Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O mapa da literatura brasileira atual no contexto da América Latina

Ieda Magri

Com projeto de pós-doutorado aprovado no último edital do Programa Pós-doutorado Nota 10 da Faperj, Ieda Magri e Beatriz Resende se dedicam ao estudo da literatura brasileira atual e o sistema editorial da América Latina.

A seguir está o relato de Ieda Magri, doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ e autora do livro de ficção Tinha uma coisa aqui (7Letras); atualmente é professora substituta no programa de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ e editora executiva da revista Z Cultural, além de ter vários artigos publicados na revista Educação Pública. Beatriz Resende é crítica, pesquisadora, doutora em Literatura Comparada e professora titular de Poética do Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ. É coordenadora-adjunta do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), na UFRJ e edita, junto com Heloisa Buarque de Hollanda, a revista Z Cultural.

Sendo o Brasil um caso à parte nos estudos da literatura latino-americana tanto por questões linguísticas quanto por questões de extensão territorial e trocas comerciais que partem, antes, de relações com os EUA e Europa em lugar de privilegiar a troca entre os países latino-americanos, observamos nos últimos anos uma aceleração na entrada do país no mercado globalizado do livro e uma aproximação de mão-dupla entre os escritores brasileiros e os dos outros países da América Latina. Assim, nossa literatura vem ganhando atenção notavelmente, com a recente publicação da Granta que apresenta os “20 melhores escritores brasileiros” para o mercado estrangeiro, com a participação como país convidado na Feira de Frankfurt de 2013 e, em 2012, pela primeira vez, com participação de escritores convidados na Feira de Guadalajara, importante evento de difusão do livro para a América Latina e para a Europa. Internamente, o estímulo à tradução de autores brasileiros no exterior mediante o prêmio da Biblioteca Nacional e os prêmios de Criação Literária da Funarte (2010, 2012) e da Petrobras (2013) tem fomentado a produção e a circulação da literatura brasileira além das fronteiras nacionais.

Há, no entanto, todo um mapa escondido da literatura brasileira contemporânea que se estabelece nas pequenas editoras e que alcança visibilidade somente em alguns círculos acadêmicos ou comunitários que pouco ou nada têm a ver com a literatura que começa a ser conhecida fora dos limites da nação.

Nosso projeto, assim, propõe a construção dos mapas da literatura brasileira e latino-americana que está sendo feita a partir dos anos 2000 e, a partir deles, a pesquisa e análise das relações autor-público, literatura-mercado, produção-circulação, legitimação pelo mercado x legitimação pelos leitores especializados e prêmios dentro do sistema literário latino-americano. O mapa deve permitir que se analise que valores são os pilares da literatura atual, se há ou não oposição à literatura de mercado, aquela que, indiscutivelmente faz o mapa visível da literatura, de modo que se possa discutir os conceitos de autonomia, pós-autonomia e luta pela legitimação, entre outros.

O conceito de mapa é tomado de Moretti, em Atlas do romance europeu (se bem que usado também por Pascale Casanova e outros autores), para quem os mapas funcionam como ferramenta intelectual para entender a geografia como “uma força ativa que impregna o campo literário e o conforma em profundidade”. É inegável que o próprio mercado do livro toma o mapa para expansão de seus investimentos, sendo a América Latina considerada o mapa geográfico do mercado em expansão por excelência e, portanto, centro do interesse das editoras europeias e seus grupos de fusão. O mapa da América Latina é, portanto, conformado em termos de geografia e, ao mesmo tempo, em termos linguísticos, tanto para a localização de um pensamento crítico específico que tem a ver com o debate centro-periferia, legitimação-independência, homogeneização-diferença quanto para a localização de um mercado específico em expansão.

Um olhar sobre o discurso dos escritores de maior prestígio em nossa época, Roberto Bolaño – cujo Os detetives selvagens ultrapassou 70 milhões de livros vendidos no mundo ainda em 2009 (Herralde, 2009, p. 282) –, Enrique Villa-Matas e César Aira, os três de língua espanhola, cujas “falas” são ouvidas fora dos muros nacionais e mesmo continentais, mostra que são categóricos na afirmação de uma literatura supranacional. São exemplos afirmações como “A pátria do escritor é sua língua” e “A pátria do escritor é sua biblioteca” (Bolaño); “‘literatura nacional’ é um conceito do século 19” (Villa-Matas) ou, por exemplo, a valorização extrema das pequenas editoras espalhadas pela América Latina e Espanha que faz César Aira optar por publicar seus livros em diferentes países em pequenas tiragens.

