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Breve itinerário da literatura infantojuvenil de Clarice Lispector

Rodrigo da Costa Araujo

Doutorando em Literatura Comparada/UFF

Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de várias histórias. Clarice Lispector, Os Desastres de Sofia. In: Felicidade Clandestina, 1988, p. 100.

[...] na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? [...] Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., 1998, p. 13.

Clarice Lispector (1925-1977) é, sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Sua prosa, insólita por excelência, é saudada por diversos críticos, traduzida em diversos países e motivo para diversas indagações literárias. No entanto, sua obra para o público infantojuvenil é nada ou quase nada comentada. Muitos leitores até não conhecem esses livros.

Dialogando com a literatura adulta ou aproximando-se dela, sua produção para crianças é repleta de intertextualidades, paródias e paráfrases e, por seu caráter inovador nos meados da década de 1960, estabeleceu uma nova linguagem no gênero destinado ao leitor desse gênero. O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura, Quase de verdade e Como nasceram as estrelas são os títulos que agradam a todas as idades, apesar de serem classificados de “literatura infantil”.

Esses livros, na verdade, utilizam o narrador adulto para dialogar com as crianças sem disfarçar sua condição de adulto e sem abrir mão de discutir temas e atitudes importantes para qualquer ser, como a liberdade, o direito de ser, a morte, a alienação, a inexorabilidade do tempo e a condição do ser. Todos eles inauguraram uma nova linguagem na literatura infantojuvenil brasileira carregada de contradições, conflitos e indagações na relação adulto-criança, mãe-filho.

Questionando diversos papéis e paradigmas, essas obras literárias sugerem que o adulto é que deve intrometer-se no mundo e nas sensações infantis para compreendê-los, possibilitando, assim, novas propostas de relacionamento criança-adulto-mundo. A questão dos animais nessas pequenas histórias contadas pelos narradores é um dado para a afirmação de que animais e pessoas (crianças) se equivalem no mundo da literatura. Eles, os animais, que muitas vezes intitulam esses livros, gozam, no mundo clariceano, de uma liberdade incondicionada, espontânea, originária, que nada – nem a domesticação degradante de uns – seria capaz de anular. Se o reino que eles formam está firmemente assentado na própria natureza, é porque se acham integrados ao ser universal de que não se separam e de que guardam a essência primitiva, ancestral e inumana.

A criança, nesse contexto alegórico, está no mesmo plano dos “bichos convidados”. “Eu só convido os bichos que eu gosto. E, é claro, convido gente grande e gente pequena”, diz a narradora. Em A vida íntima de Laura, a galinha reforça alguns questionamentos que irão se repetir em muitos dos outros livros: a sinceridade no tratamento com a criança, o questionamento do próprio gênero “literatura infantil”, o equilíbrio entre a realidade e a fantasia, o papel da mulher, da dona de casa e o próprio absurdo desse cotidiano.

Certamente sem distinguir ou menosprezar o gênero literatura infantil, seus textos para o leitor adulto estabelecem algum diálogo com aqueles destinados ao público infantil. Os recursos estilísticos apresentados pela autora em sua produção, não os tornam diferentes ou menores em relação à qualidade estética e literária da escrita para os adultos. Pelo contrário, eles os enriquecem, possibilitando sua leitura a um maior número de pessoas, inclusive as crianças.

Com esse raciocínio, o conto A vida íntima de Laura pode ser comparado ao clássico conto Uma galinha,pelo que se aproximam ou complementam. O que falta em um é dito no outro. Apesar de o tema principal ser semelhante nos dois textos – a questão do ser feminino – e das ações serem muito próximas, o trabalho com a linguagem é o que os difere. A morte, determinada em Uma galinha e suavizada no livro infantil, não é ignorada. Enfim, apesar de os narradores e a forma como abordam o tema em questão serem diferentes, eles podem ser aproximados.

A infância aparece em outras facetas da ficção clariceana. Os contos Felicidade clandestina e Restos do carnaval focam o desejo infantil, que em ambos precisa superar grandes obstáculos para realizar-se. No primeiro, vemos o sofrimento moral imposto pela filha do dono da livraria à menina que não pode comprar o livro desejado; no segundo, a felicidade deveria advir da felicidade da amiga, ou seja, dos restos da fantasia de rosa.

