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A roupa nova de Caetano

Alexandre Amorim

Os jornais anunciam o novo disco de Caetano Veloso, Abraçaço, como o último de uma trilogia com a banda Cê, formada de jovens músicos. A trilogia (formada também por e Zii e Zie) trouxe uma roupagem mais roqueira e mais crua para as músicas do baiano, que vinha lançando discos de compilações e covers em meio a obras mais complexas, como Noites do Norte e Livro.

Não há juízo de valor nos termos “cru” e “complexo” usados aqui: se os arranjos deixaram de contar com um número maior de instrumentos e se as melodias podem soar menos trabalhadas, a economia é apenas aparente: a conversa mais intimista entre violão, guitarra, baixo e bateria está afiadíssima e mesmo as músicas que não seguem a tradição de canção brasileira trazem a marca melódica de Caetano. Além, é claro, das letras inteligentes e/ou poéticas do compositor que, em 1967, mostrava ao mundo os versos cantados por Gal Costa:

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer

Se hoje Caetano parece menos lírico ao cantar que “a bossa nova é foda”, não se engane. A roupa nova de Caetano é apenas um jeito diferente de vestir o poeta de Santo Amaro. E, desde 1967, ele já apareceu de gola rolê, roupas psicodélicas, tanga, terno com ombreiras, enfim, seguiu e criou tendências. Hoje, é comum que apareça de camisa polo e calças jeans. Os cabelos grisalhos e os óculos sempre presentes lembram que esse camaleão completa 70 anos – e nos surpreendem, porque ninguém pode dizer incólume que Caetano está velho.

Nem ele, nem sua poesia. Se o seu lado roqueiro cria letras como “você foi mor rata comigo” ou “tarado ni você”, o lado poético também se mantém produtivo. E conta, por exemplo, a história do comunista Marighella em versos de rimas internas, estrofes metrificadas e uma narrativa cheia da sensibilidade de quem viveu a conturbada luta por um país melhor. A roupa nova de Caetano não esconde seu talento. Ao contrário, mostra como ele pode ser múltiplo e se vestir de diferentes modos.

E de se expressar de diferentes maneiras, muitas vezes causando confusões. A imprensa já publicou afirmações de Caetano tais como “O Brasil vai melhorar porque eu quero”, “Lula é analfabeto, cafona e grosseiro” ou “Noel Rosa é racista”. Como a imprensa precisa vender seu produto, acaba por resumir de forma um tanto medíocre os assuntos veiculados. O próprio baiano já reclamou disso, em carta ao jornal O Estado de S. Paulo: “o que mais me impressiona é as pessoas reagirem diante da manchete do jornal, tal como ela foi armada para criar briga, sem sequer parecerem ter lido o trecho da entrevista de onde ela foi tirada. É um país de analfabetos? A intenção sensacionalista da edição tem êxito inconteste com os leitores. Pobres de nós”.

Mas o mais estranho é quando tentam dissociar o cidadão e o compositor. Em quase toda conversa de mesa de bar escutamos alguém dizer que “eu gosto das músicas dele, mas quando ele abre a boca par falar...”.

Essa esquizofrenia que virou senso comum se dá geralmente por uma construção de imagem aceita pela maioria. E então a construção “Caetano é um compositor genial, mas só fala besteira” torna-se fato e seus seguidores deixam de aproveitar os dois lados do poeta e cidadão, porque deixam de pensar sobre o que estão lendo, mas também deixam de interpretar as canções, aceitando que são “geniais”. A crítica, umas das ferramentas mais utilizadas por Caetano para compor e para emitir suas opiniões, é abandonada pelo público.

Talvez por isso, também as mudanças do músico causem estranheza a princípio. Para sorver a novidade, é necessária uma abertura da percepção estética. Não há como ouvir Abraçaço do mesmo modo que ouvimos Qualquer coisa. Não há como apreciar a crueza de um rock do mesmo modo que apreciamos Coração vagabundo. Não se pode apreciar um terno do mesmo modo como se aprecia uma camiseta estampada com um personagem de quadrinhos. Não há como criticar usando uma percepção viciada: são roupagens diferentes de um mesmo compositor. E, para poder afirmar que Caetano é genial ou não, não basta repetir o que já foi dito – é preciso ouvi-lo. Ouvi-lo novo e de novo.

Publicado em 19/03/13

Publicado em 19 de março de 2013