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O carregador e a dançarina: uma fábula extemporânea

Luis Estrela de Matos

Para Deleuze

Ele sempre carregava. Fosse o que fosse. Estava sempre pronto para carregar. Havia uma disponibilidade extrema em seu rosto. Seu rosto era reflexo de sua alma. Alma de carregador. Uma alma sempre disposta a carregar. Ajudar de graça, ser solícito. Ajudar-se. Óbvio. Quem tanto ajuda espera se ajudar, mesmo que não declare isso no imposto da vida. O egoísmo tem lá os seus méritos e a sua função. Autopreservação da espécie. Mas deixemos de lado os egoístas. O carregador pede continuação. Ele era prestativo como ninguém. Inclusive se ninguém estivesse precisando de ajuda ele, assim mesmo, daria uma forcinha e punha-se a carregar o vazio da vida... que tanto pesa. Sua alma já nascera assim. Julgava que carregar era o melhor da vida. Na verdade, ele não carregava nada. Ou melhor, carregava o nada e o peso milenar do niilismo. O carregador fraco, ao carregar sua mercadoria podre, empobrecia a todos que ajudava. A vida tornava-se insuportável e o carregador justificava-se nessa repudiante missão. Os homens tornando-se cúmplices. Uns dos outros. A fraqueza disseminando-se como recompensa da bondade... E uma grande expiação coletiva em forma de cultura, sociedade e até de história. Judaico-cristã. Ajudai-vos uns aos outros ficava estampado em seu rosto quando se oferecia para carregar algo. E quando não havia algo para carregar, ele punha-se a carregar nossas vidas. É claro que, com isso, nos tornávamos seres culposos, carregadores também. E assim a Grécia desabou. E assim Roma sucumbiu ao peso de suas piores catacumbas e seus carregadores da nova palavra. Estes agora, no lugar dos gladiadores. A escravatura mais atroz , a maior vileza, o ato mais profano. Ajudai-vos uns aos outros. O carregador está sempre alerta, sempre pronto a nos ajudar. O reativo em seu esplendor. E ele domina por inteiro o cenário. Ele se arrebenta de tanto carregar. O fraco enfraquece o forte. Todo o cansaço do carregador, todo o sofrimento em seu rosto, em seus gestos marcados, tornando-se nossa herança e nos fazendo também novos carregadores. Nossa fraqueza, eis a força reativa que ele demonstra nessa instantaneidade do préstimo. Degeneramo-nos num piscar de olhos. Os escravos e seus carregamentos dominando todos os confins do globo terrestre. Três vivas à democracia, gritam todos. As massas empanturrando-se com os biscoitinhos finos da marca Oswald de Andrade.

Certa vez o carregador viu-se num circo, transportando objetos pesados de um lado para outro. Era dia de ensaio geral. Quando deu por si estava olhando o picadeiro e percebeu, num silêncio esplendoroso, um grupo de dançarinos acrobatas fazendo números realmente surpreendentes. Nada falavam. Movimento puro. O carregador conhecia muitos lugares no mundo, já visitara os lugares mais estranhos possíveis, porém ali havia algo inusitado. Olhou para a carga e deitou-a, com o cuidado de um carregador experiente, ao pé de si. Esses dançarinos não carregavam nada. Saltavam e pulavam e sentiam e voavam de trapézio para trapézio. Estavam felizes, leves, harmoniosos, sem culpa alguma. O carregador achou aquilo estranho, pois ele sempre via culpa no rosto de quem ajudava. O mundo era o peso, o fardo. A culpa. E a remissão no ato de ajudar. De carregar. O carregador percebeu que a sincronia de tudo aquilo não necessitava de ajuda alguma. Eles se completavam. E sem carregamento algum. Pura dádiva, doavam-se ao instante seguinte sem o menor receio, sem expectativa alguma. Enfim, amavam a vida livremente. E não esperavam por ninguém. Jogavam-se ao espaço e os corpos cintilavam um estranho brilho com a cor da verdade. Todos aqueles movimentos, saltos, aquela alegria por nada deixaram o carregador incomodado. Afinal de contas, aqueles dançarinos não ajudavam ninguém. Simplesmente dançavam. Aquela nobreza ativa fez-lhe tremer todo por dentro. Sua alma ia sufocando. Ao fundo, uma leve música tocada de mistério preenchia o circo. Ele não conseguia atinar com tudo aquilo. Gratuito. Mas a situação piorou quando ele percebeu que eles ensaiavam sem rede alguma, sem proteção nenhuma. Sem rede, sem corda. Puro acontecer. Criavam-se ali, livres, sem obstáculo. Subitamente ele se sentiu mal e uma espécie de náusea que nunca experimentara tomou-o por inteiro. Movimentou-se rápido e tão desastradamente que até esqueceu a culpa, vale dizer, o carregamento. Quem o visse teria visto um doido correr. Quando olhou em volta, já estava fora da lona, em pleno céu azul, e o calor a bater-lhe na cara. Esfregou a pele do rosto como se quisesse perceber algo por debaixo. Enfiou as unhas com alguma vontade e nem sangue saiu. Sua suspeita confirmava-se. Por baixo daquilo tudo não havia nada. Lembrou-se da dançarina de colete azul e seus saltos gratuitos. O carregador pertencia a esse mundo. Para sempre. Também era do últimos homens. Um simulacro.

Publicado em 26/03/2013

Publicado em 26 de março de 2013