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A barbárie acadêmica

Lúcio Alves de Barros

Professor da Faculdade de Educação da UEMG

Creio não existir dúvida, nas instituições mais sérias, de que a pesquisa, a extensão e o ensino são imprescindíveis para o bom andamento de uma universidade. Há anos o governo abriu possibilidades para inúmeras instituições trilharem esse caminho que, em médio ou longo prazo, pode ser de prosperidade e de melhores condições para o desenvolvimento da educação pública de qualidade. Contudo, é necessário analisar ao cansaço alguns pontos discutidos por docentes e pesquisadores mais atentos.

Um ponto diz respeito às mudanças em relação aos critérios de “produção” que, após a década de 1980, invadiram as universidades. Lembro-me inclusive de um livro do filósofo José Arthur Giannotti (A universidade em ritmo de barbárie, publicado pela Brasiliense em 1986) que apontava para a barbárie que se forjava em meios aos professores e às instituições de ensino superior. De lá para cá, vemos a repetição de muitos problemas. Um deles diz respeito às universidades que entraram na famosa regra da produtividade no intuito de atender a um mercado de capitais intelectuais cujo resultado atende a um público reduzido e que existe somente para própria reprodução. Dito de outra forma: as instituições universitárias produzem para os seus participantes. Nesse caminho, saem na frente os “mais empenhados” na política acadêmica, que possuem poder de agenda, espaço nas organizações de pesquisa e bolsas e mais bolsas. Na dianteira, eles permanecem como verdadeiras celebridades (“estrelas”, no dizer do professor Giannotti) do saber e do conhecimento destinado apenas às pessoas com capacidade de entendimento. O caminho não é tão tortuoso para as celebridades, pois muitos se tornam midiáticos: são parceiros da TV, gostam de opinar nas notícias e adoram uma bajulação oriunda dos discípulos e de outros que certamente terão vagas garantidas em programas de mestrado e doutorado.

A barbárie ganha vida ainda na rejeição certa e clara dos “intelectuais de gabinete” (antes professores) em relação ao quesito ensino. Obviamente, nem todo professor é um pesquisador em potencial. Max Weber já comentava essa possibilidade sob pena de o docente se tornar um político e imprimir aos alunos juízos de valor. Mais que isso, alunos nesse caso facilmente tornam-se fiéis seguidores de algum “messias do ensino”, a ponto de conhecerem orientadores do exterior e tratarem de reproduzir o conhecimento deste em solo nacional visando claramente a se tornar um expoente e um potente porta-voz. É o tal do conhecimento em grupo, em que algumas pessoas se fecham entre elas, se reservam em cargos, nos centros de pesquisas, em programas de pós ou em convites para seminários e congressos. Raras vezes esses intelectuais “de ponta” não têm lugar garantido em comitês editoriais de revistas, congressos e seminários. Nem é preciso dizer que são eles os principais personagens dos espetáculos e dos eventos nacionais e internacionais nos quais se encontram os iguais que vão ver o mesmo que se debateu há cinco ou dez anos. As cadeiras cativas ficam vazias somente quando o pesquisador “de peso” passa desta para melhor.

É preciso chamar a atenção para a concentração de esforços e de poder nas mãos de poucos no mundo da barbárie acadêmica. Professores começam a se estranhar. Denunciam e reclamam. Muitos calam mentes e argumentos pelo grito e usam ostensivamente a histeria e a perda de limites. Profissionais outrora iguais passam a ser diferentes. A organização se burocratiza, torna-se uma produtora de artigos, documentos e anais; percebe-se a diminuição do debate público e do conhecimento em sala de aula. O jogo do empurra se firma. Uns dizem trabalhar mais do que outros. Alguns lecionam, outros não. Uns aparecem, enquanto outros desaparecem e assim por diante. A barbárie acadêmica ganha mais ressonância porque muitos vão se empenhar em publicações que andam em poucas mãos e outros vão se matar de tanto lecionar porque “não produzem”, “somente dão aulas”, não publicam em qualis A e não pertencem aos quadros nobres da pós. É o fim da distribuição de tarefas e responsabilidades. É o terminar das peculiaridades de cada agente e funções que, nos meios universitários se encontram no ensino, na pesquisa e na extensão.

Por último, é necessário apontar o lugar dos estudantes no mundo da barbárie acadêmica. Aos pesquisadores que se veem obrigados a lecionar e “sofrer em salas lotadas”, o aluno aparece como problema que deve ser resolvido. As salas de aula retiram o tempo do professor. Preencher diários, entregar provas, discutir em sala ou mesmo escutar o estudante se transformou em tarefa de pouco valor. Valor reduzido pelas próprias instâncias responsáveis pela área. Não cumpre a um “intelectual de peso” lidar com estudante da graduação. Ao contrário, a “produção cognitiva” do “intelectual quase deus” não pode ser rebaixada ao nível do discente diletante. O conhecimento é muito elevado para determinadas mentes; nesse sentido, cabe à celebridade a escolha do estudante que poderá entrar no mercado de capitais intelectuais. Mas ele sabe que não tem lugar caso resolva desobedecer à liderança em questão. Não por acaso, alunos e professores que jogam somente no campo do ensino são malvistos e não raro são marcados pelos pares como pessoas insignificantes que não merecem o mínimo de consideração. O “dar aulas” está na ralé da barbárie acadêmica. No campo da luta do homo academicus não existe lugar para compaixão. Os recursos são disputados a tapa, e os mais fortes saem na frente por possuírem força, tempo, conhecimento dos percalços e das possibilidades abertas pelos órgãos financiadores. Aos que são jovens e desconhecem as práticas, restam os lamentos, a tentativa de sempre, a pesquisa simplificada e o conhecimento reduzido e diminuído pelo próprio colega da organização.

Infelizmente, em meio a poucas linhas não há como delinear outros problemas que perpassam o modus operandi da barbárie manifesta nas universidades. Todavia, vale frisar uma questão certa e ostensiva: no campo de batalha em que se transformou o conhecimento acadêmico, não existe lugar para todos. O espaço é de “inimigos ocultos”, conflitos calados, covardias, adoecimentos, imprevistos financeiros, diminuição de subjetividades e morte precoce. Tudo por um mundo de pouco e para poucos e nada por relações nas quais a diferença não reside na capacidade de sermos iguais no sofrimento vicioso da barbárie que, por natureza, é desprovida de princípios e valores.

Referências

BARROS, Lúcio Alves de. Autofagia e trabalho docente no campo da educação. In: Revista Educação Pública. Disponível em http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0405.html. Acesso em 12/05/2014.

GIANNOTTI, José Arthur. A universidade em ritmo de barbárie. São Paulo: Brasiliense, 1986.

WEBER, Max. Ciência e Política – duas Vocações. São Paulo: Cultrix, 2006.

Publicado em 20 de maio de 2014

Publicado em 20 de maio de 2014

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