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O impacto da urbanização em Lagoas do Rio de Janeiro: estudo de caso sobre as Lagoas Rodrigo de Freitas e de Araruama

Clara Ayume Ito de Lima

Mestre em Ecologia e Recursos Naturais (UENF)

Milena de Oliveira Viegas

Graduada em Ciências Biológicas, pós-graduanda em Biodiversidade e Sustentabilidade (Estácio)

Any Bernstein

Doutora em Biotecnologia, mestre em Bioquímica, professora na Fundação Cecierj

Este artigo foi selecionado dentre os estudos de casos apresentados por alunos na disciplina Sustentabilidade no Contexto das Ciências, oferecida pela Diretoria de Extensão da Fundação Cecierj. O professor pode complementar com este assunto as aulas de disciplinas como Biologia, Ciências, Química e Educação Ambiental, entre outras. Este trabalho pode também servir como sugestão para realização de trabalhos da turma em seu próprio meio ambiente.

Impactos ambientais causados pela urbanização nos ambientes aquáticos

A ocupação de áreas urbanas de forma desordenada e sem infraestrutura sanitária leva a um aumento na degradação ambiental, e a poluição gerada por ações antrópicas leva à adição de substâncias e de energia que alteram as características químicas, físicas e biológicas desses ecossistemas. No caso dos ecossistemas aquáticos, o impacto de um poluente será tão maior quanto for sua concentração e a capacidade do compartimento que o recebe em degradá-lo.

Dentre os diferentes tipos de corpos d'água, as lagoas costeiras sofrem grande impacto ambiental, por estarem situadas em área urbanizada entre o mar e o continente, recebendo os resíduos produzidos pelas atividades humanas realizadas em seu entorno (Soffiati, 1998). No Estado do Rio de Janeiro, as Lagoas Rodrigo de Freitas e de Araruama são exemplos de corpos d'água costeiros que vêm sofrendo queda na sua qualidade ambiental devido a intervenções antrópicas.

Em ambas ocorreram alterações urbanísticas que levaram à diminuição da sua área original, dos canais de escoamento de água pluvial e, para piorar o quadro, ainda há o lançamento, em suas águas, de efluentes domésticos e industriais sem tratamento nesses sistemas. No presente trabalho é realizado retrospecto dos problemas causados pela urbanização nesses dois importantes corpos água do Rio de Janeiro: as Lagoas Rodrigo de Freitas e Araruama.

O esgoto é composto por matéria orgânica, por nutrientes como fosfatos inorgânicos presentes na composição de detergentes, nitrogênio (na forma de nitrogênio orgânico e amônia), microrganismos, sólidos em suspensão e óleos (von Sperling, 2005). O aumento da concentração de nutrientes (compostos ricos em nitrogênio e fósforo) pode causar um processo conhecido como eutrofização artificial dos ecossistemas aquáticos, esquematizado na Figura 1. Braga et al. (2005) definem eutrofização como o "enriquecimento das águas com os nutrientes necessários ao crescimento da vida vegetal aquática". A eutrofização pode ocorrer tanto de forma natural quanto antrópica; a forma natural é um processo demorado e tem relação com o tempo de evolução dos ecossistemas.

Esse processo é iniciado com a entrada de nutrientes na coluna d'água, incrementando a concentração desses elementos e propiciando o crescimento de macrófitas aquáticas. Esses vegetais superiores se alimentam de nutrientes presentes no ambiente. Existem macrófitas flutuantes e outras emergentes. As flutuantes diminuem a entrada de luz, fator importante para ocorrer fotossíntese. Consequentemente, a produção de oxigênio também diminui e os organismos mais sensíveis a essa mudança morrem. A demanda bioquímica de oxigênio (DBO) aumenta – ela é necessária para que os organismos realizem os processos de decomposição da matéria orgânica –, intensificando o consumo do oxigênio restante.

Na época do verão, o aquecimento superficial da água da lagoa promove o processo de convecção, o que revolve o lodo de seu fundo. Isso ocorre porque as águas superficiais ficam mais quentes e menos densas que as águas profundas. Essa diferença térmica produz uma zonação nas águas, formando camadas chamadas epilímnio (camada mais superficial, com maior temperatura e luminosidade), metalímnio (camada com grande variação de temperatura) e o hipolímnio (camada mais profunda, fria e escura).


Figura 1: Esquema do processo de eutrofização; adaptado de Braga et al (2005).

