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Entre a sala de aula e a cibercultura: qual o lugar da EAD?

Juliana Carvalho

Mestranda em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ; professora da Faculdade de Educação da UERJ e da Faculdade Mackenzie Rio

Antes de mais nada, tarefas negativas. É preciso se libertar de todo um jogo de noções que estão ligadas ao postulado de continuidade. (...) Como a noção de influência, que dá um suporte – antes mágico que substancial – aos fatos de transmissão e de comunicação.

Michel Foucault, em Arqueologia do saber

As novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) trouxeram novas perspectivas para a Educação a Distância, na medida em que possibilitaram a superação das limitações de espaço e tempo. O que distancia a nova EAD dos antigos modelos é a possibilidade de que a interação ocorra não mais entre sujeitos separados no tempo e no espaço, mas entre indivíduos que estão distantes fisicamente, porém em um mesmo tempo e juntos em um espaço que não pertence a nenhum dos dois, mas um terceiro, virtual, o chamado ciberespaço.

Para Pierre Lévy, o ciberespaço é “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”. Esse espaço está além do que compreendemos como espaço físico, de modo que não podemos medi-lo, delimitá-lo ou mensurá-lo utilizando as grandezas físicas habituais. Para Margaret Wertheim,

esse novo espaço digital está além do espaço que a física descreve, pois o ciberdomínio não é feito de forças e partículas físicas, mas de bits e bytes (...). Em particular, esse novo espaço não está contido em nenhum complexo hiperespacial dos físicos. Seja qual for o número de dimensões que os físicos acrescentem às suas equações, o ciberespaço continuará fora de todas elas. Com o ciberespaço, descobrimos um lugar além do hiperespaço (2001, p. 167).

Com o tempo, principalmente a partir dos anos 2000, originou-se uma cultura proveniente do ciberespaço, a qual se define por sua linguagem diferenciada, abreviada, profusão de imagens e um novo padrão estético. Nessa cultura são desenvolvidos novos modos de agir e, principalmente, de pensar, bem diferentes daqueles aos quais estávamos acostumados antes do advento da internet. Essas características próprias geram novas subjetividades; a esse conjunto deu-se o nome de cibercultura.

Cibercultura, título de um dos livros de Pierre Lévy, é um neologismo que especifica “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais) de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (1999, p. 17). Resultante do próprio processo tecnológico criado pela humanidade, ela é produto da técnica de certa cultura que possui características próprias, sendo uma delas as novas tecnologias do virtual.

Nessa cultura, tudo é regido pela velocidade e pela fragmentação. Quando uma pessoa entra na rede, sua percepção deve estar “ligada no nível máximo”; sua atenção deve se voltar para várias coisas ao mesmo tempo. No formato feed de notícias, são pulverizados, em segundos, imagens, vídeos, jogos, notícias, dicas, dos quais muitas vezes percebemos apenas fragmentos. Para a pesquisadora Paula Sibilia, estar diante dessa avalanche de imagens e estímulos audiovisuais cria um espectador que

não interpreta as mensagens recebidas, mas se conecta diretamente com o estímulo que atinge seu aparelho perceptivo; para poder desfrutar dele, tem que se somar ao fluxo. O que o mantém sintonizado nessa vivência não é o sentido do que se observa, e sim a própria aceleração. Quando a saturação chega a certo nível de esgotamento, ele se entedia e se desliga (2012, p. 90).

Essas informações, que chegam velozmente e das quais percebemos apenas fragmentos, na maior parte das vezes não são internalizadas. Não é necessário memorizar, fazer analogias ou associações, gerando um novo sentido e um novo conhecimento. Nessa cultura regida apenas pela percepção não se faz necessário utilizar as funções superiores do cérebro ou processos psicológicos superiores de Vigotsky mencionados por Marta Kohl:

Os processos psicológicos superiores são aqueles que caracterizam o funcionamento psicológico tipicamente humano: ações conscientemente controladas, atenção voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, comportamento intencional. Os processos psicológicos superiores se diferenciam de mecanismos mais elementares, como reflexos, reações automáticas e associações simples (2004, p. 23).

