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As condições existenciais do homem na escrita de Alves Redol

Aline Adriana da Silva; Daniele do Vale Silva; Edna Carla Lima da Silva; Gleyce Severina Teixeira de Lima; Isis de Paula Oliveira Albuquerque; Jeane Oliveira Ribeiro; Patrícia Assunção Souza; Salete Paiva da Silva; Silvio Profirio da Silva; Vanessa Camila Fonseca Macedo; Wiaponira Batista Guedes

Graduandos em Letras (UFRPE)

Ilustração

Este trabalho é proveniente da disciplina Tradições Narrativas da Literatura Portuguesa: do século XIX à atualidade, ministrada pelo professor dr. Antony Cardoso Bezerra, no curso de licenciatura em Letras Português/Espanhol da UFRPE. A proposta deste trabalho é a elaboração de um texto coletivo que aborde aspectos tocantes à biografia e à criação literária de António Alves Redol.

Diante disso, refletimos aqui sobre as origens e a criação literária de Alves Redol, focando sobretudo os aspectos temáticos materializados. Além disso, tecemos alguns argumentos quanto às teorias subjacentes ao seu dizer. Abordamos, assim, a forma como o autor analisa as condições existenciais do homem, exteriorizando, desse modo, seu engajamento social, recorrendo a uma linguagem que lança mão de ditos e não ditos em face da censura e da repressão advinda dos regimes totalitários.

Em 29 de dezembro de 1911, António Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira. Redol tem sua origem nos espaços rurais, com uma infância marcada pela pobreza, já que seu pai era um comerciante de pequeno porte. Em face disso, começou a trabalhar desde cedo. Presencia, desde pequeno, as péssimas condições de vida do homem rural, o que mais tarde se refletiu em sua escrita. Em outras palavras, essas marcas e traços das suas vivências particulares mais tarde foram materializados na sua criação literária.

Inicialmente, almejava ser médico, mas, em decorrência da influência do seu avô e do contato e da admiração pelos jornalistas/escritores, passou a buscar ingresso no campo da escrita. Iniciou-se nesse ramo aos 12 anos. Quando completou 14, iniciou sua colaboração na produção de textos para semanários e jornais. Trabalhava, inicialmente, como vendedor de mercearias.

Quando completou 16 anos foi para a África (Angola e Luanda), onde exerceu primeiramente a função de operário; após isso, trabalhou em uma fazenda, objetivando conseguir novas/melhores perspectivas de progresso. Contudo, se deparou nessa região com intensa situação de miséria e pobreza.

Quando regressa a Portugal, passa a trabalhar como vendedor de caminhões, carros, pneus e óleos. Lecionou, também Língua Portuguesa. Aderiu aos ideais do Partido Comunista e do Movimento de Unidade Democrática – MUD, contrapondo-se à conjuntura política da época, trazendo à tona diversas questões “esquecidas”.

Em virtude de sua convivência com as péssimas condições de vida das camadas rurais e de experimentar duplamente essas condições (na infância e na juventude), ele voltou seu olhar para a dimensão social, mais especificamente para as questões de reivindicação de mudança. Cria a seção De sol a sol no jornal O Diabo, onde passa a publicar textos voltados para as questões de preocupação social, contrapondo-se, assim, aos ideais de exploração dos regimes totalitários.

Fillus (2002) sinaliza o fato de a crise econômica da década de 1920 ocasionar uma serie de problemáticas sociais como: desemprego, fome, miséria e, sobretudo, a crise do capitalismo. Diante desse quadro, brotam os regimes totalitários – nos solos portugueses, o salazarismo – iniciando intensa repressão, censura e exploração das classes minoritárias.

Tendo como pano de fundo esse contexto, surgiu o Neorrealismo, uma literatura de cunho político que se opõe à opressão dos regimes totalitários. Emerge, dessa maneira, um novo conceito de arte, em uma perspectiva de conscientização, acompanhada de novo papel social para o artista na condição de defensor da sociedade que busca melhorias a partir da ampliação da visão de mundo (FIGUEIREDO, 2005). Isso está em sintonia com Fillus (2002, p. 127), que diz que “o movimento neorrealista corresponde a uma nova tomada de consciência da sociedade portuguesa”. Dentre os autores que defendem uma criação literária de denuncias das condições de exploração do povo (em sua grande diversidade) está Alves Redol.

Figueiredo (2005) sinaliza o fato de a obra de Redol estar diretamente ligada às questões econômicas, políticas, sociais e culturais que ocorreram. Ou seja, suas escritas se voltam para uma perspectiva de cunho social, primando sobretudo pela crítica ao regime de Salazar (o Estado Novo), alçando sua escrita à condição de intervenção social. Um aspecto que ilustra esse viés social de suas obras é o fato de esse autor não se restringir ao uso de historias de ficção, mas, acima de tudo, lançar mão de histórias que têm seu foco na realidade social circundante, algumas dessas temáticas até então ignoradas.

