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Desafios na leitura eletrônica em EAD

Sebastião Josué Votre

Laboratório de Tecnologias do Ensino da Língua (UFF)

Introdução

O contexto do curso de ensino a distância é de dificuldades não triviais da parte de alunos de especialização em EAD que são professores do Ensino Fundamental e Médio, ao lidar com as mensagens e os documentos disponibilizados no ambiente virtual de aprendizagem (AVA). O objetivo deste trabalho é descrever e analisar manifestações dessas dificuldades e oferecer subsídios para melhorar o desempenho na leitura.

O corpus consiste de dados recentes, disponíveis no Laboratório de Tecnologias do Ensino da Língua (LABTEL) que constam nos ambientes virtuais de aprendizagem de especialização a distância em ensino de leitura e produção textual da UFF. O estudo é relevante, porque a inabilidade de leitura eletrônica acarreta evasão, repetência e baixa qualidade nos trabalhos finais de curso. Logo, compreender essa inabilidade contribui para elaboração de estratégias para superá-la.

As evidências estão disponíveis em nossos cursos, na edição de 2012-2013: consultas dos alunos à coordenação geral do curso e à coordenação geral de tutoria, bem como às tutoras. A hipótese inicial é de que, na leitura eletrônica, os leitores combinam hábitos da leitura projetiva, com fraco desempenho no domínio das ferramentas de navegação no hipertexto.

Constato que os sistemas eletrônicos são pouco amigáveis, deixando os usuários inseguros sobre se tiveram sucesso ou não no cumprimento das tarefas de enviar arquivos. Enquanto os sites de órgãos de pesquisa como CNPq, Capes, Inep e Faperj garantem que seus dados foram encaminhados, com a frase: sua tarefa teve sucesso, o mesmo não ocorre com a customização do Moodle que utilizamos no Cecierj.

O que escrevem

Eis alguns fragmentos que dão indícios de insegurança em relação ao AVA:

Se você puder verificar se chegou ok, ficarei agradecida; ainda não estou conseguindo ver a nota do Fórum 1 de Linguística Textual. Será que houve algum problema? Quero pedir desculpas pelo arquivo em branco. Verifiquei a minha cópia no arquivo e ela está ok. Possivelmente, houve problemas na hora do envio, quase sempre feito numa lan house; enviei a tarefa aula 4. Pode confirmar?

Constato também que a expressão eletrônica (que deveria ser mais detida) é rasa, rápida e rasteira. Richard Rorty insiste em que, ao aumentarmos nosso vocabulário, aumentamos também a capacidade de expressão e de leitura. Entretanto, decorre um tempo razoável entre a oitiva de uma palavra ou expressão e o domínio dos contextos em que a mesma se utiliza.

Eis dois fragmentos de falha na expressão escrita:

Esse vocábulo, segundo o verbete que me enviou, é realmente de complexa compreensão; o curso de especialização está compatível com minhas expectativas.

A busca da expressão enfática é responsável pelos problemas de adequação dos fragmentos à norma culta, enquanto a leitura superficial pode estar associada ao uso inadequado de complexa e expectativas.

Uma dificuldade não trivial está associada à compreensão do que pedimos e aos mecanismos de transfer. Nesse sentido, continuo a verificar, junto aos nossos alunos professores, o que constatei no Mobral em Parnarama, interior do Maranhão, em 1976. Naquela ocasião, pedi que os alunos dessem um título ao texto que acabaram de ler e todos ficaram em silêncio. Como eu cobrei o título, eles riram e comentaram:

Professor, título é o que usamos para votar, e texto é tampa de panela. Então, o senhor está gozando com nossa cara?

Noto a cada aula que os comandos – tanto das tarefas quanto dos fóruns – não são claros e objetivos o suficiente, deixando-me muitas vezes em dúvida do que realmente devo fazer; os actantes seriam os possíveis participantes desta enunciação? Pergunto por que usei com propriedade tal termo em uma de minhas respostas.

Os comentários evidenciam que os alunos não percebem que não entendem o que pedimos.

A falta de domínio do vocabulário técnico representa uma barreira praticamente intransponível para alguns alunos de EAD, conforme verificamos com o uso do termo protocolos, que inviabilizou o cumprimento da tarefa solicitada.

Ilustro a seguir o mesmo tipo de dificuldade com o termo enunciado, que é corriqueiro nos estudos do discurso e da enunciação, mas não ocorre no cotidiano da escola. O comando é: “Avalie criticamente um relato de experiência com enunciados produzidos em situações reais de interação". Eis a pergunta de nosso aluno: Devo mencionar um enunciado e a partir dele analisar as variáveis que estudamos no texto base? A dificuldade para interpretar os comandos decorre também do desconhecimento do conteúdo de termos básicos, como hierarquia:

Você pode explicar o que é para ser feito na atividade do fórum 6, principalmente ao que se refere “modo hierárquico”?

Os leitores, por vezes, são explícitos ao falar da dificuldade em ler e, sobretudo, compreender: Veja as declarações seguintes:

Pode ser que eu não tenha feito uma leitura atenta do texto. Gostaria de saber onde encontro embasamento teórico por Marcuschi sobre operadores argumentativos. Não encontrei no texto as referências; em “Justifique o estudo dos operadores argumentativos”, você pode explicar o que é para ser feito?

Veja também o exemplo seguinte:

Há também um outro ponto a ser destacado na apostila e no ambiente virtual, pois a mesma solicita que façamos diversas atividades e as tarefas pontuadas muitas vezes não se encontram no final das apostilas, então, quando penso que já realizei todas as tarefas.... Surpresa!

A situação se torna crítica quando nós, autores dos materiais, não conseguimos entender o que os alunos querem. É o caso, por exemplo, em:

Alguns comandos não ficaram claros, resultando, nos fóruns, por exemplo, em postagens bem distintas; indicações de como fazer as atividades e pedidos de análise nos fóruns deixam muitas dúvidas: ou por serem muito amplos ou por possibilitarem mais de um entendimento.

Gostaria de concluir atribuindo aos alunos-professores o que eles dizem de seus alunos, pois vale para eles o mesmo julgamento:

Nossos alunos leem, mas não conseguem captar a mensagem do texto, nem se esforçam.

Também ilustram que pode estar faltando esforço:

Não vi a referência bibliográfica dos textos de Paulo Freire e Guimarães Rosa nem a indicação do ano, após a citação, no corpo da aula, de cada um desses escritores. Não olhei direito ou de fato não aparecem as indicações?

Quais são as perspectivas para mudar este quadro?

Publicado em 18 de março de 2014

Publicado em 18 de março de 2014

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