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Reformar para mudar o atual paradigma educacional

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Mestrando do Prodema (UFPB), especialista em Educação (IESP); pesquisador do Gepea-Gepec da UFPB/CE-CNPq; diretor da SEMA/Cabedelo-PB

Segundo Moraes (2010), a educação contemporânea precisa ser repensada numa ótica que atenda às necessidades da sociedade emergente, com vista a desenvolver no educador uma visão sistêmica para que consiga formar um cidadão com competências necessárias ao pleno desenvolvimento social, cultural e científico da humanidade. Da mesma forma, Vasconcelos (2010) transcorre sobre a formação sistêmica do ser humano, para que o mesmo quebre o paradigma cartesiano da ciência, que dicotomiza e fragmenta os saberes para entendimento de suas partes. No entanto, Morin (2010) afirma que, com uma percepção que una os saberes através de suas partes para o entendimento do todo, conseguiremos encontrar uma concepção sistêmica que permita ao ser humano entender a si mesmo, seu papel neste planeta e a mudar sua ótica social e educacional para permitir que a sociedade consiga alcançar patamares superiores de desenvolvimento.

Vasconcelos (2010) afirma que devemos repensar o modelo de geração de conhecimentos pela ciência, de forma a integrar os vários níveis e áreas do saber, para unificar o pensamento, de forma a garantir que o cidadão consiga obter uma práxis do saber, não dissociando teoria de prática. Sendo assim, como diz Moraes (2010), urge romper o tradicional para que as matrizes curriculares do sistema de ensino consigam atuar de modo a formar o alunado pela ruptura do paradigma contemporâneo, para que consigamos desenvolver um cidadão crítico-social que mude a sociedade (FREIRE, 1996). Para Morin (2010), esse processo seria concebido como “ecologizar” as disciplinas, por meio da comunhão da política, da economia, do social, do ambiental, do cultural e do espiritual. Com essas concepções integradas, unidas filosofias e pedagogias em prol de uma formação transdisciplinar do ser humano, estaremos construindo um pensamento sistêmico que permitirá que a sociedade alcance os usos de sua ciência e de suas tecnologias nunca vistos anteriormente (VASCONCELOS, 2010).

Para Moraes (2010), o que caracteriza o paradigma educacional emergente é a natureza da melhoria da aprendizagem, acessível a qualquer indivíduo, dando-lhe oportunidades verdadeiramente iguais para estar e permanecer no sistema, evoluindo, desenvolvendo e edificando a sociedade. Essas mudanças são de natureza construtivista, interacionista, sociocultural e transcendente (Quadro 1).

Quadro 1 – Mudanças emergentes nos processos de formação educacional

Natureza Concepção
Construtivista Abarca o conhecimento inacabado, em constante processo de construção, dependente da ação dos sujeitos que o promovem e o transformam.
Interacionista É a forma de reconhecer o sujeito e o objeto de estudo como em constante intercâmbio, como mecanismo vivo e interativo, aberto e ativo.
Sociocultural É a concepção de que o ser se constrói na relação entre sociedade e cultura, em que o conhecimento é produzido pela interação do sujeito com o meio social.
Transcendente Em virtude da comunhão com a espiritualidade do ser humano, a fé e a crença em algo superior, amplia nossa consciência, estimulando a afetividade e a gênese da humildade, solidariedade e fraternidade.

Fonte: Lima (2009, p. 244).

Para Morais (2010) e Vasconcelos (2010), esse patamar da natureza humana do pensamento e da sociedade sistêmicas só ocorrerá quando conseguirmos direcionar o conhecimento produzido, repensando-o e reformulando-o, para não apenas cumular no sujeito (“cabeça cheia”), de forma desconexa, e sim ser absorvido, interpretado, aplicado e interconectado com os demais saberes anteriormente processados, no que Morin (2010) chama de “cabeça bem-feita”.

Para Vasconcelos (2010), essas mudanças ocorrerão quando o próprio educador mudar suas concepções e passar a abrir sua mente e sua percepção para as conexões ocultas que existem entre todos os fenômenos naturais e humanos, assim como preconizava Capra (2001), em sua concepção sistêmica das conexões entre todas as partes que compõem os sistemas vivos e os não vivos. Freire (1996) já tratava da importância do professor(a), na forma de ensinar a pensar certo, ou seja, mudando a si mesmo para ajudar a mudar seu educando.

Portanto, cabe ao educador iniciar pelo ato de educar, no seu fazer diário, a transformar a si mesmo para gradativamente conseguir mudar vidas, concepções e formas de pensar, pois “repensar a reforma é reformar o pensamento” (MORIN, 2010, p. 20), para gênese de um paradigma educacional emergente (MORAES, 2010) que suscite o novo paradigma da ciência (VASCONCELOS, 2010) e permita à sociedade contemporânea uma pedagogia da autonomia necessária a uma formação plena do ser humano (FREIRE, 1996).

Referências

CAPRA, F. A Teia da Vida. 6ª ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 37ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção Leitura).

LIMA, Márcio Roberto. O paradigma educacional emergente. Revista ExtraClasse, Belo Horizonte, n° 2, v. 1, jan. 2009, p. 238-244. Disponível em: http://www.sinprominas.org.br/imagensDin/arquivos/670.pdf. Acesso em: 19 nov. 2012.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 2010.

VASCONCELLOS, Maria José Estevão. Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. Campinas: Papirus, 2010.

Publicado em 28 de maio de 2013

Publicado em 28 de maio de 2013