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A inteligência emocional e a justiça

Armando Correa de Siqueira Neto

Psicólogo (CRP 06/69637), palestrante, professor e mestre em Liderança. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006.

Uma condição essencial ao autoconhecimento é o desenvolvimento da inteligência emocional. É preciso conhecer mais a respeito das emoções e das suas possibilidades colaboradoras, principalmente no que diz respeito a sua ação conjunta à justiça. Tomemos contato com as emoções, cuja serventia pode ser identificada através do estudo realizado por Daniel Goleman: (1) raiva: com a aceleração do batimento cardíaco e a secreção de alguns hormônios, em destaque a adrenalina, gera-se uma pulsação e energia para agir vigorosamente mediante uma dada necessidade; (2) amor: estimula a aceitação, amizade, confiança, afinidade, adoração, paixão; (3) tristeza: põe a pessoa em contato consigo mesma, estimulando-a à autoavaliação de questões internas, a fim de encontrar soluções aos vários problemas psíquicos existentes; (4) vergonha: relaciona-se a culpa, vexame, remorso, arrependimento.

Logo, compreende-se que as emoções também dizem respeito às questões morais e éticas, e, consequentemente, aos nossos comportamentos. Emoção e moral devem caminhar de mãos dadas. Quantas atitudes (boas e ruins) são tomadas baseadas tanto na compreensão que se tem da justiça quanto pelo ímpeto do momento. Conforme uma se sobrepuja a outra (considerando-se o controle que se possui sobre as emoções), obtém-se um determinado resultado. Ou seja, caso a consciência acerca da justiça se faça imperativa em um dado momento de decisão, com o adequado recuo das emoções, é possível causar e obter efeitos recompensadores. Todavia, se as emoções se apossam da circunstância, certamente os resultados serão diferentes. É claro que há ocasiões em que uma certa dose de emoção é crucial para se decidir e sair da apatia, alcançando efeitos desejáveis. Cada situação deve ser avaliada e, com a devida prudência, empreender a ação que considerará a dosagem mais adequada entre moral e emoção. Porém, para se chegar a esse ponto, requer-se uma boa exploração acerca de si mesmo, através do autoconhecimento e o exercício do controle emocional ao longo dos anos. Conhecer, compreender e praticar.

Quantas vezes o ser humano age por impulso, quase que exclusivamente, e, depois de algum tempo, pode se arrepender pelo tipo de resultado que causou tanto para quem sofreu uma possível injustiça quanto para si próprio, cuja culpa pode perseguir por tempo indeterminado, ou até que se busque a redenção através de algum pedido de desculpa e reaproximação. É útil lembrar que para cada causa gerada, consciente ou inconsciente, de forma calma ou explosiva, decorrerão efeitos, cedo ou tarde. Há ocasiões em que agimos mais justamente e, em outras, nem tanto. Assim, desenvolver a inteligência emocional é uma tarefa para o crescimento, cujo objetivo é alcançar patamares mais elevados de consciência e atuação relacionadas à justiça. Criar melhores condições de controle sobre as emoções é crucial, especialmente nos casos em que a raiva se apossa por tempo indeterminado.

Perdoar, por conseguinte, é uma condição presente na gestão pessoal das emoções. Quando permanecemos rancorosos em relação a outrem são acionadas as emoções pertinentes a esse rancor. E, por tal razão, nos desgastamos tanto ao não perdoar o outro quanto ao não perdoar a si mesmo, haja vista o perdão partir de dentro de para fora para que ocorra legitimamente, e não da boca para fora. Outro ponto é o fato de que, ao não perdoar julgamos o outro imperdoável. A partir desta noção, criamos dificuldade para perdoar a nossas próprias injustiças, visto nos encontrarmos irredutíveis de acordo com a nossa crença. (Entretanto, não custa lembrar: todos nós cometemos injustiça!) A flexibilidade, o respeito e o perdão podem modificar tal cenário e libertar o que se prendeu internamente (rancor) a fim de equilibrar a atuação da justiça e permitir o desenvolvimento.

Logo, podemos nos inquietar por surgirem algumas perguntas: Faço mal a mim mesmo ao não perdoar? Sou justo com o outro por tal decisão? Sou justo comigo mesmo agindo assim? Tal como o padre Antônio Vieira (1608-1697) afirmou: “Quando perdoamos as ofensas que nos fazem nossos inimigos, nós mesmos nos damos o perdão das ofensas que temos feito a Deus. Com razão disse a santo: Homem, entende porque isto parece que se não pode entender. Dar perdão de pecados é jurisdição ou regalia somente de Deus: Logo, como me posso eu dar a mim mesmo o perdão de meus pecados? Funda-se esta sentença naquela promessa de Cristo: ‘Dimittite, et dimittemini’ (Lc 6, 37): ‘Perdoai, e sereis perdoados’. - E como esta promessa é condicional, e a condição depende de mim, quando eu cumpro a condição eu sou o que me perdôo.”

Porém, deve-se considerar a empatia nesta análise. De acordo com Goleman: “A empatia é alimentada pelo autoconhecimento; quanto mais consciente estivermos acerca de nossas próprias emoções, mais facilmente poderemos entender o sentimento alheio. Essa capacidade – de saber como o outro sente – entra em jogo em vários aspectos da vida, quer nas práticas comerciais, na administração, no namoro e na paternidade, no sermos piedosos e na ação política. A falta de empatia é também reveladora. Nota-se em criminosos psicopatas, estupradores e molestadores de crianças. A atitude empática empenha-se interminavelmente em julgamentos morais, pois os dilemas morais envolvem vítimas potenciais. [...] As raízes da ética estão na empatia, pois é o sentir empatia com as vítimas potenciais – alguém que sofre, que está em perigo, ou que passa privação, digamos – e, portanto, partilhar da sua aflição que leva as pessoas a agirem para ajudá-las”. E ainda: “a própria capacidade de afeto empático, de colocar-se no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a seguir certos princípios morais.”

A empatia é, por conseguinte, uma capacidade que deve ser observada com interesse e o seu desenvolvimento torna-se crucial à obtenção de ações focalizadas na justiça. Logo, em tal análise inclui-se a formação da empatia na criança. Pois, desde bem cedo ela pode estar presente, haja vista ser percebido, através de pesquisas, que, por exemplo, a criança de um ano tenta consolar outro que chora, ao lhe oferecer um brinquedo. E, ressalte-se: “No fim da infância, surgem os mais elevados níveis de empatia, pois as crianças são capazes de entender a aflição que está além de um acontecimento específico e constatar que a condição ou posição de alguém na vida pode ser um motivo de aflição permanente.”

Compreensões sobre questões grupais (pobreza, opressão ou marginalização) podem reforçar convicções morais, cuja base está no desejo de aliviar o infortúnio e a injustiça. Já experimentou isso? É mais um aspecto importante para o melhor desenvolvimento acerca da justiça. Pergunte-se: eu me conheço? Sei perdoar? Perdoo-me? Quão justo eu sou, de fato, tanto para com os outros quanto para comigo mesmo? O que disso resulta no convívio social?

Publicado em 23 de julho de 2013

Publicado em 23 de julho de 2013