Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Para se levar dentro da bolsa

Mariana Cruz

Outro dia um amigo repórter de Polícia estava me explicando por que tomava ansiolítico. Aliás, não só ele; a cada dia descubro pessoas que não têm a menor pinta e também fazem uso de tais medicamentos. Levam na bolsa, tal qual um antídoto para qualquer infortúnio que cruze o caminho. A justificativa dele para o uso do tarja preta estava na própria profissão que exercia. É algo extremamente excitante.

Se acontece alguma coisa, ele tem que se despencar para determinado local, procurar testemunhas, escrever, investigar, checar, uma verdadeira descarga de adrenalina. Fica horas sem comer. Tudo em função do caso que está cobrindo. E, de uma hora para outra, tudo acaba. Quando chega a casa, na calmaria do lar doce lar (mora sozinho e não tem filhos), seu corpo, apesar de exausto fisicamente, não consegue descansar, a mente continua acelerada. E no dia seguinte e nos subsequentes sua mente continua a mil e tudo a seu redor está tranquilo. É como se ele passasse por um jet lag emocional: após viver emoções intensas, estresse e satisfação (ou frustração) ao findar a reportagem, tem uma queda repentina de todas essas emoções; sua mente, é claro, demora alguns dias para conseguir entender. Quando finalmente ele consegue relaxar, se adaptar à calmaria que tomou conta dos seus dias, vem outra reportagem alucinante para cobrir. E todo o processo recomeça.

Convenhamos que, com uma vida assim, tão cheia de altos e baixos, tem que ser muito zen para não se afetar. Tive sensação de vazio parecida após defender a dissertação. Além do mestrado, trabalhava em dois outros lugares e tenho uma filha pequena. Lembro-me de que muitas vezes colocava o despertador para as três da manhã para poder estudar tranquila até as cinco, quando tudo estava calmo à minha volta. Aguardava com ânsia os feriados – não para viajar, e sim porque teria três ou quatro dias inteiros para estudar; enquanto minha pequena ia para o sítio com os avós, eu ficava em casa entre livros e, segundo uma amiga, cultivando a minha cor “amarelo-mestrado”.

Várias vezes pensei em desistir. Principalmente depois de cada encontro com meu orientador, que me mostrava a quantidade de tópicos que precisavam ser aprofundados. A cada nova leitura sugerida, via como havia coisas a serem exploradas e parecia que a possibilidade de terminar o mestrado distanciava-se ainda mais. Era como se tivesse uma dívida enorme com juros altos e que quanto mais eu pagava, mais devia. Mas enfim chegou o dia em que quitei a dívida. Achava que depois da defesa minha vida seria plena: regularia meu sono, praticaria mais esportes, entregaria todos os meus trabalhos bem antes do prazo, leria apenas o que me desse prazer, veria os filmes que deixei de ver e emagreceria os três quilos adquiridos nesse tempo.

Claro que horas depois da defesa e do bom resultado da banca, estava comemorando com os amigos no Samba do Trabalhador. Um samba tradicional no Rio de Janeiro que acontece todas as segundas-feiras. Em pleno dia de semana lá estava eu na gandaia, deixando bem evidente para mim que o mestrado havia acabado.

Era quase um rito de passagem. Logo nos três meses seguintes viajei três vezes, uma vez cada mês, fato inédito para quem estava há anos sem viajar. Passado o período “curtindo a vida adoidado”, voltei à minha vidinha e vi que o tempo enorme que supus que teria para fazer meus projetos, dar conta dos trabalhos e ser uma mãe perfeita continuava exíguo. Tudo mudou, mas nada mudou. Continuava correndo de um lado para o outro, as pilhas de trabalhos dos alunos continuava a crescer e os três últimos filmes do Woody Allen continuavam inéditos para mim. Cheguei à conclusão de que fazer planos para a “vida pós-dissertação” – caso não se engate imediatamente um projeto (doutorado, concurso, um tempo com os índios tupinambás) – está no mesmo pacote das promessas de ano-novo: “aprender a escalar, parar de fumar (no meu caso, roer unha), mergulhar em Noronha, escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho, estrelar uma peça no Broadway”. O problema é que o ano muda, as dissertações são concluídas, os projetos findam e tudo volta a ser como antes.

Para quem não toma remédio, fica visível o vácuo e a certeza de que tais projetos pessoais não devem estar atrelados ao término de um trabalho ou à virada do ano. Eles devem estar sempre presentes, colados ao corpo, dentro da bolsa – tal qual um antídoto para qualquer infortúnio que cruze o caminho.

Publicado em 13 de agosto de 2013

Publicado em 13 de agosto de 2013