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Arvind Gupta: o Papai Noel é um indiano

Akila Kannadasan

Diplomado em eletrotécnica

Enquanto você lê estas linhas, um homem de 60 anos vestido de kurta em khadi (algodão bruto tecido artesanalmente, símbolo do gandhismo) estará, talvez, fabricando um brinquedo com materiais inacreditáveis em sua oficina em Poona (cidade próxima a Mumbai). Talvez rapidamente esse brinquedo se encontre em uma sala de aula, em qualquer canto isolado do planeta, onde ele servirá para descobrir as ciências com mais eficiência do qualquer manual.

Arvind Gupta, o homem que mostrou que uma câmara de ar de bicicleta poderia servir para explicar o funcionamento de uma bomba, que utilizou palha para fazer compreender a força centrífuga e ensinar as estruturas geométricas com um tubo de borracha e alguns fósforos, está revolucionando a educação sem alarde com os seus “brinquedos feitos de lixo”. Ele prova que se pode fazer da ciência uma coisa apaixonante com quase tudo que esteja à mão.

O trajeto percorrido por Arvind começou no inicio dos anos 1970, logo que ele entrou no Instituto Indiano de Tecnologia (IIT), de Kanpur, em Uttar Pradesh, para preparar uma licenciatura em eletroeletrônica. Ele se fez voluntário para dar cursos aos jovens desfavorecidos que cursavam a Opportunity School (escola especial) criada pelos professores “progressistas” do campus da IIT. Durante dois anos, ele, com alguns de seus amigos, consagrou um dia por semana a esses cursos. Arvind fala de sua “primeira aventura no ensino”, mas o que verdadeiramente mudou sua vida começou quando ele encontrou o especialista em educação Anil Sadgopal, que havia criado a ONG Kishore Bharati para ensinar ciências às crianças dos vilarejos que não tinham acesso a laboratórios bem equipados. Os programas educativos eram concebidos a partir dos objetos da vida cotidiana, como pilhas, lâmpadas e fios elétricos.

Arvind, que então fabricava caminhões para o grupo Tata, pediu demissão para se engajar na ONG. Ele estava na feira semanal da vila de Palia Piparia, em Madhya Pradesh (no centro do país), quando uma ideia atravessou seu espírito: comprou objetos fáceis de achar localmente e começou a fabricar “brinquedos científicos” simples, mas eficazes. Para o jovem de pouco mais de vinte anos, na época, era “bem melhor que fazer caminhões”. Depois ele se estabeleceu por conta própria e enviava seus brinquedos para escolas governamentais, tribais, rurais e urbanas de todos os cantos e recantos do país.

Talvez Arvind deva sua curiosidade à sua mãe. Ele diz ter sido uma criança “mexeriqueira, curiosa”, que adorava desmontar e remontar os objetos. “Eu tinha uma mãe muito doce que me deixava fazer isso”, conta ele. Seu melhor amigo era uma “caixa de ferramentas” cheia de chaves de fenda e outros instrumentos. Com apenas oito anos ele abriu o ventilador que estava preso ao teto para consertá-lo porque seus pais não poderiam pagar um eletricista. Desde então, “longas horas de brincadeiras” são um luxo para muitas crianças. Arvind tem o sentimento que eles são torturados desde muito pequenos por um sistema educacional que distribui notas baseadas em sua capacidade de memorização. “É uma coisa que as crianças devem rejeitar”, declara. “Nós também temos necessidade de crianças desobedientes, crianças que desafiem a autoridade para aprender e fazer coisas em seu próprio ritmo”, continua ele, com bom humor.

Com o mesmo entusiasmo, Arvind traduz os livros em inglês para o híndi, porque, tendo nascido em Uttar Pradesh (coração da região hindífona, no norte do país), ele é “profundamente consciente da pobreza do material disponível em híndi”. Já traduziu 155 textos e postou na internet. Também escreveu 23 livros; a maioria pode ser baixada gratuitamente de seu site. Ele põe esses textos no site antes mesmo de imprimi-los! Arvind acredita em compartilhar.

“A vida é curta”, diz; “nós devemos torná-la bela. Não levaremos nada conosco quando morrermos, não e verdade?”.

Depois de trinta anos, esse espírito curioso se especializou em fabricar, com três pedaços de barbante, brinquedos que levam a descobrir e amar a ciência. Sua oficina alimenta as escolas da Índia.

Traduzido de Courier Internacional, nº 1204, de 28 de novembro a 4 de dezembro de 2013, na seção Ils font l’atualité. Publicado originalmente em The hindu, Madras; pode ser encontrado também aqui, em francês.

Publicado em 7 de janeiro de 2014

Publicado em 07 de janeiro de 2014