Essa reivindicação de uma literatura não delimitada em termos de nação leva a pensar em uma comunidade literária performada em termos de língua, com trânsito livre, portanto, entre América Latina e Europa de língua espanhola. O trânsito, porém, segue regido por fortes leis de mercado que continuam se pautando, em certa medida, nos limites de nação (Burkhard Pohl, Cadernos Hispano-americanos, p. 43-51) ¾ como é o caso brasileiro, por exemplo, que se isola, em termos de língua, no mapa da literatura na América Latina ¾, e os autores de maior prestígio literário protagonizam um debate bastante rico em termos de oposição entre valor de mercado e valor literário, colocando-se constantemente como contraparte de resistência às estratégias de mercado na definição de importância das obras e dos autores no mapa literário mundial. Pese a aposta de Josefina Ludmer na definição de literatura pós-autônoma, ou seja, que não poderia mais ser lida em termos de valor ou da oposição autonomia/mercado. Para a autora, a geração de 1960/70 seria a última que ainda convive com esses valores ou esses problemas: “Es el último avatar de la autonomia: la literatura de los hijos de los anos 1960 y 1970, de los herederos de las vanguardias. Su diferencia con las vanguardias es que el futuro ya fue” (Ludmer, 2010, p. 92).

Levando em conta, no entanto, o jogo de forças que conforma o campo literário, esses autores que alcançam seu reconhecimento fora dos limites da nação e, como é o caso dos três autores citados, fora mesmo do limite da língua, se envolvem em uma luta simbólica (Bourdieu) para manter ou escalar posições e redefinir o cânone, como demonstra Dunia Gras Miravet no seu importante panorama do contexto literário da América Latina e Espanha, nos Cadernos Hispano-americanos (p. 15-29), no qual o Brasil aparece como um importante mercado, à parte, porém, pela questão da língua.

Pascale Casanova, em seu livro República mundial das letras, toma de Bourdieu uma concepção espacial de literatura que descreve o campo literário como um conjunto de relações de poder em um mapa geocultural cuja lógica opera com autonomia relativa em relação ao mapa geopolítico. Dessa forma, para a autora, a base do sistema literário não está radicada em estéticas específicas, mas em sua legitimação e posterior reprodução em um sistema discursivo concreto que se traduz em traduções, edições etc. Numa palavra, o sistema literário poderia ser definido como negociação (Casanova) ou como acordo (Moretti) que se dá entre o centro legitimador e as diversas nações periféricas, ainda que esse centro migre de uma nação a outra tendo em vista os modos de legitimação: prêmios, traduções para o maior número possível de línguas, acolhimento entre os críticos que têm influência e conseguem dar prestígio à obra. É fácil deduzir daí que o escritor desses países periféricos enfrenta uma luta pela legitimação em seu país em busca do direito de “existir”, no sistema literário mundial, ou seja, transnacional.

A escolha de nosso tema toma como ponto de partida o “acontecimento” Roberto Bolaño, que dinamizou as discussões em torno da literatura latino-americana dos anos 2000 e interferiu no debate em torno da crítica e da legitimação literária. Suas intervenções críticas em jornais e revistas, bem como prefácios e apresentações de livros reunidos no livro Entre parênteses (2004), são hoje objeto de estudo de críticos e escritores latino-americanos e sua literatura tem forte influência sobre escritores e leitores contemporâneos. No Brasil, sua obra vem sendo publicada pela Companhia das Letras, que traduz um título por ano, embora ainda não tenha sido publicada a obra crítica. É consenso que o interesse em sua ficção e em seus escritos críticos só vem aumentando nos últimos anos, indo além da badalação em torno de seu nome e do incentivo das editoras na criação de uma espécie de mito do escritor.

O olhar de Bolaño sobre a literatura na América Latina ajuda a entender a situação do sistema literário atual e sua conformação dentro do que se pode chamar de mercado mundial: aquele seleto número de obras que conseguem ultrapassar as fronteiras nacionais e linguísticas, passando a integrar o “sistema discursivo concreto que se traduz em traduções, edições etc.” do qual fala Pascale Casanova. Sua atividade de crítico, associada à de escritor legitimado e que portanto tornou-se uma espécie de autoridade literária, é exercida com vista a ferir a legitimação dada exclusivamente pelo mercado. Isto é evidente em seus discursos e em seus livros quando não cessa de atacar ou de denunciar o prestígio dos escritores da América Latina que conquistaram seu espaço pelo número de livros vendidos: Isabel Allende, Paulo Coelho, os mais óbvios, mas também quando chama atenção para a unanimidade de alguns nomes ditos canônicos, como Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Octávio Paz, entre outros. Ao mesmo tempo que abre o panorama da literatura latino-americana para outros nomes dessa mesma geração ou mais jovens e que ficaram menos conhecidos, como Nicanor Parra, Enrique Lihn, Mário Santiago Papasquiaro, Pedro Lemebel, elevando seus nomes em escala transnacional, convida os leitores à leitura e releitura de um grande número de autores.