Toda essa informação audiovisual, da qual as imagens são a maior parte, muitas vezes estão ali sem função alguma; servem apenas para ocupar um espaço, quase sempre de forma aleatória. São elementos que povoam o território visível, mas não nos levam à produção de sentido, não falam aos nossos afetos e, portanto, não deixam nenhuma marca. Segundo a professora Paola Basso,

Esse entulho imagético é o que faz tantos autores falarem num mundo povoado de imagens, inflacionado, cuja quantidade de imagens que passa por nós e pelas quais passamos é tão grande que se pode dizer que vivemos em uma “cultura da passagem” (2001, p. 198).

Nessa “Cultura da Passagem”,

nada começa, nada termina, nada permanece, porque tudo flui velozmente, explica Corea; assim, a imagem contemporânea, mais que convocar o nosso olhar, nos intima a uma piscadela instantânea (2012, p. 86).

Existe, hoje, um público jovem, nascido após o surgimento da internet – os nativos digitais ou geração y – que já cresceu influenciado pelas subjetividades da cibercultura, cujas habilidades parecem desenvolver-se cada vez mais rápido. Quem, hoje em dia, não conhece uma criança que manipula o smartphone de seus pais até mesmo melhor do que eles? Com tantas coisas para fazer diante do computador e do celular, surgiu um desinteresse por outros meios de comunicação, como a televisão. Os jovens de hoje ouvem música, acompanham sua série favorita pelo Netflix ou assistem ao novo vídeo do grupo de humor pelo Youtube. Para não perder seu público, a televisão precisou se adaptar a esses novos espectadores desinteressados, acompanhando também a cultura web. O que vemos hoje, então, é uma integração entre os meios de comunicação, dando origem a uma cultura geral regida pela aceleração e pela fragmentação, que se faz presente na vida da maior parte da população.

Esse fluxo de informações ininterrupto, chegando a nós na velocidade de uma piscadela, não permite ao usuário da internet alcançar o aprofundamento necessário para gerar sentido e transformar em experiência as informações que recebe em meio a esse caos, levando-o a analisar tudo com superficialidade. A experiência de ser como um fio condutor por onde passam as informações, mas não reter nada, não conseguir relacionar essas informações fragmentadas, acarreta angústia e, por consequência, tédio. Esse tédio constante é o que gera uma busca frequente por diversão na rede, como se pode perceber com o sucesso dos aplicativos de jogos ou dos canais de humor no Youtube.

A Educação a Distância se tornou atualmente uma possibilidade real de que a educação nos mais variados níveis vá além dos limites dos centros urbanos, permitindo que a formação do indivíduo ocorra com o apoio das novas tecnologias de informação e comunicação. A chamada terceira geração da EaD precisa estar centrada na ação educativa flexível, aberta e interativa, a partir da qual o aluno percorra o processo de aprendizagem em seu ritmo individual, com autonomia, mas não sozinho ou isolado.

Essa autonomia é provocada, em grande parte, com base na elaboração do material didático, de primordial importância para essa prática educativa e elemento-chave na construção do conhecimento, visto ser ele o responsável pela aproximação entre professor, tutor e alunos.

Apesar de essa modalidade de ensino ter se difundido no país e de certa euforia existente entre alunos, professores e empresas no que diz respeito à EaD, sabe-se que seus níveis de evasão sempre foram altos. Se analisarmos alguns dados estatísticos, veremos que, quando se trata de permanência e conclusão dos cursos, ela não é tão exitosa como se tem propagado. Dados do CensoEAD.br mostram que houve crescimento na evasão em 2011, se tivermos como base o ano de 2010. Vale acrescentar que, das 231 instituições participantes do Censo, 80 não indicaram o índice de evasão em seus cursos.

Tabela 1: A evasão em cursos EAD no período 2010-2011
Tipos de cursos 2010 2011
Autorizados 18,6% 20,5%
Livres 22,3% 23,6%
Corporativos 7,6% 20%
Disciplinas - 17,6%

Fonte: CensoEAD.br 2012

Se forem analisados apenas os números dos cursos livres, aqueles mais curtos, que não preveem encontros presenciais e nos quais praticamente não há vínculo com a instituição que os disponibiliza, esses números são ainda maiores, como mostra a Tabela 2, do CensoEAD.br 2012.