Em vista disso, Redol sofre repressão da ditadura militar (perseguição política), chegando a ser preso e torturado. Ao lançar mão dessa postura de preocupação social, ele toma como base alguns ideais do marxismo e do socialismo, empregando em seus textos os pressupostos de autores revolucionários clássicos, como Marx, Engels, Lenine, Lefebvre, Bukiharini e Friedman (FIGUEIREDO, 2005). E, à luz desses escritores adeptos do marxismo e do socialismo, passa a abordar as condições de vida dos trabalhadores que viviam à margem da sociedade por conta de uma exploração desumana. Para tanto, ele retrata os diversos profissionais rurais e urbanos (destacando seus inúmeros grupos), suas práticas corriqueiras do dia a dia e, sobretudo, suas péssimas condições de vida em decorrência do capitalismo.

Figueiredo (2005) ressalta o fato de que inúmeros aspectos expostos na obra de Redol refletem suas vivencias particulares. Partindo desse pressuposto, ele não só apresentava as mazelas a que era submetido esse povo, mas, sobretudo, evidenciava sua natureza (FIGUEIREDO, 2005). Com isso, suas personagens são apresentadas, em geral, de forma que suas individualidades sejam expostas. Contudo, elas refletem um todo da mesma condição, o que, de certa forma, evidencia uma dicotomia (individual X coletivo).

Em alguns casos, ele até estabelece comparações entre o animal e o homem, em vista das péssimas condições de vida deste último. Porém, ao realizar essa faceta ele lança mão de crítica e de discurso velados em função da repressão política. Isto é, pelo fato de a literatura estar silenciada por conta da opressão, ele adéqua sua linguagem, escrevendo de forma não explícita. Em outras palavras: ele revela sua preocupação social, suas ideologias subjacentes e seu não ditos por intermédio de uma linguagem nem sempre objetiva e direta.

Quando se lê, considera-se não apenas o que está dito, mas também o que está implícito: aquilo que não está dito e que também está significado. E o que não está dito pode ser de várias naturezas; o que não está dito, mas que, de certa forma, sustenta o que está dito; o que está suposto para que se entenda o que está dito, aquilo a que o que está dito se opõe; outras maneiras diferentes de se dizer o que se disse e que significa com nuances distintas etc. (ORLANDI, 2001, p. 11).

Para finalizar, recorre-se ao dizer de Figueiredo (2005), que afirma que a obra de Redol é ancorada em uma perspectiva social, primando pela abordagem de aspectos sociopolíticos e econômicos, focalizando em especial personagens que refletem a diversidade dos grupos da sociedade portuguesa (rural e urbana). Apesar de suas obras serem pautadas por uma perspectiva de articulação/ junção de fatores, elegendo como objeto de estudo o romance e a dramaturgia, obras voltadas para crianças e jovens, destaca-se, sobretudo, a temática da preocupação social, evidenciando a desigualdade intensa na distribuição de renda.

Daí provém sua importância como escritor neorrealista. Isso, não só por “iniciar uma nova estética literária no século XX” (FILLUS, 2002, p. 126), mas sobretudo por voltar seu olhar para o sofrimento do povo (a questão da exploração a que eram submetidas as pessoas das classes baixas, condições de vida, miséria, fome, prostituição etc.). Dessa forma, Alves Redol refletia sobre as condições existenciais das camadas sociais minoritárias, evidenciando seu engajamento social face à realidade circundante.

Em 1969, Alves Redol faleceu em Lisboa. No entanto, isso não significa dizer que seu legado cultural tenha chegado ao fim e/ou se erradicado do campo literário. Pelo contrário, ele permanece presente na evolução histórica da Literatura Portuguesa até os dias atuais.

Referências

FIGUEIREDO, Anabela Oliveira de. O lúdico e o didáctico na obra de Alves Redol. Anais do I Encontro Internacional de Língua Portuguesa - EIELP, 2008. Disponível em: http://www.exedrajournal.com/docs/02/04-anabela%20figueiredo-comunicacao.pdf. Acesso em 17 nov. 2011.

______. A obra de Alves Redol para Crianças. Programa de Pós-Graduação em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta de Coimbra, 2005. Disponível em: http://repositorioaberto.univ-ab.pt/handle/10400.2/599. Acesso em: 18 nov. 2011.

FILLUS, Luiza Nelma. Perfis femininos em Gaibéus, de Alves Redol. Analecta, Guarapuava, Paraná v. 3 no 2 p. 125-132 jul/dez. 2002. Disponível em: http://www.unicentro.br/editora/revistas/analecta/v3n2/artigo%209%20perfis%20feminino.pdf. Acesso em: 17 nov. 2011.

ORLANDI, Eni Pulcinelli. Discurso e leitura. São Paulo: Cortez, 2001.

Publicado em 6 de agosto de 2013

Este texto foi publicado também na Wikipédia, no verbete sobre Alves Redol.

Publicado em 06 de agosto de 2013