Ao eleger os seus autores de maior valor, Bolaño retira do museu da literatura importantes escritores que perdem leitores a cada dia devido à sua publicação somente em escala nacional ou devido a uma espécie de limbo em que padecem justamente por serem canônicos. Bolaño torna presente para as novas gerações os escritores que tiveram prestígio no passado e aponta para a necessidade de reedição incessante de suas obras. Assim, ele interfere tanto na recepção, levando seus leitores à leitura de outros, quanto no próprio andamento do mercado literário – sem dúvida, em pequena escala, mas ainda assim promove traduções e edições de obras de autores menos conhecidos ou esquecidos. Bolaño constrói, assim, uma visão o mais clara possível para a expressão do que seja a literatura com capacidade de sobreviver às implicações extraliterárias, como o mercado de tradução e edição, o marketing do autor etc., e seu gesto é claro: diminui o espaço dos escritores do establishment que já não podem provocar novas leituras para que caibam no mapa da literatura os autores: a) desajustados; b) secretos ou desconhecidos e c) os que se implicam politicamente no ato de escrever.

Dessa maneira, Bolaño reorganiza o mapa da literatura latino-americana, construindo um mapa próprio, que interfere no sistema de edições na medida da recepção de sua obra, que leva consigo a indicação de leituras de escritores desconhecidos, gerando o interesse e convergindo olhares sobre a literatura feita aqui.

Em As regras da arte, Pierre Bourdieu (1996, p. 373) diz que “estamos em um jogo em que todos os lances que se jogam hoje, aqui e ali, já foram jogados”, referindo-se ao fato de que a luta pela autonomia da arte, da ciência e da literatura é um jogo que não cessa de ser jogado desde a constituição dos campos específicos, cuja história, aliás, reconstrói para defender a necessidade de um empenho permanente dos intelectuais e produtores pela defesa da autonomia na criação artística em relação ao mercado. É preciso reconhecer, com Bourdieu (1996, p. 375), que essa autonomia hoje está fortemente ameaçada de uma maneira totalmente nova pela interpenetração do mundo do dinheiro no mundo da criação artística e que “o domínio ou o império da economia sobre a pesquisa artística ou científica exerce-se também no interior mesmo do campo através do controle dos meios de produção e de difusão cultural e mesmo das instâncias de consagração”.

O problema presente que se impõe quando se fala de literatura e mercado é que alguma literatura não precisa de defesa porque o mercado se interessa por ela e rege, inclusive, sua produção; entretanto, alguma outra literatura precisa de defesa porque o mercado não está interessado em sua produção e difusão. Essa literatura outra continua sendo escrita, mas nem sempre pode ser publicada e raramente atravessa os muros nacionais, ficando pouco tempo nas livrarias antes de ser destruída. É nesse sentido que a oposição valor de mercado x valor literário continua sendo uma questão importante nos estudos de literatura e é por isso que nos dispomos a nos debruçar mais uma vez sobre ela.

Referências

BOLAÑO, Roberto. Entre parenteses. Ensayos, artículos y discursos (1998-2003). Barcelona: Anagrama, 2004.

BOLAÑO, Roberto. El gaúcho insufrible. Barcelona: Anagrama, 2004.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte. Gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CASANOVA, Pascale. República mundial das letras. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

GRAS MIRAVET, Dunia. Del lado de allá, del lado de acá: estrategias editoriales y el campo literario de la narrativa hispanoamericana actual de España. Cuadernos Hispanoamericanos, nº 604, p. 14-42, octubre 2000. Disponível em: http://www.cervantesvirtual.com/descargaPdf/cuadernos-hispanoamericanos--147/. Acesso em março 2012.

HERRALDE, Jorge. El optimismo de la voluntad. Experiências editoriales en América Latina. México: Fondo de Cultura Económica, 2009.

LUDMER, Josefina. Aquí América latina. Una especulación. Buenos Aires: Eterna Cadência, 2010.

MORETTI, Franco. Atlas do romance europeu. 1800-1900. São Paulo: Boitempo, 2003.

RESENDE, Beatriz (Org.). A literatura latino-americana do século XXI. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.

Publicado em 7 de maio de 2013

Publicado em 07 de maio de 2013

Novidades por e-mail

Para receber nossas atualizações semanais, basta você se inscrever em nosso mailing

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.