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Somos todos interligados: uma experiência compartilhada entre escola e comunidade

Luciano Luz Gonzaga

Professor de Ciências da Escola Municipal Imaculada Conceição - Belford Roxo-RJ; mestre em Biociências, especialista em Ensino de Ciências e Biologia

O Relatório Brundtland (1987), também chamado Nosso futuro comum (Our common future), é o documento final da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, promovida pela ONU nos anos 1980 e chefiada pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlen Brundtland. De acordo com o Relatório Brundtland, o uso sustentável dos recursos naturais deve atender “às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas”.

Assim, fica clara a importância de conhecer as formas de manejar, isto é, de lidar de modo cuidadoso e responsável com os recursos naturais, visando à conservação de sua qualidade e quantidade; de detectar formas inadequadas que por ventura estejam ocorrendo na comunidade, desenvolvendo, dessa forma, o senso crítico e oferecendo oportunidades para a discussão de medidas que devam ser tomadas pela comunidade escolar e do entorno para a reversão de quadros indesejados (GORDILLO, 2006).

Com base nessa premissa, desde 2009 a Escola Municipal Imaculada Conceição, inicialmente com o projeto multidisciplinar intitulado “Mosquito da dengue: mapeamento dos focos e profilaxia da doença”, tem adotado como eixo central de seus projetos político-pedagógicos ações que construam, na escola e na comunidade, conhecimentos necessários dos mecanismos de manutenção do equilíbrio ambiental, de qualidade de vida e, portanto, de promoção da saúde.

Para o cumprimento do projeto político-pedagógico de 2013, a escola abraçou o desafio de “educar para a sustentabilidade” e construir “espaços de referência que mantenham uma relação equilibrada com o ambiente, diminuindo o impacto causado pela ação humana” (LOPES, MELO e BARBOSA, 2012, p. 4).

Assim, o projeto eleito pela comunidade escolar teve como objetivo geral contribuir para a conscientização da importância da preservação da localidade, a fim de provocar reflexões e ações na formação de novos hábitos. Para isso, foram realizadas as seguintes ações:

  • desenvolvimento e fabricação de móveis e/ou acessórios ecologicamente corretos;
  • análise e discussão, em fóruns permanentes, da necessidade e das oportunidades de atuar de modo reativo e propositivo, na garantia de um ambiente saudável e com qualidade de vida;
  • reaproveitamento de resíduos sólidos, diminuindo o impacto do lixo nas encostas de rios e na diminuição de novos focos de vetores de doenças;
  • reutilização dos descartes de óleo de cozinha na criação de sabões, evitando a contaminação do lençol freático e/ou entupimento da canalização do esgoto.

A iniciativa desse projeto justificou-se em função do impacto ambiental e do volume de enchentes devido ao acúmulo de resíduos sólidos, especialmente garrafas de politefteralato de etileno (PET) nas ruas do bairro, bem como materiais orgânicos no Rio Botas, que corta a comunidade do bairro Boa Esperança, no município de Belford Roxo-RJ.

Nosso plano de ação

O projeto iniciou-se com a realização de fóruns de discussão sobre os principais problemas ambientais que afetam a comunidade, e de oficinas de sustentabilidade, dentro do ano letivo de 2013, conforme demonstram os quadros a seguir.

Quadro 1: Apresentação dos fóruns sobre os problemas ambientais que mais afetam a comunidade
Fórum Objetivo Público-alvo Período
O problema do lixo: coleta e destino Conscientização da população e levantamento de propostas ao governo do município de Belford Roxo Alunos(as), responsáveis, entidades religiosas e Associação de Moradores do Bairro Boa Esperança, comerciantes da localidade 2 encontros mensais
Rio Botas: limpeza e dragagem Conscientização da população e levantamento de propostas ao Instituto Estadual do Ambiente Alunos (as), responsáveis, entidades religiosas, Associação de moradores do bairro Boa Esperança, representantes da Secretaria Municipal e Estadual do Meio Ambiente 2 encontros mensais
Pavimentação e iluminação das ruas Cobrança do serviço à Prefeitura Municipal de Belford Roxo Secretaria de Obras da Prefeitura Municipal de Belford Roxo, Secretaria de Transporte, alunos(as), responsáveis e comerciantes da localidade 2 encontros mensais

Quadro 2: Apresentação das oficinas de sustentabilidade
Nome da oficina Objetivos Público-alvo Período
Artesanato de PET Construção de objetos artesanais para diminuir a quantidade de plástico descartado e dar nova vida aos materiais, bem como gerar renda para os participantes Alunos(as), responsáveis e membros da comunidade civil 4 encontros semanais
Meu Próprio Sabão Produção de sabão caseiro a partir do óleo de cozinha usado e gerar renda para os participantes Alunos(as), responsáveis e membros da comunidade civil 4 encontros semanais
Desperdício jamais Reaproveitamento dos alimentos e contribuição de novos gêneros alimentícios na merenda escolar Alunos(as), responsáveis, professores, membros da comunidade civil e merendeiras da Unidade Escolar 4 encontros semanais

Considerações finais

A realização desse trabalho em parceria com diversos segmentos da sociedade trouxe para o interior da escola uma visão além dos livros didáticos. A experiência permitiu aos alunos perceber que somos todos interligados, que as disciplinas são interligadas e que o comportamento de um indivíduo pode afetar positiva ou negativamente o outro.

No momento em que tanto se discute a função social da escola e de que forma a aprendizagem pode ser significativa (AUSUBEL, 2000), esse trabalho, articulado com diferentes olhares e experiências, pode demonstrar que é possível fazer diferente e, com isso, despertar no professor não mais o papel de decodificador das informações contidas nos livros didáticos, mas o papel de agente político e agregador – um profissional livre dos muros da escola.

Referências

AUSUBEL, D. P. The acquisition and retention of knowledge: a cognitive view. Dordrecht: Kluwer Academic, 2000.

GONZAGA, Luciano Luz. Mosquito da dengue: mapeamento dos focos e profilaxia da doença. Revista do professor, nº 100, p. 34-37, 2009.

GORDILLO, M. M. Conocer, manejar, valorar, participar: los fines de uma educación para la ciudadania. Revista Iberoamericana de Educación, nº 42, p.69-83, 2006.

LOPES, G.; MELO, T.; BARBOSA, N. Passo a passo para a Conferência de Meio Ambiente na Escola + Educomunicação: escolas sustentáveis. Brasília: MEC/SECADI; MMA; SAIC, 2012.

Publicado em 6 de maio de 2014

Publicado em 06 de maio de 2014