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O papel do tutor na EaD... Tutoria a distância: diferentes funções, diferentes competências

Andrea Velloso, Denise Lannes e Solange Barros

Professoras do curso "Formação de Tutores para Especialização em Biologia e Ciências/UFRJ 2013.2"

Co-autores/cursistas: Carlos Alberto Marques de Carvalho, Cristiane da Silva Oliveira Espindola, Fabiano dos Santos Castro, Felipe Sales de Oliveira, Fernanda Maria Affonso Mitidieri Canelas, Francisco José Figueiredo Coelho, Jorge Mendes Soares, Jussara Mendonça dos Santos, Luciana Muniz, Marcio Braz Oeiras Soares, Marcio Sacramento de Oliveira, Mônica Narciso Guimarães, Paula Magalhães Souza Deccache, Regiane Trigueiro Vicente, Roseday Santos Nascimento, Shana Priscila Coutinho Barroso, Simone Corrêa dos Santos Medeiros

Introdução

Com o avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs) e, principalmente, depois da internet, o conhecimento sistematizado, que tinha caráter estático, passou à condição de fluxo dinâmico e exigiu mudanças na postura dos sujeitos que lidam cotidianamente com ele. Entre esses sujeitos está o professor. Com a difusão das TICs, o diálogo ocorre mediatizado por diversas ferramentas de comunicação síncrona e assíncrona, modificando espaços de convivência e as formas de interação.

É nesse âmbito de mudanças que se insere a Educação a Distância (EaD). Diante dessa nova configuração, em que o acesso ao conhecimento é cada vez mais democratizado, o professor necessita assumir novos papéis. Moran (2006) assinala que o papel fundamental desse novo professor é de orientador/mediador: orientador/mediador intelectual; orientador/mediador emocional; orientador/mediador gerencial e comunicacional e orientador/mediador ético. Dessa forma, a ação docente requer compreensão da lógica que permeia essas tecnologias e as mudanças promovidas na forma de ensinar e aprender os saberes necessários aos docentes envolvem não apenas o conhecimento técnico básico para a manipulação das ferramentas, mas também a reflexão sobre as mudanças que elas trazem ao processo ensino-aprendizagem (Arriada; Kist; Lanzarini; Rizzato, 2005).

Essas novas atribuições conferidas ao professor independem do seu espaço de atuação – se presencial ou a distância. No que diz respeito à Educação a Distância, a necessidade de o professor assumir essas novas responsabilidades aumenta significativamente.

Aplicação dos princípios do professor atuante em EaD

O orientador/mediador intelectual é aquele que usa os meios tecnológicos disponíveis para ajudar na escolha das informações mais importantes para o aluno; que procura adaptar essas informações aos seus contextos de vida e ajuda a ampliar o grau de compreensão de tudo e a integrá-lo em novas sínteses.

Orientador/mediador emocional – mesmo a distância, o professor tem de motivar, estimular, incentivar e organizar os limites, com equilíbrio, credibilidade, autenticidade e empatia.

Orientador/mediador gerencial e comunicacional – é o principal elo entre o aluno, a instituição e os demais atores envolvidos no processo de ensino e aprendizagem a distância. Planeja constantemente e orienta o aluno para usar as mais variadas formas de comunicação e expressão.

Orientador ético – como em qualquer processo de ensino e aprendizagem, o professor a distância tem também a importante responsabilidade de conduzir esse processo mediante a adoção de valores e atitudes que contribuam para o desenvolvimento de valores individuais e coletivos numa perspectiva ética e construtiva.

Os diferentes papéis docentes no EaD

Esses novos papéis se aplicam aos professores de maneira geral. Entretanto, tornam-se vitais para o professor na Educação a Distância, uma vez que a realização da aprendizagem se dá pela mediação tecnológica, o que dimensiona de maneira nova e desafiadora o processo de ensino e aprendizagem. Segundo Belloni (2006), a inserção das TICs produziu efeito intenso na organização da EaD, transformando-a em uma estrutura complexa segmentada em múltiplas tarefas. Consequentemente, a função docente sofre um desdobramento característico da EaD. Belloni (2006) identifica três subdivisões da função docente:

  • concepção e realização dos cursos e materiais;
  • planejamento e organização da distribuição dos materiais e da administração acadêmica (matrícula, avaliação);
  • acompanhamento dos discentes no processo ensino-aprendizagem.

