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Sala de aula pública: uma avaliação

Claudia Nunes

Mestre em Educação (UNIRIO), especialista em Tecnologia Educacional e Neurociência Pedagógica (AVM-UCAM), professora do Ensino Médio da rede estadual do Rio de Janeiro

Escola de ensino público. Ensino Médio regular. Turno da noite. Jovens de 17 à melhor idade juntos. Estou no pátio, observo e escuto. Estamos na semana de provas. Mais ebulição do que o normal. Momento tenso. Conversas variadas, mas algo chama a atenção: a questão das provas não é o assunto principal. Semana de provas e os encontros, os afetos, as passeatas, as músicas, as meninas e meninos, o recebimento da blusa da escola, a festa junina, as decepções, as programações, o trabalho, tudo cerca as relações orais e os humores... Menos as provas. Muitos até perguntam: hoje é prova de quê?

Escuto e me lembro dos meus tempos de escola. Essa era uma época de grande preocupação. Fora a questão do saber, tinha a tensão de ter nota para mostrar aos meus pais. Era uma semana em que as atividades lúdicas em casa eram restringidas. Eu e meu irmão estávamos estudando. Era uma semana de muito foco e concentração. Era uma semana em que, em jogo, estavam as férias na casa da minha avó.

Ali, naquele pátio da escola, eu observava e ouvia jovens-adultos e adultos quase displicentes quanto às suas aprendizagens ou desempenhos na hora da avaliação. O que aconteceu? Em que momento houve esse desligamento ou desinteresse quanto à participação das etapas avaliativas da escola?

Pelo jeito, a avaliação precisa realmente ser repensada. Esses jovens estão desconectados da escola e não se reconhecem nos processos avaliativos. Fiquei ali lembrando de mim, minha infância e adolescência na escola, e comparo: estamos em tempos muito diferentes mesmo. Paradigmas controversos. Ações lineares. Tradições em crise total. Questões desfocadas. Falta de espelhamento. Isso tudo é o que eles vivem e sentem na permanência na escola e nas propostas de avaliação. É uma sensação reproduzida largamente por tempo demais, e o prejuízo estou/estamos percebendo hoje, aqui. Jovens-adultos são ebulições em expectativa de novidades; por que é difícil entender ou agir diante disso? Qual é o sentido de tanta resistência docente em se superar emocional e pedagogicamente? Bate o sinal. Todos vão para suas salas.

Duas horas de prova. Aliás, duas horas de provas. Em minha escola, em cada dia da semana, em duas horas, os alunos devem fazer duas provas. Hoje acontecerão as provas de Química e de História. Primeiro entrave: não seriam solicitadas habilidades muito diferentes para os mesmos cérebros? Enfim observo. Silêncio: alunos pensando. De acordo com a gestão, ambas as provas com questões discursivas e sem consulta. De novo me surpreendo meio tensa com isso. Um bimestre inteiro de Química e História em xeque durante duas horas. Isso é didático? Isso é pertinente? Tem que ser dessa forma?

Em pé, ando para lá e para cá e leio os comportamentos. Silêncios de 30 minutos. Pequenas inquietações durante mais 20 minutos. Olhares perdidos por mais 30 minutos. Por fim, muitas desistências. Sem tanto rigor temporal, depois de 40 minutos, muitos alunos já olham para mim na ânsia de entregar as duas provas e sair para a vida. Eles queriam algo mais interessante e com mais sentido do que aquilo. Lá fora tinham projetos, planos, expectativas, desejos aguardando-os. Lá fora só tinham que provar coisas a si mesmos e se integrar. Lá fora os significados e ressignificados dependiam somente deles, das suas vivências e dos riscos que assumiam correr. Lá fora a curiosidade, as independências, as liberdades. Lá fora, desafios e emoção pura!

Para avaliar, realmente é preciso entender como esse aluno, no século XXI, aprende. Em uma hora, bate novamente o sinal e quase todos os alunos entregam as provas e saem. Provas de Química e de História realizadas em menos de uma hora? Pois é, é isso. Eu recebo as provas, mas pergunto: ‘Tudo bem? Acabou mesmo?’. Todas as respostas são positivas. Os cérebros já tinham outros pensamentos, outras vontades, outras intenções. As mentes já se imaginam noutros lugares e com outras pessoas.

Todos são jovens-adultos e adultos; são idealistas; são desejantes e são dispostos. Muitos não têm consciência do que querem ou do seu valor, mas todos aprendem e querem aprender. Mesmo com muitas nuances, acreditam na seguinte ideia: estar na escola é para aprender. Mas há algo ‘sem cola’ nesse processo; tem algo que não está ressignificando as relações de aprendizagem. Ao pegar meu material, deixo cair o livro do carnavalesco Paulo Barros, chamado Sem Segredo: estratégia, inovação e criatividade, e aquelas palavras me surpreendem. É isso! Na escola atual faltam formações e renovações estratégicas voltadas às inovações (desafios) e às criatividades (estímulos às inteligências).