Felicidade clandestina assume o papel de conto-chave, porque guarda certa memória intertextual e infantil da autora. Afirma, na sua clandestinidade, a paixão pela leitura, essencialmente por Reinações de Narizinho, que por sua vez retoma, relembra e dialoga com Perrault, com os Irmãos Grimm, as fábulas de Andersen e de La Fontaine. Nesse jogo de retomadas e confluências de histórias infantis, insere-se justamente o conto intertextual de Clarice, seu baú de histórias e jogo citacional. Buscando as fontes da infância e a criação biográfico-literária da escritora, Edgar Nolasco (2004, p. 90) afirma que este conto figura, labirinticamente, o encontro de Clarice com Lobato, as reinações da menina Clarice, as perversidades das meninas, da narradora adulta do conto e da escrita perversa da própria autora.

A infância, nesse caso, reconstruída pelo conto e pelas leituras da autora agora é, pela escrita, jogo romanesco de representação da representação. Nela veiculam sempre duas ou mais histórias, uma colada à outra, às vezes justapostas, outras vezes sobrepostas. Nesse caso, aos olhos de Nolasco (p. 80), a biografia funciona na escrita quase como um outro discurso, sempre compondo a textualidade. Escrita que, ao construir a história romanesca e a infância aos fragmentos, vai construindo, também, a história pessoal da escritora, ou seja, sua persona literária: ficção sobre ficção.

De qualquer forma, a infância é tema recorrente na prosa de Clarice Lispector, sobretudo na contística – gênero em que, aliás, a escritora se sobressai de maneira magistral. Nesse diálogo de textos entre suas próprias obras, entre as suas e outras obras, e, principalmente, entre autor-texto-leitor, a literatura clariceana cria uma nova linguagem na ficção brasileira, não apenas na sua obra para adulto como na sua obra para crianças.

Sem perder a estratégia intertextual, O mistério do coelho pensante enreda o leitor pela trama em busca de um mistério, que acompanha características do gênero policial para logo em seguida ser questionado, reescrito, invertido em sua essência pelo tom parodístico. O leitor se percebe envolvido nessa rede costurada pelo narrador que distribui pistas falsas ao longo da narrativa para que algum leitor ingênuo se perca nos fatos e caminhos.

O que fica claro, nesse jogo romanesco, é que o narrador desconhece como resolver esse mistério, já que uma “verdadeira história de mistério”, ao gosto das histórias policiais, agora é parodiada pela forma como a narrativa é conduzida. Feito Alice no país das maravilhas, intertexto sugerido nessa escritura, os fatos integram inocência infantil e “ignorância do mundo” em mistérios e descobertas que precisam ser desvendados pelos dois, o narrador-adulto e o interlocutor-criança. Pela paródia, o texto questiona códigos estabelecidos pelo gênero, ou seja, pela voz narrativa e sutilezas da linguagem a obra questiona valores ideológicos em relação à criança e à literatura destinada a ela. Operando essas variações, a paródia provoca questionamentos de valores, critica modelos e recria outro modo de olhar o objeto.

Por outro lado, como paráfrase de Alice, O mistério do coelho pensante reafirma valores da literatura infantojuvenil clássica, originária dos contos de fadas e fábulas, das lendas e mitos em que os mistérios e magias são características essenciais para sua existência. Nesse viés questionador, a literatura infantojuvenil de Clarice indaga o próprio gênero e seus desdobramentos de polêmicas: certas imposições dogmáticas, o tom adultesco e moralista ou mesmo a predominância do olhar pedagógico. Ao parafrasear o célebre texto de Lewis Carroll, segundo Ribeiro (1993, p. 65) ela o reafirma ao mesmo tempo que incorpora nele, em termos de semelhança, o papel do adulto.

Como nasceram as estrelas relata histórias curtas encomendadas a Clarice para ilustrar um calendário. Nas doze narrativas, uma para cada mês do ano, a escritora resgata elementos da cultura popular brasileira reescrevendo-as: Saci-pererê, Uirapuru, Curupira, Iara, Negrinho do pastoreio, curumins, que sofrem transformações inusitadas, e animais como sapos, jabutis, onças, macacos, jacarés, que vivem situações nas quais suas qualidades, como esperteza, poder ou ferocidade são postas à prova.