Dentro dessas categorias, a autora apresenta sete possíveis funções dos docentes: professor-formador, conceptor e realizador de cursos e materiais, professor-pesquisador, professor-tutor, tecnólogo educacional, professor-recurso e monitor. Essa divisão não segue necessariamente uma organização clara ou padronizada, mas dá indícios de caminhos a seguir.

Assim, o professor-autor (conceptor e realizador de cursos e materiais) é visto como aquele que elabora os textos, seleciona artigos e publicações para serem utilizados na elaboração do material do curso ou redige, especificamente para o curso, um texto que será utilizado como material. Segundo Torres (2007), é possível também a formação de equipes técnicas especializadas em transformar o texto original do autor em um texto mais apropriado para EaD, mais interativo e atraente.

O professor-tutor é aquele responsável pelo acompanhamento dos alunos ao longo do curso. Cabe a ele a responsabilidade de mediar todo o desenvolvimento do curso, orientar os alunos em seus estudos, esclarecer dúvidas, explicar questões a relativas aos conteúdos abordados e avaliar o desempenho dos alunos em todo o processo (Costa, 2007; Machado; Machado, 2004; Martins, 2003).

O papel do tutor

O ensino a distância requer adaptações tanto por parte do aluno quanto do professor. Ao passo que é importante para o estudante que ele desenvolva persistência e automotivação, o tutor precisa se tornar fluente com as novas tecnologias e elaborar eficientes estilos instrucionais a fim de amplificar o interesse e a motivação dos estudantes.

A partir das reflexões de Dantas e Troleis (2013), é possível inferir que um tutor é aquele que favorece processos formativos, coordena e medeia aprendizagem. Portanto, ser tutor é estar interessado em promover capacidades humanas do próximo – no caso, o aluno. É, de forma mais ampla, conhecer caminhos (previstos nas estratégias inicialmente traçadas) e estar atento a outras formas, ditas pelos alunos, de concepção de mundo.

Diante do exposto, é possível avaliar que o trabalho da tutoria exige uma tomada de decisão consciente daqueles que pretendem desenvolver a função de tutor virtual. Acerca dessa consciência se faz necessário refletir sobre a pessoa do tutor virtual. Mill et al (2008) apresentam algumas dicas para aqueles que, direta ou indiretamente, pretendem desenvolver atividades na EaD:

  • Convencer-se: antes de qualquer coisa, é extremamente importante verificar se é exatamente esse tipo de trabalho que você deseja; a grande dedicação precisa ser contínua no processo.
  • Organizar-se: a EaD demanda muita organização pessoal, de tempo e de trabalho a ser executado. é importante ter muita disciplina, organização e responsabilidade, inclusive para respeitar aos seus próprios tempos e espaços de trabalho e descanso. A disciplina, o planejamento e a execução do trabalho são processos obrigatórios para você vencer as intenções pedagógicas propostas.
  • Disciplinar-se: ritmo e periodicidade são as chaves para não acumular trabalho. Não adie suas tarefas, divulgue seus horários de trabalho e acesse o curso regularmente (uma vez por dia, se possível); isso vai fazer a diferença, pois, embora estranho, assim trabalhará menos: não acumulará nada e seus alunos serão bem atendidos...
  • Expressar-se: clareza na exposição de ideias é imprescindível. Busque melhorar a redação (correção gramatical, ortográfica, estrutura do texto etc.; revisite a gramática e livros de redação) e aprenda a ter objetividade nas suas explicações e/ou orientações.
  • Compartilhar-se: tenha paciência com alunos e colegas e cultive o movimento de empatia (para entender o outro) e simpatia também. A sinergia e a inteligência coletiva são pontos-chave: a partilha do conhecimento, o trabalho em equipe e a pesquisa são condutas necessárias para alcançar bons resultados.
  • Dedicar-se: aperfeiçoamento profissional constante e disponibilidade. Para além de teorias, repense sua formação didático-pedagógica... O aluno do curso a distância parece ser mais carente, precisa de muita atenção. Dedicação e rapidez nas respostas ao aluno evitam evasão.
  • Responsabilizar-se: não confunda EaD com trabalho fácil, pois não é: o trabalho na EaD demanda muito tempo e, por isso, organização e planejamento são importantes. Também importante é o despir-se do preconceito de que EaD não funciona... Qualidade e seriedade precisam estar sempre em alta.
  • Cuidar-se: Prepare os olhos, as mãos, pulsos e dedos, a coluna, o espírito da esposa/marido e as alterações de humor. Reserve um tempo para o lazer, não deixe que o trabalho tome todo o seu tempo.
  • Desafiar-se: aceite o desafio! Trabalhe com dedicação e empenho. Faça tudo que for possível para que os alunos não desistam do curso nas duas primeiras semanas. Se conseguir mantê-los ativos nas duas primeiras semanas, a probabilidade de esse aluno concluir o curso com êxito é muito maior. Captar o espírito da coisa é o mais desafiador, o resto acontece! Busque desenvolver a criatividade: EaD requer criatividade no processo de tutoria.

