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Somos todos beatniks

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia do IFRN

As biografias laudatórias são um saco. Desumanizam suas vítimas (os biografados), tornando-os sombras irreais, neutras, caricatas. Por isso, é sempre bom, quando for pensar em cometer uma biografia, amigo velho, dar uma caprichada no excremento moral do biografado. Desconfie dos santos, desconstrua os inocentes, mantenha-se impiedoso com os heróis. Não seja condescendente com quem se camufla atrás das próprias misérias por medo do ridículo. Ser humano é ser ridículo. Isso é que nos engrandece. Todos nós temos nossas porcarias secretas, nossos desajustes de estimação. Não seriamos normais se não tivéssemos essas sombras.

Talvez seja por essa fidelidade à humanidade de seus biografados que o álbum The Beats, de Harvey Pekar e Ed Piskor, me chamou tanta atenção.

Eu já havia lido outros livros sobre os beats e suas aventuras. Teve um tempo em que eu mesmo andei flertando existencialmente com alguns tropos retóricos beatniks, naquela Natal de fim de século, cheia de tédio e maresia.

Mas as biografias daqueles anos tornavam os beats heróis de uma geração perdida. Quase santos, quase profetas loucos de uma revolução cultural que a gente, nesta província cheia de sótãos e crepúsculos, tentava reproduzir.

No quadrinho de Pekar e Piskor eles não são heróis. Sem romantismo, a história de Kerouack, Ginsberg, Burroughs, Gary Snyder, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti e tantos outros escritores do underground norte-americano nos anos 1940 e 1950, que a mídia conservadora rotulou pejorativamente de beatniks, é apresentada com um didatismo cruel, desses que a gente encontra em de livro de Ensino Médio.

Geralmente, quando lida a partir do texto de Kerouack a geração beat passa a ser vista como uma epopeia romântica, idealizada, sentimental. Mas se a gente vira as páginas e passa a olhá-la pelos olhos de William Burroughs, por exemplo, ela acaba se tornando uma catástrofe cínica, marcada pela náusea da desgraça psicótica da heroína, do assassinato, das prisões vagabundas, dos manicômios, da morte no deserto.

Posso lhe dizer, amigo velho, que não existem kerouackismos nos quadrinhos de Pekar e Piskor. The Beats não se rende totalmente nem a linha da beatificação beatnik, que tanto moveu o juízo dos escritores de minha geração, nem à linha do terror narrativo da desconstrução da linguagem que nascia com as viagens de benzendrina, os rigores de uma vida vivida no limite da fome, da morte e da doença.

Talvez, para quem não conheça as narrativas beats ou só tenha lido On The Road, seja difícil notar como a mesma experiência fundamental de uma juventude que atravessou a guerra e mergulhou no mundo depressivo que se seguiu à hecatombe da sociedade burguesa do século XIX pode ser lida a partir de referentes tão díspares como os poemas de Ginsberg, os romances de Kerouack ou os Cut Ups de Burroughs.

Se houver um grande mérito da biografia didática de Harvey Pekar e Ed Piskor, talvez seja não esconder o excremento. Nem santificá-lo. O certo é que a história dos beats é o grande objeto de sua própria literatura, que se misturava com a vida marginal de seus protagonistas. Em um mundo surtado como o nosso, em que a ansiedade se tornou o grande remédio contra a melancolia, a leitura dos beats é quase uma obrigação.

Pois é, amigo velho, para descobrir o lugar onde estamos é preciso saber da coragem dos pioneiros. Ouvir as palavras daqueles que cruzam as pontes enquanto a massa treme de medo na borda da vida, congelada diante da estranha fé que mantém na realidade dos abismos.

Publicado em 25/06/2013

Publicado em 25 de junho de 2013