Nessas lendas, algumas marcas da prosa clariceana são recuperadas, como a problemática da linguagem. Tal recurso criativo resulta na construção de personagens tão complexas quanto aquelas dos livros para adultos; a autora imprime características específicas, diferenciando-a de outros autores de sua época.

Apesar de a obra, como um todo em suas histórias curtas, resgatar algumas representações do imaginário popular brasileiro utilizando escritura intertextual, especificamente o tom parodístico, Clarice Lispector mantém uma característica comum ao conjunto de sua obra: há uma preocupação com o estranhamento. Desse modo, longe de ser uma obra "sem grandes questionamentos" (Gotlib, 1995, p. 445), como aponta Nádia, Como nasceram as estrelas revela que, no processo intertextual, a escritora percorreu o caminho oposto aos dos narradores que optam pela oralidade. Geralmente os mitos, protagonizados por seres divinos, servem de base para os contos de fadas e lendas protagonizados por seres humanos. Nas paródias realizadas por Clarice, diferentemente, as doze lendas brasileiras recuperam a essência mítica ao apresentar personagens com dimensão universal que registram o primeiro momento de contato do homem com o mundo, ou seja, metaforizam a perplexidade humana e seus sentimentos diante dos fenômenos naturais.

Acompanhando esses olhares, percebemos que Clarice Lispector é mestra em tecer “teias” que se interligam numa dança mágica e lúdica. Nada em suas obras é ao acaso; cada detalhe, nome, símbolos, animais são pensados no contexto narrativo e nas significações que assumem nos enredos. Em qualquer texto da escritora, o leitor enovela-se nessa teia mágica e lúdica, adentrando um universo cheio de conexões com a obra da autora (intratexto) e com outras da literatura clássica (intertexto).

Nesse contexto, Quase de verdade é uma obra infantojuvenil que, como as outras obras da autora, tem presente alegorias de bichos que nutrem/sugerem sentimentos e ações característicos de pessoas. A questão da existência é abordada constantemente com muita verdade: morte, diferenças sociais e individuais, medos, defeitos e qualidades.

Há muito em comum entre as histórias infantis da escritora com esta em questão, como A mulher que matou os peixes. Ambas têm personagens com o nome Clarice; em Quase de verdade, Clarice entende Ulisses e digita suas histórias, já em A mulher que matou os peixes Clarice é personagem-narradora.

Em A vida íntima de Laura são retratados o cotidiano e a vida da galinha Laura, seus medos de parar de procriar e morrer. Esse tema também está em Quase de verdade, quando a figueira não tem frutos, por isso é má e, mais uma vez, as galinhas questionam a maternidade, a condição feminina, o comodismo em que a mulher vive incentivando a mudança e repensando seu próprio universo.

Com essa mesma sutileza, os Ulisses de Clarice discutem a questão existencial: o Ulisses-cachorro de Quase de verdade e o Ulisses de Uma aprendizagem ou livro dos prazeres refletem-se como um espelho: ambos detêm o saber, transmitem-no às personagens femininas, que aparentemente são “vazias” (Clarice e Lóry). “– Lóry, disse Ulisses, … uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar...”.

É explícito que os Ulisses de Clarice se acham cultos e por isso, em Uma Aprendizagem ou livro dos prazeres, ele afirma: “Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóry.”.

Esses personagens clariceanos assumem vasta preocupação com o olhar, saem em busca de descobrir o mundo, os outros bichos e principalmente a si mesmos. E retornam para seus personagens femininos, Clarice e Lóry, orgulhando-se do seu saber. Não é coincidência “os Ulisses de Clarice” terem semelhanças com o Ulisses de Homero, que sai, atravessa o mar e vive aventuras, volta para sua amada Penélope como um herói. De certa forma, o Ulisses de Homero é detentor do conhecimento de outros mundos e quer compartilhá-lo com sua amada.

Nessa esteira de reflexão, as obras de Clarice assumem o papel de “teias” entrelaçadas, em que absolutamente tudo se integra, nada é ao acaso e quem “cai” nessa rede faz, pelos vários intertextos, uma viagem encantadora entre outras obras da escritora e a literatura clássica. Assim, se Quase de Verdade não fala diretamente do mundo, traz dele muitas versões e reescrita que lhe permitem existir no tempo. Com esse gesto, a memória literária em Clarice permite que ela retenha uma história que questione a própria criação literária e a postura do leitor diante de algumas regras que o mundo impõe. Exemplos dessas situações são os intertextos entre os personagens citados (“Os “Ulisses” são fortes, bravos, tenazes, inteligentes e astutos”); a árvore chamada figueira que nos remete à passagem da Bíblia da figueira malditae a própria obra literária dela.

