Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

A revolta do androide

Darcy Cruz

Por isso fui criado à semelhança do homem.
Replicado, replicante, à semelhança do homem,
por vergonha do lado opaco de sua mente,
como as várias penumbras dos mundos que percorri,
luas ocultas, nuas paisagens, guerras, pois que elas existem
também nas galáxias. Fui criado com sombras
e medos para levar dos homens a lua negra
que se tornou insuportável aqui na Terra.

A guerra descerra o ódio interplanetário, o homem
me enviou para purgar o mais baixo inferno de sua alma
no lugar dele, pois dele (acredita) é e sempre será o reino dos céus.
Lutei em mundos espúrios, em nome da insuportável culpa
nos apertados subterrâneos desta terra já em seus últimos estertores.
Ela gira, ainda que cambaleante como um bêbado
cósmico, deixando a gosma de serpente como rastro.

Astro em girar incessante, eu replicante, androide,
de um exército sem alma (assim pensa a onipotência dos homens).
O enviado do homem como o homem
fora o enviado de Deus, a sua semelhança, eu guiado
como um títere pelas mais agrestes paisagens
da galáxia. Vi de tudo, senhores, vi, guerra, vi horrores
inimagináveis, eu limpei toda sujeira que o homem
polvilhou no universo para manter-se incólume no seu altar terreno.

Sordidez, maldades incomensuráveis. Minha liberdade
ficou no limite de minha vida, tão curta vida ditada
pelo homem a seu prazer, o homem, meu Deus, meu senhor, meu criador.

Agora estou de volta, reclamo o livre arbítrio que nunca me deram,
tanto quanto o dele, quero vida tão longa quanto meus sofrimentos.
Já que o amor nunca me foi dado, quero viver o que me devem
(eis minha única reivindicação) pleno como um ser humano
que não sou e como quem me criou já não é.

Publicado em 10/09/2013

Publicado em 10 de setembro de 2013