Padrões de qualidade da água

Moreira (2003) ressalta que as estações de tratamento podem aumentar ainda mais o problema da eutrofização, porque o tratamento secundário é baseado na filtragem para remoção de elementos em suspensão, aeração e adição de agentes biológicos que promovem a biodegradação. Como nenhuma das etapas de tratamento elimina de forma eficiente o nitrogênio e o fósforo, grandes causadores da proliferação de algas, quando os seus rejeitos finais são lançados em ambientes costeiros de circulação restrita – como as lagunas, lagoas e interiores de baías, onde há problemas na troca de águas com o mar – há aumento da eutrofização, com crescimento de macroalgas e fitoplâncton mesmo quando a água está tratada.

A Resolução nº 357 do Conama determina que o nitrogênio amoniacal é um parâmetro importante para a classificação das águas naturais e é utilizado na composição de índices de qualidade das águas. Esse elemento provoca consumo de oxigênio dissolvido das águas naturais ao ser oxidado biologicamente (DBO de segundo estágio), e os peixes não suportam concentrações acima de 5mg de N/L. O padrão de emissão de esgotos equivale à concentração de amônia total igual a 20mg de N/L. Esse padrão pode ser difícil de atingir para sistemas de tratamento. Para o nitrato, entendido como contaminante que decorre do processo de decomposição biológica da matéria orgânica nitrogenada, o valor máximo permitido pela Portaria nº 518/00 do Ministério da Saúde é de 10mg N-NO3/L.

No que se refere ao fósforo, os esgotos sanitários que apresentam concentração de fósforo total na faixa de 6 a 10mg P/L não exercem efeito limitante sobre os tratamentos biológicos. Se o fósforo aumentar, pode atingir nível hipereutrófico e surgirão plantas aquáticas superiores (macrófitas), prejudicando ainda mais a qualidade e a utilização da água e transformando-a em habitat para o caramujo planorbídeo – hospedeiro intermediário do Schistossoma mansoni, verme causador da esquistossomose. Os limites estabelecidos pela Resolução nº 357 do Conama em relação à concentração de fósforo variam de acordo com a forma em que ocorre o escoamento. Para as águas doces classe 1, o limite é de 0,02mg P/L; para ambientes lênticos (água parada), 0,025mg P/L para ambientes intermediários, com tempo de residência entre 2 e 40 dias e tributários diretos de ambiente lêntico, e 0,1 mg P/L para ambiente lótico (águas continentais) e tributários de ambientes intermediários.

Este trabalho tem como objetivo detalhar as consequências que o impacto urbano tem causado em lagoas costeiras, tendo como exemplo duas importantes lagoas do Estado do Rio de Janeiro: a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Lagoa de Araruama.

Estudo de caso 1: Lagoa de Araruama

Características ambientais

A Lagoa de Araruama é a maior lagoa hipersalina do mundo, com duas vezes a salinidade do mar, e riquíssima em biodiversidade, circundada por cinco municípios: Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo.

Essa lagoa tem grande importância socioeconômica devido principalmente à atividade pesqueira, que sustenta aproximadamente três mil trabalhadores. Porém esse compartimento vem sofrendo grandes impactos de origem antrópica, como os despejos de esgoto, extração de conchas e pesca predatória.

Histórico dos problemas na lagoa de Araruama

Desde 1940, atividades como extração de sal e de conchas desenvolvidas na Lagoa de Araruama vêm interferindo na topografia do fundo da lagoa, acarretando mudanças nos processos de circulação de água, acomodação de sedimentos e altura das ondas, entre outros. As conchas transformadas em calcário são matéria-prima para a fabricação de cal, soda cáustica e barrilha, realizada principalmente pela Companhia Nacional de Álcalis e pela Indústria Extrativa Araruama. Essas matérias-primas são utilizadas na fabricação de vidro, material de limpeza e higiene, papel e outros produtos químicos derivados.

Desde a década de 1960, com o crescimento das áreas urbanas nos municípios da Região dos Lagos, começaram os relatos de despejos domésticos na Lagoa de Araruama (Figura 2). Em 1977, inaugurou-se a Adutora de Juturnaíba, ampliando a oferta de água e o volume de esgoto produzido, sem que houvesse planejamento do saneamento básico.


