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Mudança climática: uma agenda política que não pode ser protelada

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Ilustração

Acabou de forma melancólica no sábado, dia 23 de novembro de 2013, a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 19), em Varsóvia. Apesar de contar com delegações de 196 países e ter-se iniciado logo após o grande furacão que arrasou uma cidade nas Filipinas, os interesses econômicos imediatos mais uma vez impediram que fosse produzido algum acordo governamental firme para enfrentar a crise ambiental. É emblemático que na mesma Varsóvia, capital da Polônia, um dos países (como, aliás, a emergente China) altamente dependente do carvão mineral – o maior vilão em termos de emissões de CO2 – foi realizado durante o mesmo período da COP 19 um evento da indústria extrativa do… carvão!!! Isso até é um escárnio, um menosprezo sem igual a todas e todos nós, cidadãos do mundo, que nos preocupamos com a integridade do planeta e com as futuras gerações.

Estamos diante de um claro retrocesso mundial na agenda ambiental, enquanto as evidências da mudança climática são uma realidade nas nossas vidas. O Brasil é um caso claro, especialmente com a maior sequência e intensidade de chuvas e de secas, sem contar com o calor, que, mesmo na primavera, bateu recordes este ano. Os noticiários foram chocantes com o que aconteceu na Filipinas, com cidades arrasadas e estimativas de 10 mil mortes provocadas por furacão de violência nunca vista. Mas nos próprios EUA, palco de constantes furacões, nunca houve tantos e tão intensos como neste outono no Hemisfério Norte. O último relatório do CPPC é enfático quanto à previsão de mudança climática de 3 a 6 graus Celsius na temperatura do planeta, com 97% de certeza. O que falta então para ter o desastre à nossa porta de forma irreversível?

O Brasil, em todos os cenários, será um dos países mais atingidos. Não podemos esquecer que nossas grandes metrópoles estão na costa atlântica, algumas a poucos metros acima do nível do mar. Se já hoje sofremos com certas ressacas marítimas, imagine o que pode acontecer com meio ou até um metro de aumento do nível das águas... A inundação atingirá boa parte da região metropolitana do Rio. Por outro lado, há mais chuvas no Sudeste e mais seca na Amazônia, que corre o risco de se tornar uma nova savana, reforçando ainda mais a mudança dos sistemas ecológicos fundamentais no Brasil e no mundo. Afinal, a Amazônia é vital no clima das chuvas e isto afeta também as geleiras, até aqui vistas como eternas, no Himalaia, lá nos distantes Tibete e Nepal.

Enfim, não há dúvida de que temos um desafio fundamental como humanidade, pois nos tornamos interdependentes e responsáveis por deixar as novas gerações viverem num planeta com a integridade que recebemos. A mudança é no aqui e agora. Neste momento estamos decidindo o futuro de toda a humanidade. O futuro não é exatamente um projeto, mas sim o resultado do que fazemos hoje. Por que então o retrocesso na agenda comum ambiental?

A atmosfera é um bem comum essencial, fundamental para a biosfera. Mudanças climáticas comprometem a vida, toda forma de vida, no Planeta Terra. A causa das mudanças é clara: emissões de gases de efeito estufa, particularmente as emissões devido à queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) e o desmatamento. O problema é que estamos totalmente mergulhados num estilo de vida dependente de tais emissões. O paradigma civilizatório aponta para mais e mais industrialização, produtivismo e consumismo, baseado no uso sem limites de recursos naturais e movido a energia fóssil. Hoje, no mundo, estão em construção mais de 1.200 usinas de carvão para produzir eletricidade, quando deveríamos estar eliminando esse tipo de fonte energética. As novas tecnologias de exploração de xisto betuminoso, para extrair de forma barata o gás e o óleo aí contidos, particularmente nos EUA e Canadá, apontam para um novo ciclo de intenso uso de energia fóssil. Essa mudança é de tal magnitude que está transformando toda a geopolítica do carvão e do petróleo. E o que dizer de nossas reservas de petróleo do pré-sal? Uma fundamental contribuição para… a mudança climática. Reduzimos os desmatamentos e as queimadas nos últimos anos, apesar do alarme de aumento na última avaliação. Mas isso não nos autoriza a festejar as reservas do pré-sal.

É num quadro de possibilidades de reprodução e intensificação do mesmo desenvolvimento capitalista predatório ambientalmente e concentrador e injusto socialmente – como digo sempre, produtor de luxo e lixo, em seu afã de acumular e acumular sempre mais, e não de justiça socioambiental – que a questão da mudança climática perde importância nas esferas do poder. Tudo se faz para nada decidir. Desde o que na ONU é conhecido como “trauma de Copenhague”, na COP 17, em 2009, tudo se faz para que os negociadores oficiais tenham o ambiente protegido de pressões da cidadania planetária e nada decidam, como agora em Varsóvia. Foi assim o ano passado aqui na Rio+20, que reuniu até chefes de Estado para celebrar uma mera declaração de intenções, sem compromisso efetivo.

Só resta lembrar o que aconteceu entre nós em junho deste ano. Para avançar e mudar o rumo do desastre para o qual o mundo caminha, o que pode fazer diferença é a cidadania nas ruas das grandes cidades do mundo, nos territórios, lugares que mais sofrerão com as mudanças climáticas. O mundo, a atmosfera com o ar e o clima, a água, o mar, a biodiversidade, enfim, o planeta são “comuns” da vida humana, de toda forma de vida. Organizemos movimentos cidadãos planetários irresistíveis para forçar economias e governos do mundo a mudar. Desafio ousado, sem dúvida. Mas precisamos pensar grande para fazer grandes mudanças.

07/01/2014

Publicado em 07 de janeiro de 2014