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A seleção natural das escolas de ponta e a sopa de pedras

Mariana Cruz

Tenho um amigo advogado que é também formado em Matemática, mestre em História e campeão de xadrez, entre outras coisas. Enfim, trata-se de um indivíduo dotado de certa desenvoltura intelectual em algumas áreas. Ele tem uma filha de dez anos que estuda em uma escola particular do Rio de Janeiro, daquelas consideradas de ponta – o que atualmente significa estar entre as primeiras colocadas no Enem. A menina é boa em todas as matérias, exceto uma. Acertou quem pensou Matemática. O pai, embora não more na mesma cidade que sua pequena, vem frequentemente visitá-la e sempre que pode dá uma ajuda nos exercícios. Nos últimos tempos, notou que ela não tinha dificuldade em entender a matéria nem em fazer contas. Foi quando resolver pegar as provas e os exercícios passados pelo professor. O que pôde constatar daí é que o problema dela está em interpretar o enunciado, não só pela extensão como pela sua complexidade; dificuldade essa que ele não atribui não à falta de competência da filha (ele não faz o tipo de pai que “passa a mão na cabeça”; ao contrário, é bem realista). Ele constatou então que o rendimento da menina caía na proporção em que os enunciados iam se tornando mais complicados. Quando deu por si, não estava mais ensinando Matemática à garota e sim interpretação de texto.

Não penso que seja negativo criar enunciados complexos nas provas de Ciências Exatas. É importante que o aluno saiba ler e, com isso, entender o que está sendo pedido. O que me preocupa é a precocidade com que isso vem sendo aplicado. As escolas, na ânsia de ficar entre as primeiras no Enem, arrebanhar mais e melhores alunos (assim como as empresas fazem para angariar seus clientes), tendem a aumentar cada vez mais cedo o grau de dificuldade. Para uma menina de dez anos, já viver esse estresse em relação aos estudos é um tanto cedo. Na minha época (sou de 1974), o estresse pré-vestibular começava no Ensino Médio. Até chegar lá, bastava fazer os deveres, praticar uma ou duas atividades extraclasse e podia ver a Sessão da tarde em paz. Hoje o que vejo são crianças (e até mesmo bebês) com excesso de atividades extraclasse e de cobranças (o que dizer do “vestibulinho” que os pimpolhos no alto de seus seis anos fazem para entrar nas escolas mais disputadas?). O resultado disso são alunos medianos (que são a maioria em qualquer colégio) passando todos os anos de sua infância e adolescência estressados com fantasma da repetência a rondar e a cada bimestre fazendo e refazendo as contas de “quanto-falta-para-passar-de-ano” em cada matéria. Claro que nem todos os estudantes convivem com esse “encosto”: há aqueles que são brilhantes, têm ótimo desempenho em todas as matérias, passam direto sem dificuldades. Há os que não querem/não gostam de estudar ou têm dificuldades de cognição – esses já são previamente excluídos pelo sistema. Falo dos esforçados (ou aqueles cujos pais se esforçam por eles: contratam quantos professores particulares forem necessários, fazem revisão das provas e sempre que encontram um erro que acrescente um décimo que seja vão à escola reclamar da nota baixa dos pequenos e, se tudo correr bem, ainda são recompensados com uma viagem a Disney nas férias).

A filha de meu amigo poderia ser classificada como uma aluna do tipo esforçada. Ele, porém, diferente de muitos pais, discorda de ter que contratar professores particulares para ela, afinal, a mensalidade escolar já é para lá de alta (aliás, quando se trata do Rio de Janeiro tal assunto já é redundante; hoje, em qualquer mesa de bar, escritório, fila de banco só se fala nos preços absurdos praticados na Cidade Maravilhosa). Sobre tal sistema de ensino meu amigo diz ter “a impressão de que isso não se deve apenas a qualquer forma de excelência, mas também a uma política de ‘sobrevivência do mais forte’, expelindo os elementos menos dotados e ficando só com os geniozinhos”. Mas para fazer número, só ter alunos “brilhantes” não basta.

E aqueles que não são geniozinhos, mas que conseguem chegar bem ao fim da vida escolar (não diria exatamente “são e salvos”), acabam ajudando a dar mérito à escola, à custa de horas, dias, anos de aulas particulares.

Meu amigo conclui lembrando a história da “Sopa de Pedra”, aquela em que um forasteiro faminto e com vergonha de pedir comida inventa que tem uma pedra mágica que faz a melhor sopa do mundo. Quando alguém se oferece para fazer a sopa, o viajante coloca a pedra e depois sugere que, para engrossar o caldo, sejam colocados alguns legumes. De fato a sopa fica deliciosa, não pela pedra colocada e sim pelos ingredientes que os incautos lhe dão. Da mesma forma acontece com esses colégios tipo A; a reputação é feita de uma pequena parte dos geniozinhos e de grande parte dos incautos que ficam pagando professores particulares para os filhos.

Publicado em 28/05/2013

Publicado em 28 de maio de 2013