Tabela 2: Distribuição das matrículas e conclusões em cursos de EAD livres em 2011, segundo o porte e a oferta de cursos
Características institucionais Quantidade de alunos em cursos livres TOTAL
Instituição credenciada Instituição não credenciada Instituição corporativa
Matriculados Concluintes Matriculados Concluintes Matriculados Concluintes Matriculados Concluintes
Porte da instituição Microempresa 3.909 2.248 104.714 101.714 1.180 1.130 109.990 105.052
Pequena empresa 772 581 55.279 28.905 800.779 90.862 856.830 120.348
Média empresa 25.280 22.482 7.220 5.108 - - 32.500 27.595
Grande empresa 387.884 547.389 1.011.495 723.484 372.787 206.847 1.772.166 1.477.670
Total 417.845 572.710 1.178.895 859.156 1.174.746 298.839 2.771.486 1.730.705
Somente cursos a distância 32.957 2.007 221.208 123.386 128.826 7.917 382.986 133.310
Cursos a distância e presenciais 53.689 45.210 423.651 304.080 965 634 478.305 349.924
Cursos presenciais, a distância e semipresenciais 381.014 525.382 584.041 431.890 1.044.955 290.288 1.910.010 1.247.360
Não informado 185 111 - - - - 185 111
Total 417.845 572.710 1.178.895 839.136 1.174.146 298.839 2.271.486 1.730.705

Uma das razões para a alta taxa de evasão que ocorre desde a implementação dos primeiros cursos pela internet no Brasil pode estar na concepção da EaD, que, apesar das tentativas de integrar-se de vez à rede, continua sendo a transposição da aula padrão para o espaço da cibercultura. Originada da escola presencial, a EaD apresenta ainda características do método instrucionista, caracterizado pelo predomínio da informação sobre a formação, veiculada por meio de material didático de caráter instrucional e pela ação sistemática e conjunta de diversos recursos didáticos, apoio de uma organização e tutoria, propiciando a aprendizagem independente e flexível dos alunos. Por mais que se fale em interação entre alunos e tutores e alunos e alunos, o que o material didático proporciona, na maior parte dos cursos, é um estudo solitário, no qual o aluno, com sua apostila (virtual), dedica-se a compreendê-la e memorizá-la. Essas habilidades requeridas para estudar a distância pertencem muito mais ao âmbito da escola tradicional do que ao da cibercultura. Para Paula Sibilia,

estudar com um livro do modo tradicional para fazer uma prova, por exemplo, requer o manejo de táticas bem diferentes, relacionadas com a memória e a atenção. Assim como usos específicos do espaço e do tempo. O sujeito precisa deter-se e posicionar-se fisicamente de modo que permita fazer anotações, evitando outros estímulos perceptivos para poder concentrar-se e memorizar, na intimidade com a própria consciência, como quem escuta uma voz interior ou dialoga consigo mesmo (2012, p. 76 -77).

Quando uma pessoa liga um computador ou smartphone e entra na rede, porém, seu comportamento é outro. Para navegar na web, ao contrário das habilidades exigidas na EaD, sua atenção deve se voltar para várias coisas ao mesmo tempo. Estar conectado à internet requer do indivíduo habilidades bem diferentes das exigidas na educação tradicional:

em vez da interioridade e da concentração requeridas pelo discurso pedagógico, o discurso midiático requer exterioridade e descentramento: recebo informações que não chego a interiorizar (...) e devo estar submetido à maior diversidade possível de estímulos: visuais, auditivos, táteis, gustativos (Sibilia, 2012, p. 77).

Um dos problemas da EaD está em seu aspecto geral: ela difere da maior parte das atividades disponíveis na web. Ao matricular-se num curso a distância via rede, o aluno espera encontrar ali os elementos da cultura web: jogos, imagens, vídeos, informações que vêm até ele. Ele espera que a interação se faça on-line e que os outros alunos do curso se manifestem quanto à sua postagem e compartilhem coisas interessantes a respeito do tema do curso. Em vez disso, muitas vezes o que ele encontra são longos textos escritos, que exigem concentração e desligamento das outras atividades que ele habitualmente faz na web; interação off-line e assíncrona: ao postar uma mensagem, o aluno vê as postagens anteriores e as comenta, interagindo com os alunos que já responderam ao fórum; raramente, porém, o aluno volta ao fórum para ver os comentários à sua postagem. Assim, o fórum funciona mais para cumprimento de tarefa exigida no curso do que para a interação entre os participantes. Mais um fator de discrepância entre a EaD e a cibercultura, o excesso de comunicação escrita entra em conflito com o universo audiovisual que povoa a web fora do ambiente virtual de aprendizagem. Ao analisar as postagens do Facebook, por exemplo, é possível verificar que as imagens e vídeos ocupam um espaço significativo do conteúdo produzido nessa rede social e quase não estão presentes em grande parte dos cursos EAD produzidos no Brasil. A aparência e, principalmente, as funcionalidades dos ambientes virtuais de aprendizagem como o Moodle e outras plataformas estão bem aquém do que é possível – e habitual – fazer na web.