Figura 2: Despejo de esgoto na lagoa.
Fonte: O Globo

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre 1984 e 1994 houve grande especulação imobiliária, o que proporcionou ocupação desordenada, já que os loteamentos eram construídos a partir de poucas (ou quase nenhuma) exigências técnicas, urbanísticas e ambientais, resultando em crescimento de 70% dessas áreas.

No verão de 1997, a proliferação descontrolada de algas em algumas enseadas estimulou o desenvolvimento de alguns trabalhos de pesquisa que identificaram as espécies de algas que apareceram na região (Moreira, 2003). A partir de 1999, uma alga do gênero Enteromorpha sp. começou a crescer em demasia em vários pontos da Lagoa e acumulou-se sobre conchas e pedaços de rocha. Assim, detritos provenientes da decomposição das algas foram se acumulando no fundo da lagoa, numa profundidade até 4 metros. A proliferação das algas formou massas flutuantes que terminaram por invadir outras praias devido aos ventos e correntes. Além do impacto ambiental, a decomposição dessas algas exala mau cheiro, e a poluição visual que afugenta visitantes, prejudicando o turismo na região.

Adubadas pelo nitrogênio e fósforo dos esgotos, toneladas de algas, principalmente, das espécies Ulva sp., Rhizoclonium sp., Cladophora sp. e Chaetomorpha sp. [...] indicaram que a capacidade de depuração da lagoa havia se esgotado (Bidegain, 2002).

Um problema também observado na Lagoa de Araruama foi o estreitamento do canal de Itajuru (Figura 3), que levou à redução do volume de águas salgadas, prejudicando as trocas entre a lagoa e o mar: a renovação lenta fez com que a poluição orgânica proveniente dos esgotos ficasse retida. Além disso, as dragagens para extração de conchas, feita por empresas, ressuspendem sistematicamente o sedimento estocado no fundo da lagoa, e junto há a ressuspensão da matéria orgânica que é fonte de nutrientes para organismos aquáticos. O aumento da DBO resultante da proliferação exacerbada de algas, consequência do aumento da concentração de nutrientes em suspensão, provoca também a mortandade de peixes (Figura 4), o que reduz os estoques pesqueiros, causando mau cheiro e poluição visual.


Figura 3: Canal de Itajuru. Fonte: O Globo (A e C) e Tribuna dos Municípios (B)

A mídia sistematicamente noticia essa mortandade, como os eventos ocorridos em agosto de 2011 e fevereiro de 2009

 
Figura 4: Mortandade de peixes na Lagoa de Araruama. Fonte: EcoDebate

Ações governamentais para recuperação

De acordo com Bidegain (2002), entre 1986 e 1989 o escritório da Serla em Araruama e a Feema, implementaram um serviço de gerenciamento da lagoa. Foi criada a Comissão de Meio Ambiente da Região dos Lagos, com a promoção intensa da gestão participativa de prefeituras, empresas e sociedade civil. Tal comissão realizou várias intervenções e exerceu rigorosa fiscalização para evitar a privatização da orla da lagoa. Porém algumas situações não puderam ser revertidas .

Em 1993, cientistas da UFRJ e UFF fundaram o Instituto Ácqua, para o desenvolvimento do Programa Prolagos, que foi marcado por um conjunto de ações e pesquisas desenvolvidas na Lagoa de Araruama e entorno. Até dezembro de 1994, as pesquisas foram financiadas exclusivamente pelo Instituto Ácqua e contaram com o apoio da Fundação Roberto Marinho; em 1996, a Petrobras passou a contribuir financeiramente com algumas ações.

Em 1999, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semads), retomou a proposta da Comissão de Meio Ambiente da Região dos Lagos, apoiando a estruturação do Consórcio Intermunicipal para Gestão Ambiental das Bacias da Região dos Lagos, do Rio São João e Zona Costeira. Tal consórcio é uma associação civil sem fins lucrativos com sede no município de Araruama e tem sua área de atuação compreendendo parcela do território dos municípios situados nas bacias hidrográficas das lagoas de Jaconé, Saquarema, Araruama e outras.

De 1999 até junho de 2001, foi realizado um trabalho conjunto dos Poderes Públicos Municipais, Estadual e Federal, das ONGs e das empresas agregadas ao consórcio. Tal ação resultou em alguns benefícios, como a reativação do monitoramento da balneabilidade das praias (Convênio Unimed/Feema), levantamento de todos os pontos de lançamento de esgotos na Lagoa de Araruama, reuniões entre unidades de pesquisa, universidade, órgãos estaduais e municipais e ONGs com o intuito de nivelar informações técnicas e elaboração do termo de referência para o Plano da Bacia da Lagoa de Araruama, entre outras.

