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Parque do Flamengo (Notas sobre o cotidiano na cidade I)

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Sou um analista e militante. Sempre sou pressionado para fazer análises conjunturais e políticas sobre o que se passa no Brasil e no mundo. Mas há tempos venho pensando sobre o prazer e os temores do cotidiano, marcado por vivências e convivências, umas surpreendentes, outras que se repetem. Todos temos um círculo de proximidades cheio de vida, mas que vamos levando quase sempre sem pensar o que significa. No entanto, no grosso de nossa vida estamos aí, nem pensamos muito como é, o que nos dá prazeres e o que nos intriga.

Há uns trinta anos caminho no Parque do Flamengo. São 6 a 7 km por dia, quase sempre no mesmo trajeto. Porém sempre surpreendente. Outro dia me dei conta de que sempre procurei apartamentos em volta desse fantástico parque. Desde que voltei de Paris, em fins de 1978, e decidi com minha companheira ficar no Rio, moramos em pontos de Botafogo e Flamengo que permitiam estar ao lado do Parque do Flamengo, nosso parque. Sempre descubro algo naquela deslumbrante e sempre emocionante vista do Pão de Açúcar. Olho para os lados vejo aquela mulher deitada de peitos para cima que a silhueta do Pão de Açúcar com o Morro da Urca fazem imaginar. As muitas curvas da Baía da Guanabara, com a suavidade de suas ondas, são algo que embala.

Mas nada como o próprio Parque do Flamengo, essa criação de Lota e Burle Marx no lado esquerdo do Rio, no seu coração. Imaginando o que fazer de uma imensa área na Praia do Flamengo, tomada à Baía da Guanabara pela demolição – este é o nome – do Morro do Castelo, Lota convenceu o governador Lacerda de que o melhor era deixar o Burle Marx demonstrar como se pode fazer jardins saindo daquela disputa entre modelos ingleses e franceses. Claro, naqueles anos de auge de um padrão em que o carro individual parecia o máximo, como na concepção de Brasília, fez-se uma concessão para a enorme via de ligação entre a Zona Sul e o Centro da cidade. Burle Marx fez uma obra-prima com o Parque do Flamengo. Simplesmente demonstrou na prática que é possível fazer bonito explorando a fantástica biodiversidade tropical no mundo, suas variadas formas, cores e belezas. Como resultado, saiu um parque como as ondas do mar, mudando a cada cem metros, em ondas de tamanho e cor, tudo feito com árvores, palmeiras, arbustos, com grama de fundo. O Central Park de New York tem seu valor, mas nada se compara com o nosso Parque do Flamengo como beleza tropical.

Como sou um observador de plantas, matas, parques e jardins, por origem e gosto, não por formação, o Parque do Flamengo é uma descoberta ainda não acabada. A cada dia descubro algo, uma planta diferente, um ângulo de formas e cores nunca visto, uma flor surpreendente. Enfim, um parque para ser curtido. E é curtido por muita gente, variada sem dúvida, por motivos muito diversos. Durante a semana somos os que se exercitam no parque. No fim de semana, o Parque do Flamengo é tomado por verdadeira multidão, com predominância de grupos populares, do Flamengo e Botafogo, do Centro e da Zona Norte. É o lugar por excelência de piqueniques e festas de aniversário. Uma festa, enfim.

De meu ponto de vista mais analítico, tomo o Parque do Flamengo como um dos maiores bens comuns criados em nossa cidade. Não é como as praias, a Baía da Guanabara,  os montes como o Pão de Açúcar e o Corcovado, as florestas, um sítio ecológico único, dádiva natural. O Parque do Flamengo, como a Quinta da Boa Vista e muitas praças, são bens comuns criados. Os “comuns” é que definem uma coletividade, os modos de convivência, a possibilidade de se sentir cidadão e cidadã, igual na diferença. Voltando ao Parque do Flamengo, ele é essa liga que dá sentido ao comum. Isto não quer dizer que todos o pensam assim. Quanta gente que vive no Rio de Janeiro jamais pisou no Parque do Flamengo? Certamente passou por dentro, mas não notou que estava cruzando um dos mais belos parques criados no mundo.

Para muitos ecologistas radicais, o Parque do Flamengo pode parecer uma transgressão. Afinal, Burle Marx fez um parque que não respeitou a tal regra do nativo, de só usar plantas daqui. Ele fez um parque planetário, de plantas tropicais do planeta. Foi ousado e instigante. Afinal, o que é mesmo nativo, tanto em termos de plantas como de gente? Precisamos abrir nossas mentes para um planeta que tem seus segredos, surpresas e limites. Quando caminho no Parque do Flamengo, essas questões me assolam quase todo dia. Como preservar o máximo da diversidade natural local e ao mesmo tempo valorizar a biodiversidade do mundo que torna tudo parte de um processo criativo, inovador e único a cada dia de nossas vidas?

Sem dúvida, ter um Parque como o do Flamengo à porta é um privilégio e uma responsabilidade. Não penso que ele seja inseguro, como alguns malucos pensam, dada a presença de pobres e mendigos na imensa área. Afinal, o parque é também deles! O quão comum o Parque do Flamengo vai ser depende de todas e todos. A nós e só a nós cabe a tarefa de cuidar dele, de zelar para que seja um comum inestimável. Os garis até que cuidam, menos quando chove, pois as águas também inundam o Parque do Flamengo e até hoje a Comlurb não sabe como conviver com chuvas entre nós, país tropical de abundantes chuvas. Mas muitos de nós agimos sem o devido cuidado, emporcalhando o nosso parque, agredindo as belas árvores que Burle Marx nos deixou.

Vale a pena ter um parque assim. Ele mantém viva a ideia de que viver bem – o bem-viver – é proximidade e convívio. Que todos na cidade curtam os parques e as praias e as praças de proximidade, nossos comuns fundamentais. Nestes dias de tensão e agressão à nossa cidade, com obras que não pedimos e sobre as quais não fomos consultados, com um verdadeiro caos instalado, vamos passear em nossos parques, praias e floresta, para relaxar e ver de onde é possível ainda ver que existem, sim, alternativas para nosso viver compartindo a cidade.

Publicado em 13/05/2014

Publicado em 13 de maio de 2014