Os motivos para esse “atraso” da EaD em relação à web são geralmente financeiros. Tecnologia e pessoal para desenvolvê-la custam caro, e a EaD tem sido pensada – se levarmos em conta empresas e universidades particulares – como uma solução para oferecer ensino e treinamento cortando custos. Salvo alguns cursos oferecidos por instituições que cobram caro, a cara da EaD no Brasil é a cara do Moodle ou de plataformas similares. Isso pode explicar o desinteresse pelos cursos a distância.

Para conquistar esse aluno que tem a rede, ali, ao seu alcance, entregando-se às atividades momentâneas da web em detrimento às atividades duradouras do curso, é preciso oferecer um ambiente virtual de aprendizagem que ofereça funcionalidades que possibilitem a interação e material didático que a promova. Hoje em dia, as pessoas estão conectadas o tempo todo e se acostumando a receber informação de forma passiva. É preciso oferecer ao aluno a experiência de sentir-se em rede, compartilhando e recebendo informações que podem transformar-se em conhecimento.

O caminho para evitar a evasão da EaD pode ser a união da experiência individual, trazida da educação formal, com a vivência coletiva praticada na rede por meio da interação constante. Além da reforma tecnológica, para chegar a esse resultado é necessária uma profunda modificação nas formas como nos organizamos mentalmente para processar as informações novas e, assim, implementar uma reforma do pensamento, que, segundo Edgar Morin, se caracterizaria pelo

pleno emprego da inteligência para responder a esses desafios e permitiria a ligação de duas culturas dissociadas. Trata-se de uma reforma não programática, mas paradigmática, concernente à nossa aptidão para organizar o pensamento (2000, p. 20).

Essa reforma do pensamento levaria o indivíduo ao desenvolvimento do pensamento complexo, conceituado assim por esse autor:

é o pensamento que se esforça para unir não na confusão, mas operando diferenciações. Isso me parece vital principalmente na vida cotidiana, como já mencionei: espontaneamente tentamos contextualizar. Evidentemente, se nos faltam conhecimentos, contextualizamos muito mal (...); a necessidade vital da era planetária, do nosso tempo, do fim do milênio, é um pensamento capaz de unir e diferenciar. É uma aventura, e muito difícil. Mas, se não o fizermos, teremos a inteligência cega, a inteligência incapaz de contextualizar (2000, p. 33).

Sabe-se que a cibercultura é uma realidade e que os dispositivos eletrônicos conectados à rede têm invadido as escolas, de forma que já não é possível voltar às antigas formas de aprender. Talvez a mudança esteja na integração, não entre homem e máquina, como a utopia das redes semânticas, mas na união dessas duas culturas, dessas duas formas de perceber o mundo. Quando a escola e, portanto, os cursos EaD trabalharem integrados à cibercultura, talvez tenhamos uma inteligência fundamentada sim na percepção, mas, aprofundada, baseada também na atenção e na memória, os três temas clássicos da Psicologia definidos por Vigotsky como funções mentais superiores. Teremos então a escola colaborando para a formação de uma rede cujas informações não gerem angústia e tédio, mas conhecimento e aprendizagem significativa.

Referências

CensoEAD.BR: relatório analítico da aprendizagem a distância no Brasil 2011. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2012.

GOMES, Paola Basso Menna Barreto. Mídia, imaginário de consumo e educação. Educ. Soc. [online], v. 22, n. 74, p. 191-207, 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v22n74/a11v2274.pdf.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 2004.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2001.

SIBILIA, Paula. Redes ou paredes: a escola em tempos de dispersão. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

WERTHEIM, Margaret. Uma história do espaço de Dante à internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Publicado em 5 de novembro de 2013

Publicado em 29 de outubro de 2013