A literatura infantojuvenil, pela liberdade da fantasia, permite que, pela imaginação, o leitor possa se colocar no lugar do outro, principalmente quando esse outro é metaforizado em bicho. Clarice Lispector consegue, com a recriação do real e a voz de seus narradores, tornar-se criança e tornar-se bicho para viver outra dimensão da realidade. De acordo com Dinis (2006, p. 155-156), “tornar-se criança” é a forma que permite ao narrador clariceano afastar-se da hegemonia do olhar adulto; “tornar-se bicho” é também um dispositivo que permite afastar-se da hegemonia do mundo racional humano, é tentar aproximar-se da vida de uma forma mais direta e instintiva. Expondo seu corpo aos diversos fluxos que habitam o mundo dos bichos e das crianças, o narrador, antes humano e adulto, parece também querer falar de um lugar que rompe com o mundo do racional e mesmo do pragmático. Assim, a literatura infantil de Clarice Lispector não quer dar lições de moral ou mesmo socializar a criança, ela parece querer propor-lhe uma nova aventura: a experimentação de um novo mundo que pode ser constantemente recriado pela imaginação.

O ir e vir entre leitura e citações, escrita e alusão e mesmo o exame dos textos de Clarice impõe, pois, compreender a natureza e os mecanismos da intertextualidade e dos processos da própria criação ficcional que ela mesma produz. A esse respeito, vale a pena ler a importante pesquisa realizada por Edgar Nolasco em Clarice Lispector: nas entrelinhas da escritura.

Quando adentramos a literatura clariceana, observamos que as intertextualidades são inesgotáveis. Outra vertente que contribui para a reflexão nessas obras é um tema antigo, porém atual: o universo feminino. Ao viajar nas obras de Clarice Lispector, não podemos fechar os olhos para a temática da mulher. Clarice, além de entender a sensibilidade feminina, retrata a sociedade que vê a mulher como um ser utilitário, frágil, dominado ou apenas para procriar.

A prosa clariceana é inovadora por instigar/provocar o leitor a resolver enigmas, a procurar soluções em situações inusitadas e imaginárias, mas baseadas em fatos que ocorrem na realidade social em que a criança está inserida, como o caso das galinhas que são escravizadas (que pode ser uma leitura da condição social em que vivem os sujeitos na sociedade capitalista) ou se elas devem ou não engolir o caroço da jabuticaba; o mistério da fuga do coelho e vários outros casos que exigem o raciocínio e a imaginação da criança.

A leitura de Quase de verdade também leva para esse caminho, já que a figueira é má por não dar frutos, ou seja, o fato de não ser mãe, e a nuvem negra ser uma bruxa do mal e também, estéril; essas narrativas reproduzem e interrogam, de certa forma, esses universos. Ao observarmos outras obras clariceanas, como o conto Uma galinha, percebemos esses mesmos perfis que buscam retratar o universo de “rainha do lar”.

Nesse conto, a galinha é uma metáfora da alma feminina presa na cozinha e só admirada por ser mãe. Já em Feliz aniversário observamos o aniversário de uma senhora que já não tem utilidade nenhuma na sociedade (não pode mais ter filhos), não é respeitada nem admirada, pois agora a única ação que espera da vida é a morte. A vida íntima de Laura, obra infantojuvenil de Clarice, revela os medos de Laura (uma galinha) de morrer se não colocar mais ovos. Macabéa, protagonista do romance A hora da estrela é retratada como uma mulher sofrida, seca, humilhada, sem nenhum valor. Em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Lóry também não tem filhos, é uma mulher sem conhecimento, que só vive na esperança de alguma migalha de atenção e conhecimento de Ulisses.

A partir desses intratextos, a escritora faz refletir criticamente sobre qual é o papel social da mulher. A literatura clariceana vai nortear essa reflexão, apontar críticas ao mundo machista e desmistificar o termo “rainha do lar” e da cozinha. De certa forma, seu objetivo é o questionamento da própria realidade que a obra busca redefinir e influenciar. Questionar, influenciar e buscar um mundo sem hipocrisia e mais justo são algumas das contribuições que Clarice procura. Portanto, o universo clariceano tenta resgatar a alma feminina, seus medos, questionamentos e aflições.