Eu fico parada naquela sala, pensando. Como minha avó diria, ‘estamos com a faca, o queijo e o rato em mãos’, mas não surpreendemos. Nós, professores, ainda reproduzimos, linearizamos e acreditamos em aprendizagens iguais. Nós, docentes, entramos numa bifurcação histórica e observamos de longe as transformações cognitivas e, principalmente, suas razões. Só a Pedagogia não basta mais para estimular e desenvolver os chamados nativos digitais ou geração Y. Nós, professores, precisamos da Pedagogia, da Psicologia, da Filosofia, das tecnologias, da Neurociência, das humanizações constantes (sensibilidades) para qualificar as vontades de aprender dos sujeitos de maneira integral. E as décadas de fragmentações principalmente curriculares não favorecem o (re)pensamento dos seus processos: estão obsoletos, estão fragilizados.

Inovar, empreender, colaborar, desafiar, mediar são palavras que precisam da prática pedagógica. É preciso tirá-las do âmbito dos textos teóricos e relacioná-las ao cotidiano escolar com seriedade, tanto importando conteúdos quanto valores para uma inserção social menos turbulenta dos nossos alunos. Os conteúdos têm que ser valorizados por contextualização, importação dos interesses também dos alunos e momentos de liberdade de ação e parceria. Com os conteúdos sabidos, professores podem ligá-los à cultura, economia, meio ambiente, mídia etc. O lugar em que vivem, seja a comunidade ou a sociedade em geral, tem que se fazer presente no processo de aprender. Isso provoca disciplina em sala, consciência dos fatos, melhores argumentações, desejo de aprender e menor número de ausências.

Aprendentes necessitam de ensinantes mais inovadores; ensinantes que, com seu autoconhecimento, desenvolvam uma sala de aula mais movimentada, pensada, corporal e democrática.

Aprendentes necessitam de ensinantes em constante processo de formação em sua área de saber e em outros conteúdos.

Aprendentes necessitam de ensinantes que os respeitem em suas singularidades cognitivas e emocionais e os mantenham aprendendo.

É uma visão romântica ou ampla demais do educar? Pois é, eu sei. Então por que não?

Naquela sala do segundo andar de um prédio mal conservado, pensei numa nova educação com mais impacto às cognições e às emoções tão diferentes. E tudo começaria com uma avaliação diagnóstica de excelência. Desejar mudanças é desejar novos engajamentos, de repente, por imersão e colaboração de todos com todos em busca de memória e conhecimento.

Eu sei que demora, mas o tempo deve ser usado a nosso favor sempre. Nós, professores, temos formação e convivemos muitas vezes com realidades comunitárias muito díspares. É preciso (re)arranjar o tempo das ensinagens de acordo com o tempo e o ritmo das aprendizagens com pequenas sensibilidades voltadas ao incentivo às experiências e às vivências dos aprendentes.

Vale a pena relacionar algumas sugestões interessantes indicadas por diferentes textos do site da revista Nova Escola:

  • planeje suas aulas com mídias diferentes;
  • realize diálogo sobre as aulas, vez por outra;
  • diminua as improvisações;
  • determine novos ambientes para aprendizagem;
  • indique novas fontes de pesquisa;
  • estabeleça pequenos vínculos afetivos;
  • use o conhecimento teórico como base para as atividades oferecidas;
  • tenha percepção realista dos alunos e suas potencialidades acadêmicas;
  • incentive o desenvolvimento de respostas possíveis, e não apenas as certas;
  • influencie o crescimento dos níveis de curiosidade com atividades desafiantes e em grupo;
  • estimule os alunos a explorar a própria realidade;
  • evite inventar situações descontextualizadas;
  • transforme os alunos em agentes ativos e proativos;
  • envolva a todos em aprendizagens de mente e corpo;
  • inspire os alunos a tocar, cheirar e mergulhar em determinados assuntos, indo além do livro ou da foto;
  • priorize, quando puder, o trabalho em grupo ou em conjunto;
  • apresente-se como mediador e favorecedor do saber introduzindo recursos e técnicas variadas;
  • dê liberdade ao uso de ferramentas e técnicas trazidas pela experiência discente;
  • utilize o espaço da sala para os deslizes sem medo ou rigidez autoritária.

Publicado em 13 de agosto de 2013

Publicado em 13 de agosto de 2013