Essas dicas evidenciam a necessidade da “tutoria e de cuidados necessários aos tutores, como cultivar a ideia de um número de alunos adequado ao trabalho pedagógico; a negociação com os alunos sobre a disponibilidade de tempo/horário para acompanhamento e cuidar dos riscos à própria saúde é fundamental à qualidade de vida do tutor teletrabalhador (tutor virtual), entre outros cuidados” (Mill et al, 2008).

Acerca da função pedagógica, Pallof e Pratt (2002) propõem que o tutor é aquele que propicia aos cursistas um ambiente social estimulador da aprendizagem, utilizando recursos didáticos disponíveis pela mediação tutorial. Ele também atua mediante o agendamento de atividades do curso, acompanhamento sistemático dos cursistas, tempo de resposta e avaliação constante de sua prática e da participação dos alunos, além de possuir função técnica relacionada com o conhecimento técnico do tutor e seu potencial didático para compartilhá-lo com todos os cursistas.

Visando a essa função pedagógica num ambiente estimulador, para um trabalho de qualidade numa tutoria EAD, Nobre e Melo (2011) elencam as atribuições essenciais ao tutor:

  • ser conhecedor do conteúdo que está dinamizando;
  • articular o material didático com os saberes trazidos pelos cursistas;
  • envolver os cursistas em atividades de pesquisa;
  • oferecer rápido feedback ao aluno;
  • problematizar novas perspectivas nos fóruns de discussão quando o assunto em pauta já estiver próximo do esgotamento;
  • utilizar a avaliação formativa como opção de avaliação contínua e processual que enriquece a aprendizagem do aluno;
  • estimular perspectivas diferenciadas no debate nos fóruns;
  • desenvolver a cooperação entre os cursistas;
  • despertar o aluno para sua corresponsabilidade com o curso e sua aprendizagem;
  • estimular o gosto pela pesquisa;
  • incluir processos de autoavaliação do aluno e da sua atuação;
  • estimular a aprendizagem colaborativa e projetos de trabalho em grupo;
  • gerir crises ou conflitos entre pessoas;
  • cuidar da linguagem e postura na mediação;
  • desenvolver capacidade de resiliência para oferecer segurança aos seus cursistas;
  • buscar fluência tecnológica tanto em relação ao ambiente virtual do curso quanto das redes sociais que podem auxiliar o seu trabalho;
  • construir uma mediação incentivadora para os cursistas que tenham mais dificuldade no tocante à fluência tecnológica;
  • analisar situações de constrangimento ocorridas na sala de aula virtual e intervir na melhor ocasião e com a sutileza que a situação demandar;
  • buscar refletir sobre sua prática e analisar as fragilidades encontradas e possibilidades de superação;
  • procurar formação contínua tanto na área (concentração de temas e assuntos) em que está mediando quanto sobre a modalidade, tecnologias atuais e metodologias eficazes para o processo de ensino-aprendizagem;
  • instigar a construção do conhecimento de forma coletiva;
  • efetuar a ligação do saber cognitivo com o saber circunstanciado do aluno;
  • buscar estratégias que possam favorecer uma aprendizagem significativa, levando em consideração os conhecimentos prévios dos alunos.