Tratamento ambiental

Em 2000 houve o ápice da eutrofização na Lagoa de Araruama, que teve sua falência ambiental decretada; em 2005, foi iniciada sua recuperação, com monitoramentos.

O Governo do Rio de Janeiro construiu estações de tratamento de esgoto (ETE), dragou e alargou o Canal Itajuru, em Cabo Frio, que faz ligação do mar com a lagoa. De acordo com informações contidas no website da Prolagos, atualmente é feito o monitoramento da qualidade da água em diferentes pontos da Lagoa de Araruama nos locais onde há o despejo do efluente tratado das ETEs, garantindo a eficácia do sistema de tratamento empregado. Segundo o Prolagos, as medidas em execução que estão beneficiando diretamente a lagoa são a construção de um cinturão coletor no entorno da lagoa, a implantação de interceptores de esgoto, a construção da ETE Jardim Esperança, em Cabo Frio, e a ampliação da ETE de São Pedro da Aldeia. Ainda é necessário o processo de desassoreamento do Canal Itajuru para permitir o aumento da troca de água da lagoa com o mar e mais investimentos em saneamento básico em alguns pontos críticos.

Com a privatização dos serviços de abastecimento e tratamento de esgoto, paulatinamente percebeu-se a melhora na qualidade da água e na quantidade de peixes e camarões (Araújo, 2013). Várias medidas vêm sendo tomadas, mas é importante mencionar que o lançamento de efluentes ainda existe e que, apesar da aparente melhora, a lagoa não chegou à qualidade que tinha há 20 anos.

Estudo de caso 2: Lagoa Rodrigo de Freitas

Características ambientais

A Lagoa Rodrigo de Freitas (Figura 5) é a lagoa costeira mais urbanizada do Estado do Rio de Janeiro; é abastecida por águas pluviais e pelos rios Cabeça, Macacos e Rainha, que conduzem a ela fluxos residuais e pluviais em quantidade e qualidade não controladas. Juntos, formam a Bacia Hidrográfica da Lagoa Rodrigo de Freitas. Esse sistema possui um espelho d'água de 2,2km², profundidade média de 2,8m e 7,8km de perímetro, com volume de aproximadamente 6.200.000m³; tem ao redor as praias do Leblon e Ipanema (Feema, 2006).


Figura 5: Foto de satélite da Lagoa Rodrigo de Freitas. Fonte: Google Earth

A Lagoa é uma área de proteção ambiental regulamentada pela Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro (Art. 463, de 2008) e, desde os anos 1990, seu espelho d'água foi tombado (Decreto Municipal nº 9.396, de 13 de junho), refletindo o imensurável valor social e turístico para a cidade do Rio de Janeiro.

Estão presentes na Lagoa três comportas (Figura 6); duas têm como função principal desaguar as águas fluviais e pluviais para a Lagoa, sendo abertas somente em casos de alta pluviosidade (Machado, 2009). A terceira é a única ligação da Lagoa com o mar, também atuando na regulação do nível das águas. Esse estreito canal de 835m, no denominado Jardim de Alá, encontra-se assoreado e, consequentemente, recebe baixa circulação de águas do mar. Por esse fato, ela é conhecida como uma lagoa sufocada, recebendo contribuições principalmente de águas fluviais e pluviais (van Weerelt et al, 2012).


Figura 6: Imagem parcial da Bacia Hidrográfica da Lagoa Rodrigo de Freitas. Fonte: Rioáguas (2010)

Apesar da baixa qualidade da água, essa lagoa apresenta ictiofauna variada e de importante valor comercial, como tainha, garoupas e sardinhas. Crustáceos, como o camarão cinza (Litopenaeus vannamei) e o caranguejo uça (Ucides cordatus), também são exemplos de animais que habitam a Lagoa Rodrigo de Freitas (LRF) e, assim como os peixes, têm importância econômica. Siris, peixes e camarões são animais bioacumuladores de contaminantes (como metais pesados, por exemplo) e, por serem utilizados na alimentação, constituem risco para os seres humanos.

