Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O cotidiano e a cultura contemporânea: revérberos sociais

Nayana M. Moraes

Professora de Língua Portuguesa e Literatura.

A partir da década de 1970 começou-se a estudar mais profundamente os assuntos referentes aos fenômenos da cotidianidade, como afluentes de uma nova história, iniciada pela Escola dos Annales, na França. Tudo o que era marginal e excluído até então pelos intelectuais conservadores passou a estabelecer um sentido de que esses meandros contribuem e muito para a análise da História Cultural.

A Escola dos Annales foi um movimento historiográfico surgido na França em meados do século XX, tendo como princípio a ampliação do conceito de historiador e história, abrindo caminho para a chamada “História Cultural”. A Revista dos Annales foi lançada em 1929 por Marc Bloch e Lucién Febvre.

Peter Burke, em seu livro O que é História Cultural?, disserta sobre as novas tendências culturais e os valores enraizados por uma conceituação de sociedade; a partir das argumentações do marxismo e dos principais paradoxos da tradição cultural, um novo olhar sobre os aspectos culturais é fortalecido, principalmente com a inserção dessa tradição no cotidiano, privado ou social. Dessa forma, o dia a dia dos homens, os atos inconscientes, apoiados pelos estudos da Psicanálise, a Literatura, a Filosofia, a Linguagem enriquecem os pragmatismos dessa vertente.

Da mesma maneira, cultura e cotidiano imbricam-se sob o anseio popular. A necessidade de uma conjunção de tendências, não apenas individuais, mas coletivas. No que tange aos princípios da cultura pós-moderna e midiática, os aforismos presentes nos hábitos sociais, na diversidade, nos métodos revigoram que a cotidianidade individual está atrelada à sociabilidade e às manifestações do dia a dia.

Segundo Roger Chartier (2002, p. 19),

nomear esses motivos abre um primeiro debate: será necessário identificar como símbolos e considerar como “simbólicos” todos os signos, atos ou objetos, todas as figuras intelectuais ou representações coletivas graças aos quais os grupos fornecem uma organização conceptual ao mundo social ou natural, construindo assim a sua realidade apreendida comunicada?

Ainda sobre esse autor, é importante destacar o estudo historiográfico cotidiano baseado nas organizações de poder, na fonte das mentalidades, nas organizações sociais. Michel Foucault, intelectual estruturalista, revigorou a ideia de uma cultura alicerçada às sociabilidades e à presença de um discurso notabilizado pelas “estruturas sociais”. Avaliar as práticas culturais vigentes é também um exercício de tendências institucionais e coletivas. Esse efeito mimético infere desde a escolha de um figurino até o comportamento social. Representações como a moda, o cinema, a literatura e a televisão refletem-se como um espelho cotidiano, em cujo processo os prazeres, opiniões, gostos manifestam-se. Assistir à novela das 21h é não somente um exercício individual, mas também coletivo e cultural, em que o próprio princípio da obra está alicerçado a valores atuais e pensamentos modernos. Esse envolvimento entre cotidiano e cultura são práxis do saber contemporâneo, em vários âmbitos do conhecimento.

Cotidiano e cultura de massa

Stuart Hall aborda a questão da cultura em si mesma, socializada e democratizada (2003, p. 135). Ou seja, a partir das manifestações artísticas das classes operárias e das minorias, foi possível, ao longo da jornada cultural, um envolvimento entre o indivíduo e a obra, a produção em constante diálogo com a realidade proeminente, a ideia de que a “cultura é um modo de vida global” imbricado com os movimentos sociais, os modos de viver, as atividades diárias e as convivências humanas. Hall “conceitua a cultura como algo que se entrelaça a todas as práticas sociais” (p. 141). Há uma importante argumentação nos estudos voltados ao culturalismo. A apropriação das representações culturais, o papel do indivíduo nesse contexto trabalha na área da psicanálise como uma importante análise das personalidades presentes a partir desses indícios sociais e populares. Levi-Strauss, quando estudando as referências linguísticas de um grupo específico, avaliava também as estruturas mentais e discursivas muito específicas dessas relações.

Qual o atual momento da cultura popular? Com base em quais representações as produções indicam uma tendência? Para essas perguntas, o próprio Hall traça questões voltadas ao senso comum, como a formação de ideologias. Da mesma forma, insere aspectos de produção cultural: movimentos da cultura de massa.

Essa posição insiste que os processos econômicos e as estruturas de produção cultural são mais significantes do que seu aspecto cultural-ideológico e que eles são um tanto adequadamente apreendidos na terminologia mais clássica do lucro, exploração, mais-valia e a análise da cultura como mercadoria. Ela retém a noção de ideologia enquanto falsa consciência (HALL, 2003, p. 155).

Os valores ideológicos numa cultura popular são não somente uma representação da identidade nacional como também um laço com aspectos cotidianos. Da mesma forma, avaliar a atual situação da cultura nacional especificamente brasileira é um exercício de fragmentação das identidades frente às fruições de uma cultura de massa revigorada pela teia globalizada. Guy Debord, no seu livro A sociedade do espetáculo, disserta sobre os escapismos de produção cultural e os revérberos da sociedade capitalizada. “O alvo é passar para o lado oposto: a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Essa alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente” (p.16). Nesse sentido, a cultura de massa atual é dominada por propósitos ligados ao cotidiano, aos prazeres particulares, à comunicação, ao lazer e às conversas de bar nos fins de semana. Esse “espetáculo”, ao qual Debord relaciona o consumo capitalista, é um revérbero social no qual o sujeito é participante da massificação cultural. Mas que se faz presente na cotidianidade coletiva.

Referências

BURKE. Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difusão Editorial, 2002.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. São Paulo: Contraponto, 2003.

HALL, Stuart. Da diáspora - identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003.

Publicado em 12 de novembro de 2013

Publicado em 12 de novembro de 2013