com pouca capacidade) – e tal insegurança, aliada ao tipo de temperamento ou ao status de manter-se sempre por cima das situações, é motivadora em relação ao seu bom nível de desempenho.

Publicado em 28 de fevereiro de 2012

Publicado em 28 de fevereiro de 2012