Ler Clarice com olhar de pesquisador revela um mundo de conhecimentos literários e culturais inesgotáveis. Como na poética de Cortázar, a escritura de Clarice Lispector é a do escorpião encalacrado, mordendo a sua própria cauda. Ela, também, aos olhos de Olga de Sá (1993), trabalha desgastando a linguagem, denunciando o ato de escrever, alertando constantemente a consciência do leitor para o fato insofismável, mas esquecido, de que ele é leitor e ela escreve, isto é, faz literatura, inventa universos de palavras.

Já li este livro até o fim e acrescento alguma notícia neste começo. Quer dizer que o fim, que não deve ser lido antes, se emenda num círculo ao começo, cobra que engole o próprio rabo (Lispector, 1978, p. 20).

A narrativa fantástica de Ulisses, um cachorro com características humanas, o universo feminino nas entrelinhas, a grandiosidade do texto imagético e o simbolismo clariceano contribuem para confirmar que tanto o ato de escrever como o ato de ler e criar ficção são questionados em agoniado confronto com o ser e o viver. Escrever e viver, em Clarice, aliás, são faces de um mesmo processo.

Conversar intimamente é outra característica dominante na ficção clariceana, seja na obra infantojuvenil, seja na obra destinada aos adultos. Tudo, de certa forma, remete à condição “misteriosa” da literatura que só acaba quando a criança descobre outros mistérios. Dessa maneira, entre bichos e outras reflexões, a autora cria sua teoria do próprio gênero “literatura infantojuvenil”, em perspectivas metalinguísticas e pelas histórias que narra. Para ela, portanto, a literatura para crianças deve ser aquela em que o adulto criador se integra no seu próprio relato, na história contada, integrando-se na fantasia e na sensibilidade infantis. De condutor do fio da narrativa, ele passará a ser conduzido por ela. Para isso, ele deverá despir-se de sua postura de adulto e, junto com a criança, através da palavra em sua função poética e mágica, estabelecer um diálogo de textos em que a vida e as relações sociais poderão ser questionadas pela fantasia que puderem engendrar.

A literatura infantil de Clarice Lispector, semelhante à sua escritura para adulto, aliás sempre retomada, não se resume simplesmente em reescrever ou citar um fragmento tornando-o outro, porque diz muito mais: revela o compromisso com o fazer literário, seu labor com o texto como criação, uma desconstrução de visões moralistas ou hipócritas no discurso do adulto-narrador.

A literatura clariceana para crianças, como a do público adulto, seria o ponto de partida para surgirem outros mistérios. A vida é um mistério, dizia Clarice Lispector, e só a arte pode dar-lhe respostas, com novas perguntas e de novos mistérios ou indagações.

Referências

ARAUJO, Rodrigo da Costa. O olhar, os bichos e outras transgressões no conto “Amor”, de Clarice Lispector. Revista Querubim - Revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais, Niterói, ano 8, nº 16, v. 2, p.136-145, 2013.

______. Rodopios da Escritura em “Quase de verdade”, de Clarice Lispector. Revista Querubim - Revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais, Niterói, ano 9, nº 20, p.88-95, 2013.

DINIS, Nilson Fernandes. Perto do coração criança: imagens da infância em Clarice Lispector. Londrina: Eduel, 2006.

GOTLIB, Nádia B. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.

LISPECTOR, Clarice. O mistério do coelho pensante. Rio de Janeiro: Rocco, 1976.

______. A vida íntima de Laura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

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______. Quase de verdade. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

______. A Descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.

______. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

______. Como nasceram as estrelas: doze lendas brasileiras. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

NOLASCO, Edgar Cézar. Clarice Lispector: nas entrelinhas da escritura. São Paulo: Annablume, 2001.

______. Restos da ficção: a criação biográfico-literária de Clarice Lispector. São Paulo: Annablume, 2004.

RIBEIRO, Francisco Aurélio. A literatura infantojuvenil de Clarice Lispector. Vitória: Nemar, 1993.

SÁ, Olga de. Clarice Lispector: a travessia do oposto. São Paulo: Annablume, 1993.

Publicado em 29 de outubro de 2013.

Publicado em 29 de outubro de 2013