Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Outras primaveras

Pablo Capistrano

Quando anunciou sua renúncia, Bento XVI alertou para urgência de “colocar em prática o verdadeiro Concílio Vaticano II”. Essa assertiva pode ser interpretada como uma resposta estratégica a demanda do cardeal Carlo Maria Martini, que, antes de sua morte em agosto do ano passado, clamava a necessidade de convocar um Concilio Vaticano III para ajustar às demandas de nosso tempo uma igreja que, em seu julgar, estava 200 anos atrasada.

Parece espantoso para muitos que um Papa conservador como Bento XVI tenha feito referência, em sua renúncia a um dos três mais importantes e revolucionários concílios da Igreja (de importância equivalente ao de Niceia, em 325, e o de Trento, de 1545 a 1563).

Quando João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, recriou-se de certo modo o clima da democracia original da Igreja. Ouviu-se, pelos corredores do vaticano, um eco do cristianismo original, a presença de um tempo no qual os bispos eram eleitos pelo povo e a comunidade cristã, colegiadamente, se contrapunha a um modelo político de centralização, instituído na figura do imperador, chefe supremo e infalível da religião romana.

Bento XVI foi o último papa a ter participado ativamente do Concilio Vaticano II; ele o conhece por dentro, mesmo tendo feito parte da linhagem de cardeais conservadores que bloqueou os avanços do concilio. Temas como o celibato dos padres, a questão dos contraceptivos ou mesmo o aprofundamento de uma gestão colegiada no interior do Vaticano foram retirados das pautas de discussão da Igreja na linhagem que seguiu a morte de João XXIII. Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI sempre foram ligados a uma tendência contrarreformista que teria bloqueado o potencial revolucionário do Concilio Vaticano II. Se assim o é, por que essa referencia agora a um concílio que não teria sido posto em prática?

A crise por que passa a Igreja Católica é estrutural. A dificuldade de formar novos padres para a atividade missionária e o colapso da vocação feminina na igreja (os católicos perderam 50 mil freiras nos últimos anos) são sintomas mais evidentes de uma situação que parece estrangular a própria vida eclesiástica.

Uma igreja sem fiéis é um problema, mas uma igreja sem padres ou sem freiras seria o quê? A renuncia de Bento XVI foi interpretada, na maioria das vezes, a partir de suas razões; chama mais atenção pelo seu efeito. Saber o porquê de o Papa ter renunciado não é a questão central. O mais relevante é saber o que sua renúncia produzirá em uma estrutura comprometida por uma profunda crise de identidade e de credibilidade.

O efeito mais imediato é o chamamento ao confronto político e à necessidade de construir uma discussão ampla e profunda sobre o futuro da Igreja Católica no Ocidente. Sob o rótulo do conservadorismo, a Igreja precisa pensar em sua própria sobrevivência como instituição, projetar seu futuro diante de um tempo hostil em que os poderes da transcendência parecem terem sido dominados, em seu próprio território teológico, por uma urgência niilista que não condiz com a esperança utópica cristã de uma parusia redentora.

Se for correta a regra que diz Ecclesia semper reformanda (a Igreja deve ser sempre reformada), a esperança do povo católico é que a renúncia do papa possa materializar, no século XXI, o que João XXIII anunciou ao fazer referência ao seu concílio como “uma flor de inesperada primavera”.

São essas as primaveras mais ansiadas. As outras primaveras, as que surgem inesperadamente quando o inverno da história parece ser mais inexpugnável.

26/03/2013

Publicado em 26 de março de 2013