Na perspectiva de Belloni (2006) e Silva (2009), resumidamente, podemos destacar como papel do tutor:

  • despertar o caráter autônomo dos alunos;
  • perceber que as experiências dos alunos são fundamentais na construção do processo de ensino;
  • participar das atividades como construtores e facilitadores;
  • ensinar aos alunos como aprender sem desempenhar o papel principal no processo de ensino.

O tutor deve estar ciente também das diferenças individuais entre os alunos, mas ainda assim promover um ambiente de aprendizagem colaborativa – importante não só para o compartilhamento de dúvidas e aprendizados como também para a criação de uma identidade de grupo. Segundo Lima e Rosatelli (2006), existem algumas qualidades fundamentais que necessitam ser salientadas em um tutor:

  • possuir atitude crítica e criativa no desenvolvimento de suas atribuições;
  • desenvolver a capacidade de estimular a resolução de problemas;
  • possibilitar aos cursistas uma aprendizagem dinâmica;
  • ser capaz de abrir caminhos para a expressão e a comunicação;
  • fundamentar-se na produção de conhecimentos;
  • apresentar atitude pesquisadora;
  • possuir uma clara concepção de aprendizagem;
  • estabelecer relações empáticas com seus interlocutores;
  • possuir capacidade de inovação;
  • facilitar a construção de conhecimentos.

A Faculdade Internacional de Curitiba (Facinter) publicou um material intitulado Manual do Tutor que traz diretrizes e elementos que afirmam a importância do tutor para a Educação a Distância, destacando as competências que ele deve possuir para desempenhar bem a sua função no processo. A publicação classifica as competências do tutor como: pedagógicas, tecnológicas, didáticas, pessoais, linguísticas e de trabalho colaborativo em equipe.

Nogueira e Both (2012) classificam as competências pedagógicas, didáticas e linguísticas como fundamentais para explicação e orientação das atividades; a competência tecnológica para saber usar e ensinar o aluno a usar as tecnologias de internet, e-mails e ferramenta AVA (ambiente virtual de aprendizagem); a competência pessoal e de trabalho colaborativo em equipe para criação de um ambiente favorável. Entre elas, mencionamos e destacamos a competência pedagógica de "avaliação do material didático-pedagógico visando à proposição de melhorias de padrões de ensino e aprendizagem", fundamental para a mediação entre material e aluno, mas que só será possível com base em um diagnóstico do perfil da turma como consequência dos sucessivos encontros e interações entre os sujeitos.

Entre as competências pessoais, ressaltamos a de "incentivar e reconhecer as contribuições dos alunos", fundamental para o desenvolvimento da autonomia e da autoestima do aluno (Facinter, 2006).

Em outro trabalho, Collins e Berge (1996, apud Machado; Machado, 2004) classificaram as várias tarefas e papeis exigidos pelo professor on line em quatro áreas: pedagógica, gerencial, técnica e social.

A função pedagógica está relacionada à manutenção de um ambiente social amigável, que é essencial à aprendizagem on line. O papel do professor em qualquer ambiente educacional é garantir que o processo educativo ocorra entre os alunos. No ambiente on line, o tutor é um facilitador, conduzindo o grupo de maneira mais livre e permitindo aos alunos explorar o material do curso sem restrição.

A função gerencial envolve normas referentes ao agendamento do curso, ao seu ritmo, aos objetivos traçados, à elaboração de regras e à tomada de decisões.

A função técnica depende do domínio técnico do tutor, sendo então capaz de transmitir tal domínio de tecnologia aos seus alunos. Os tutores devem conhecer bem a tecnologia que usam para atuar como facilitadores do curso.

A função social significa facilitação educacional. O tutor é responsável por facilitar e dar espaço aos aspectos pessoais e sociais da comunidade on line. Collins e Berge (1996, apud Machado; Machado, 2004) referem-se a essa função como

estímulo às relações humanas, com a afirmação e o reconhecimento da contribuição dos alunos; isso inclui manter o grupo unido, ajudar de diferentes formas os participantes a trabalhar juntos por uma causa comum e oferecer aos alunos a possibilidade de desenvolver sua compreensão da coesão do grupo.