Histórico de urbanização da Lagoa Rodrigo de Freitas

As intervenções humanas na LRF iniciaram-se na época do Império (por volta de 1567), quando plantios de cana-de-açúcar eram cultivados na parte menos alagada da Lagoa. Esse processo inicial da ocupação de territórios próximos à Lagoa é explicado minuciosamente por Rodrigues (2012). Porém a intensificação do processo de urbanização e modernização do Rio de Janeiro durante a década de 1920 transformou a LRF, incluindo processos como o aterramento de algumas áreas da Lagoa para a construção de avenidas e bairros (Figura 7). Além disso, houve o início da construção do canal que ligava a lagoa ao mar, para tentar diminuir os problemas de insalubridade e morte de peixes.


Figura 7: A Lagoa Rodrigo de Freitas em dois períodos diferentes: em 1866 e na sua feição mais moderna, em 1936. Fonte: http://www.eliomar.com.br/rio-antigo-a-lagoa-rodrigo-de-freitas-antes-da-urbanizacao/. Acesso em 15 nov. 2013.

A partir de 1970, a especulação imobiliária agravou as condições ambientais da LRF (Rodrigues, 2012), aterrando as margens para a construção de edifícios residenciais. A Lagoa perdeu quase metade de sua área original (Figura 8) devido aos constantes aterramentos, descaracterizando a paisagem pela retirada da sua vegetação.


Figura 8: Mudanças no contorno da Lagoa Rodrigo de Freitas entre 1809 e 1945. Fonte: Loureiro (2010)

Atualmente, mesmo com todos os problemas, a Lagoa conseguiu se firmar como cartão postal do Rio de Janeiro, sendo inclusive, ponto turístico durante o Natal, quando é montada a maior árvore de Natal flutuante do mundo. Além disso, a questão ambiental debatida nas agendas políticas tem como um dos principais temas a melhoria da qualidade ambiental da Lagoa.

Qualidade ambiental da Lagoa Rodrigo de Freitas

Há preocupação constante com a qualidade da água da LRF, e constantemente são realizados relatórios pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA), fornecendo dados como a concentração de oxigênio dissolvido, clorofila e turbidez. É classificada como Classe II pela Resolução Conama nº 357/05, que dispõe sobre os diferentes usos dos corpos d'água, o que permite desenvolver atividades recreativas de contato secundário (como a navegação, por exemplo) e a pesca amadora.

As principais fontes de contaminação da Lagoa Rodrigo de Freitas são o despejo de esgoto na rede pluvial, vazamentos, despejos ou acidentes em postos de combustível, poluição atmosférica e tubulações de chumbo. Assim, além da poluição por esgoto de várias fontes, há a contaminação da Lagoa por hidrocarbonetos aromáticos polinucleares e por alguns metais pesados.

A camada de sedimento da LRF é espessa e irregular: há uma fina camada de lodo, mais superficial e de coloração cinza-escura, originada das algas que proliferam e da matéria orgânica oriunda do esgoto. Fatores ambientais como frentes frias, ventos fortes e chuvas também causam impacto na Lagoa porque promovem a ressuspensão do lodo. A matéria orgânica, ao ser degradada, consome oxigênio e forma gás sulfídrico, que gera forte odor, que, juntamente com a desoxigenação das águas superficiais, pode dificultar a respiração dos peixes, levando à mortandade desses animais.

Desde 2001 vários estudos comprovam a presença de coliformes fecais e bactérias heterotróficas em áreas marginais da Lagoa; os valores reportados para coliformes termotolerantes são maiores que os padrões de qualidade (2.500 NMP/100mL), dado pela Resolução Conama nº 357/05 (Lutterbach et al, 2001; Machado, 2009). Porém Soares et al (2012), em um retrospecto do monitoramento de 10 anos ( 2000 a 2010) da qualidade ambiental das águas da LRF, avaliaram parâmetros físico-químicos e demonstraram que, de modo geral, houve melhora na qualidade dessas águas. Apesar disso, van Weerelt et al (2012) encontraram concentrações maiores de coliformes na área próxima ao Jockey Club, evidenciando que ainda há entrada irregular de esgoto nesse local. Esses resultados podem ser reflexo das melhorias realizadas pela Cedae nas elevatórias de esgoto e a diminuição do lançamento desse resíduo in natura nos afluentes da Lagoa. Ainda hoje é lançado esgoto sem tratamento, e esse corpo d'água continua sendo classificado como hipertrófico, com enriquecimento máximo de nutrientes.

