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Mulheres e política

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Passei o último Dia Internacional das Mulheres com uma questão na cabeça: por que tão poucas mulheres ocupam posições de destaque no poder político? Claro, ocorreram, nos anos recentes, mudanças de grande importância. Nós temos a nossa Dilma e a Argentina, a Cristina, ambas presidentes. A Alemanha tem a Angela. Golda, em Israel, e Indira, na Índia, foram destaques para a minha geração. A mulher que mais me assustou na política, por radicalizar o lado ruim, foi a Tatcher. Agora, no dia 11, toma posse no Chile a Michele, numa volta para um segundo mandato que pode surpreender. Devo estar esquecendo de outras, mas não devem ser tantas. De quem lembro são algumas “primeiras damas” que apontam exatamente para o papel de coadjuvantes na política, até descartáveis publicamente – como parece normal na não tão republicana França –, que lhes é reservado no espaço machista da política.

O problema de fundo é que o poder político é, talvez, um lugar machista por excelência, de reafirmação radical do poder dos homens, adequado para Reagan, Bush, De Gaulle, Vargas, Perón, Chávez, Castro, Hitler, Putin, Stalin, Geisel, Figueiredo, Salazar, Franco, Mussolini, Berlusconi, tantos e tantos, só dos mais recentes “notáveis” que ainda povoam nossas mentes, que encheriam páginas e mais páginas, com o risco de esquecer de muitos. Aliás, a política é machista, excludente e, se a gente não cuidar, ditatorial. O pior é que parece ser normal que o poder político seja isso.

Tenho admiração e ao mesmo tempo temor das poucas mulheres que, até aqui, se aventuram na política.

A admiração é pelo fato de ser uma cunha no machismo, que pode fazer a lógica do poder de dominação mudar. Temor por não significar mudança real, em última análise, o que lamento profundamente. Das mulheres que citei no primeiro parágrafo, não tenho muito a celebrar em termos de mudança da lógica machista que organiza o poder. Pelo contrário, as que tiverem e estão tendo maior sucesso são vistas como “mulheres de ferro”. Margaret Tatcher pela direita extrema e Golda Meir pela esquerda são os exemplos que vêm do passado. Angela Merkel, hoje, é o protótipo de mulher de ferro. Li recentemente algo do Habermas que definiu a Merkel como uma combinação suave entre Reagan e Tatcher. É, talvez, a melhor definição para o que vem fazendo a poderosa alemã, capaz até de confrontar como igual o truculento russo Putin. Mas será que mudar o machismo dominante na política é só isto: ter e usar o poder, o mesmo poder político?

As minhas críticas às mulheres de sucesso na política, reconheço, são maiores do que a admiração. Como feminista que me considero, é difícil fazer críticas às mulheres na grande política. É da “grande política” que falo aqui. A política, por definição, é uma das atividades que deveriam ser as mais dignificantes no viver humano. Afinal, política é busca e luta e por concretização de imaginários e projetos que dignificam a vida em sociedade. Trata-se de dar sentido ao viver e torná-lo viável, deste os primeiros grandes pensadores, como Confúcio para a China e Platão, Voltaire e Rousseau para nós, ocidentais. No campo da sociedade civil, em que a gente se constitui como parte de sujeitos políticos, com identidade e projeto, as mulheres ocupam um lugar fundamental. Não existiria organização de cidadania ativa sem mulheres, com suas próprias organizações e movimentos feministas ou ocupando posições de destaque em outros movimentos e organizações, sejam sindicatos, MST, associações de favelados ou numa organização como o Ibase. Mas na grande política parece diferente. Poucas mulheres estão no espaço eleito da representação política e na direção de partidos. As poucas mulheres que hoje encarnam a grande política estão afirmando novos imaginários e projetos? Estão elas apontando para reais mudanças no poder machista?

Em termos de críticas às mulheres, só trago um pequeno e trágico exemplo do nosso Brasil. Que mudança “feminista” no poder temos a comemorar com a Dilma? Ouvi seu pronunciamento para comemorar e Dia Internacional da Mulher e... Nada de realmente substantivo na mudança da lógica machista que organiza a estrutura social brasileira. Escrevi e repito aqui: uma das maiores conquistas recentes no Brasil foi a PEC sobre o trabalho doméstico, trabalho de mais de 6 milhões de pessoas, quase exclusivamente feminino. É como fazer a libertação de escravas no reduto familiar, onde mulheres, com conivência de seus maridos homens, exploravam mulheres majoritariamente negras, pobres, sem direitos. O que o governo da mulher Dilma está fazendo para confrontar a sua base aliada no Congresso, com Romeros e Cunhas, machista por sinal, para apressar a regulação da lei e para que ela não seja lembrada como mais uma tentativa fracassada?

Li sobre a incrível trajetória da chilena Michele Bachelet, filha de general assassinado pela ditadura Pinochet, que assume pela segunda vez como presidente agora dia 11 de março. Foi na bela reportagem da revista Piauí de fevereiro de 2012. Estou esperançoso mais uma vez. Ela prometeu nada mais nada menos, do que mudar a Constituição do Chile, a carta magna do ditador sanguinário Pinochet, ainda vigente. A sua ministra de cultura, a Claudia Baratini, é uma velha amiga do processo Fórum Social Mundial. Mas outras amigas e amigos chilenos dizem que não esperam muito. Gostaria que ela abrisse uma brecha no sistema político chileno maior do que os grandes terremotos provocam na natureza por lá. O Chile que precisamos é menos neoliberal e, sobretudo, menos machista. Não nos decepcione, Michele!

Enfim, não penso que precisamos de mulheres brigonas, mas de mulheres que resgatem o sentido maior da política, com aquela experiência prática do cuidado com os “comuns” que só elas detêm. De nós, homens, não espero mais grande coisa. O poder nos corroeu por inteiro. Só as mulheres podem nos libertar. Podem?

Publicado em 18 de março de 2014

Publicado em 18 de março de 2014

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