Nos escritos de Saraiva et al (2006), ao discutir os espaços de tensão nos eventos de tutoria a distância, ficam implícitas duas grandes habilidades fundamentais para a tutoria: a paciência e a perspicácia para lidar com as tensões da tutoria e os conhecimentos das ferramentas e abertura ao novo.

A nosso ver, a paciência é importante, pois, segundo os autores, os processos de capacitação usuais em EAD, seja qual for o aspecto focado, não são por si mesmos suficientes para dar conta da complexidade de situações que se vão criando à medida que os cursos vão sendo implementados (p. 485).

Para esses autores, penetrar no mundo cibernético demanda não apenas domínios motores e apropriação de uma linguagem nova, mas também abandono de certos modos de lidar com o desconhecido. O medo de errar precisa ser abrandado para que o sujeito se permita navegar por rotas não previstas nem previsíveis. Os recursos tecnológicos, por não serem por si sós suficientes para atender a todos nas suas particularidades, necessitam da intervenção de tutores e monitores nos mecanismos de escuta e captura para suprir as necessidades de cada um (p. 489).

Sá (1998) realizou um estudo comparativo entre os tutores presenciais e a distância. Com base em distintos resultados, sinaliza que o ensino a distância configura-se basicamente por:

  • ser acompanhado por um tutor;
  • gerar atendimento ao aluno em consultas individualizadas ou em grupo, em situações em que o tutor mais ouve do que fala;
  • preocupar-se com um processo educacional centrado no aluno;
  • buscar a interatividade entre aluno e tutor sob outras formas, não descartada a ocasião para os “momentos presenciais”;
  • adaptar-se ao ritmo determinado pelo aluno dentro de seus próprios parâmetros;
  • avaliar de acordo com parâmetros definidos, em comum acordo pelo tutor e pelo aluno;
  • ser atendido pelo tutor, com horários flexíveis, lugares distintos e meios diversos.

É relevante esclarecer as semelhanças e diferenças do papel dos professores nas duas modalidades de educação (presencial e a distância) para evitar problemas na estruturação dos cursos a distância, para evitar uma possível desvalorização do trabalho do professor na EaD e para que o professor-tutor tenha consciência do seu papel e de suas funções.

No papel de tutor, o delineamento mais preciso pode favorecer as instituições que promovem a EaD, na medida em que define as atribuições e os parâmetros do cargo, fornecendo subsídios para diversas práticas de Recursos Humanos, como seleção, treinamento, avaliação de desempenho e definição de salários, entre outras. Com base na definição do cargo, a instituição pode elaborar suas políticas e práticas para administrá-lo (Bohlander; Snell; Sherman, 2003).

Resgatando um pouco as origens da EaD, Litwin (2001) aponta que no final do século XIX, nos EUA e na Europa, instituições particulares ofereciam cursos por correspondência destinados ao ensino de temas e problemas vinculados a ofícios profissionais.

De acordo com Peters (2006), na EaD por correspondência tem-se o docente que escreve cartas e o discente que lê cartas, investindo-se numa relação dialógica escrita, na qual a reciprocidade e o tom pessoal são características marcantes. Um dos principais objetivos desse modelo de EaD é vencer o sentimento de isolamento dos discentes por meio dos contatos escritos com os docentes.

É importante ressaltar que cada tutor tem uma forma diferente de atuação – ou até mesmo semelhante –; não existe padronização ou receita mágica de como ser um excelente tutor. É fundamental experimentar, avaliar e avançar nas propostas pedagógicas de um ensino on line, pois um professor inserido em um ambiente virtual e em rede é um incansável pesquisador (Kenski, 2003).

No que tange à dimensão administrativa, não podemos deixar de mencionar algumas funções exclusivas do tutor a distância, como:

  • auxiliar o professor nas correções das atividades a distância;
  • auxiliar o professor na criação ou na intermediação dos fóruns de debate ou de apresentação;
  • auxiliar o professor nas edições das seções e de conteúdos inseridos na sala de aula solicitados pelo professor responsável;
  • fazer a verificação diária de dúvidas enviadas tanto por mensagens como pelo fórum de dúvidas, num período ideal de até 24 h;
  • auxiliar o professor no lançamento de notas e feedback para os alunos no AVA;
  • auxiliar o professor publicando avisos importantes no AVA.