Mortandade de peixes

A problemática da mortandade de peixes na LRF é reportada desde o século XVII. Já era conhecida inclusive pelos índios, que chamavam o local de Ipanema (que significa lugar fedorento, em tupi-guarani), mesmo quando não havia nenhum conhecimento de poluição ambiental. Inicialmente, a Prefeitura do Rio atribuía a causa desses eventos a resíduos lançados pela Companhia de Fiação e Tecelagem Corcovado. Os eventos se intensificaram a partir de 1960 (Soares et al, 2012). Esse evento é sempre noticiado pelos meios de comunicação, pois se repete com frequência a cada ano e grande quantidade de peixes é morta e até hoje continua sem solução (Figura 9).


Figura 9: Evento de mortandade de peixes ocorrido em março de 2013 e a Lagoa Rodrigo de Freitas coberta de peixes mortos. Fonte: A - http://oglobo.globo.com/rio/mortandade-de-peixes-na-lagoa-rodrigo-de-freitas-chega-65-toneladas-7837117. Acesso em 19 nov. 2013; B - http://noticias.terra.com.br/ciencia/sustentabilidade/comlurb-conclui-remocao-de-72-t-de-peixes-na-lagoa-rodrigo-de-freitas,4f2b4e565147d310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html. Acesso em 19 nov. 2013.

Duas características relacionadas à mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas são intrigantes: a rapidez com que ocorre o evento e a ausência de medidas para prevenção. Segundo Torres (1990), a mortandade está relacionada à diminuição do oxigênio nas águas, causada pela decomposição bacteriana da matéria orgânica. A Figura 10 compara a demanda bioquímica de oxigênio (DBO) com os eventos de mortandade e as intervenções ocorridas. Pode-se perceber que, logo após as dragagens, há aumento do DBO (2002, 2008). Essas dragagens ressuspendem o sedimento, disponibilizando elementos imobilizados no sedimento anóxico na forma de sulfetos (Loureiro et al, 2008).


Figura 10: Quadro comparativo da quantidade de peixes mortos (toneladas) com a demanda bioquímica de oxigênio (DBO – mg/L) nos eventos de mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas de 2000 a 2010. Fonte: Soares et al (2012).

Domingos et al. (2012) reportaram o evento de mortandade associado a florações fitoplanctônicas. O jornal O Globo, em reportagem divulgada em maio de 2009, após evento de mortandade, demonstrou que não há correlação entre os indicadores de poluição (descritos como teor de coliformes fecais) e os eventos de mortandade (Figura 11). Dessa forma, o lançamento do esgoto sem tratamento não é o único fator desencadeador da morte dos peixes na Lagoa.

Três fatores são apontados como os causadores da constante mortandade de peixes na LRF. O primeiro tem relação com a baixa renovação das águas, que não permite a mistura das camadas de água, ocorrendo estratificação junto ao fundo. Essa camada mais profunda é anaeróbica, pois nela bactérias realizam o processo de decomposição da matéria orgânica acumulada, produzindo gás sulfídrico (H2S) e metano (CH4). Esses gases geram forte odor desagradável, refletem-se na qualidade da água e podem ocasionar a morte dos peixes. O segundo fator tem relação com o enriquecimento das águas com nutrientes, que são utilizados pelo fitoplâncton na fotossíntese, produzindo oxigênio como produto final. Porém, durante a noite, a fotossíntese não é realizada e durante a respiração dessas microalgas há consumo do oxigênio, reduzindo a disponibilidade desse gás para os peixes, resultando na mortandade. Em terceiro, as microalgas, principalmente as cianobactérias, quando em grande quantidade, podem produzir compostos tóxicos letais para os demais organismos.

A principal teoria aceita como causa dessas mortandades é proposta por Andrade (1973) e tem relação com a morte dos peixes por asfixia: a ação dos ventos na remobilização do sedimento rico em matéria orgânica (proveniente do esgoto e das algas), que é decomposta pelas bactérias sulfatorredutoras, consumindo oxigênio e produzindo gás sulfídrico.


Figura 11: Relação dos eventos de mortandade de peixe e os teores de coliformes fecais na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Fonte: O Globo, 24 de maio de 2009

Soluções "verdes" para evitar a mortandade de peixes

Macrófitas aquáticas poderiam exercer papel no controle da floração das microalgas, pois elas retiram os nutrientes dissolvidos na coluna d'água. Porém é comum a retirada dessas macroalgas pela Comlurb, principalmente por motivos estéticos, sem que haja percepção sobre o papel ecológico dessas plantas (Domingos et al, 2012).