Segundo Bottentut e Coutinho (2012), um dos grandes desafios do tutor consiste em manter o interesse dos alunos e garantir a sua presença nos ambientes on line. Esse indicador costuma ser medido pelas taxas de evasão apresentadas nos cursos. Embora seja importante ressaltar que são muitas as razões que levam os alunos a abandonar um curso a distância, é também relevante ter em mente que muitas dessas razões poderiam ser contornadas com o papel-chave do professor-tutor em todo o processo. Ou seja, se as ferramentas tecnológicas utilizadas no processo de tutoria forem fáceis de utilizar, se os conteúdos estiverem estruturados de forma didática, se o tutor providenciar efetivo apoio a distância, o interesse dos alunos tende a aumentar, garantindo o sucesso do curso.

Considerações sobre a relação tutor-aprendiz

O professor-tutor tem papel fundamental nos cursos a distância, visto que ele é o responsável por garantir a inter-relação personalizada e contínua dos estudantes com o sistema. Essa ação viabiliza a articulação necessária entre os elementos do processo educativo e a consecução dos objetivos propostos.

Os conteúdos são acessados pelos estudantes por meio dos materiais dos cursos, cabendo ao professor-tutor estimular o desejo do aluno de aprender, de ir além do que é proposto. E ele deve fazer isso com cada um dos estudantes, articulando os conteúdos do curso com as questões da vida cotidiana, com a cultura e com os interesses e necessidades dos estudantes. Esta é uma das razões de se sugerir que os professores-tutores tenham turmas de 20 a 30 estudantes, a fim de que o processo de interlocução seja adequado e satisfatório. A interação constante professor-tutor/estudante é um dos elementos que pode garantir o sucesso dos sujeitos envolvidos no processo educativo a distância, visto que o professor-tutor é, na maioria das vezes, o referencial de que os alunos dispõem para balizar seus processos de aprendizagem.

A empatia entre aprendiz e a organização favorece significativamente a aprendizagem; essa relação é viabilizada pela ação dos professores-tutores, que medeiam a relação. A tutoria é um elemento que garante o contato efetivo entre o aprendiz e a instituição. Outro aspecto contemplado pela literatura na tentativa de delinear o papel do professor-tutor na EaD é a importância de sua formação. Uma vez compreendido que o professor-tutor não deve reproduzir as práticas de sala de aula nos ambientes de EaD, que ele exerce um papel de mediação entre o estudante e o conhecimento e entre o estudante e a instituição e que ele é o referencial que baliza a aprendizagem dos estudantes, pode-se questionar quais elementos são fundamentais para sua formação, de modo que desempenhe adequadamente todos esses papéis.

Ao lidar com os cursistas, os professores-tutores devem considerar vários aspectos, como por exemplo o fato de estarem fisicamente distantes, as possíveis dificuldades pessoais e profissionais, a formação heterogênea e a criação de vínculo.

Cabe destacar que o fato de a relação se desenvolver por meio de ferramentas tecnológicas (aspectos visíveis) não impede o surgimento do vínculo professor-tutor/cursista; pelo contrário, a distância física e a ausência de uma possível inibição gerada pela figura presente do professor (com sua autoridade e exigências) permitem a construção de um espaço relacional que vai além das questões do trabalho. O tratamento simultâneo de demandas de natureza diferenciada (cognitivas e subjetivas) sugere que haja repetição do modo e das estratégias operatórias utilizadas pelos professores-tutores. Isso não significa que sejam as mesmas estratégias, mas que o processo de desenvolvimento das estratégias é semelhante, ou seja: análise da situação; verificação de recursos disponíveis; organização das informações e desenvolvimento de estratégias.

Um estudo mais aprofundado do papel do professor-tutor na EaD, além de necessário, é uma proposta que não deve se esgotar, em virtude da diversidade de possibilidades de atuação e dos programas em EaD, buscando aprimorar a compreensão da relação subjetiva no processo ensino-aprendizagem a distância.

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Publicado em 15 de outubro de 2013

Publicado em 15 de outubro de 2013