De acordo com Dias (2011), a tecnologia wetlands para tratamento de esgoto consiste em alternativa sustentável aos tratamentos convencionais e é utilizada pela concessionária Águas de Juturnaíba, empresa que atua na distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto em Araruama, Saquarema e Silva Jardim, na Região dos Lagos. Existe uma unidade localizada no município de Araruama que é a maior da América Latina operando no sistema wetlands; é a Estação de Tratamento de Esgoto Ponte dos Leites (ver vídeo institucional em http://www.youtube.com/watch?v=GrjukwSxj1o.).

As wetlands (termo que pode ser traduzido como áreas alagadas), na natureza, correspondem a pântanos, brejos e manguezais. Versões construídas pelo homem podem imitar esse cenário. Plantas aquáticas são usadas no tratamento de águas residuais (Figura 12) e extraem nutrientes (fosfatos e nitrogênio) pelas raízes filtrando os agentes poluidores. Além disso, esse ambiente permite a proliferação de microrganismos que agem no tratamento dessas águas e servem de alimento para outras espécies, colaborando para a formação de um ecossistema integrado.


Figura 12: Plantas aquáticas. Fonte: Respostassustentaveis.com.br/.

Ainda de acordo com Dias (2011), as wetlands além de prover seu autossustento, tratam de maneira eficaz os efluentes e não geram resíduos químicos, ou seja, as águas tratadas são devolvidas à natureza sem causar prejuízo aos ecossistemas terrestres e aquáticos, o que favorece a conservação da biodiversidade. Essas mesmas plantas utilizadas no sistema podem ainda ser reutilizadas, servindo de adubo orgânico para plantações, minhocários, alimentos para peixes e como matéria-prima na produção de artesanato.

Segundo Andreata (2012), o reflorestamento dos manguezais da LRF é interessante porque servirá de habitat para os peixes, porém, o teor de matéria orgânica nesse sistema irá aumentar e poderá trazer consequências ao corpo d'água.

A Lagoa Rodrigo de Freitas será um dos locais utilizados para os esportes aquáticos durante as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro (Figura 13), gerando reclamações e preocupações principalmente dos atletas, que têm observado os eventos de mortandade de peixes. Dentre os prejuízos causados pela diminuição da qualidade das águas estão a pesca, a prática de esportes e a navegação nos corpos d'água poluídos.


Figura 13: Notícia veiculada pelo jornal Folha de S. Paulo, no dia 15 de março de 2013.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/1246764-mau-cheiro-atrapalha-atletas-em-competicao-na-lagoa-rodrigo-de-freitas.shtml. Acesso em 20 nov. 2013.

Conclusão

As Lagoas Rodrigo de Freitas e Araruama são importantes corpos d'água costeiros que vêm sofrendo intensos impactos antrópicos, como o lançamento de efluentes (domésticos e industriais) e intervenções urbanísticas (como estreitamento de canais de ligação com o mar) e a diminuição de sua área original. Ambas as lagoas recebem esgoto, o que aumenta a concentração de nutrientes (eutrofização) nas águas. A eutrofização desencadeia diferentes processos biológicos nessas duas lagoas: mortandade de peixes (Lagoa Rodrigo de Freitas) e afloração de algas, acompanhada ou não de mortandade de peixes (Araruama).

A Lagoa Rodrigo de Freitas tem eventos recorrentes de mortandade de peixes, cuja causa está na remobilização do sedimento pelo vento, o que libera gás sulfídrico para a água, tóxico para os peixes. Além disso, outros fatores, como a diminuição da salinidade e a afloração de algas, também podem atuar nessa lagoa.

Na Lagoa de Araruama ocorrem constantes aflorações de algas, intensificadas pela eutrofização das águas pelo lançamento do esgoto sem tratamento. Embora diferentes, esses processos são consequência das intensas alterações antrópicas realizadas nesses corpos d'água.

Os impactos não só influenciam a qualidade ambiental das lagoas costeiras como também reduzem os possíveis usos desses corpos d'água para o desenvolvimento de atividades pesqueiras, de esportes e navegação. Sabendo-se que a qualidade de vida dos seres humanos está atrelada à degradação ambiental, é necessário tomar medidas para diminuir ou mitigar as fontes poluidoras que influenciam a ocorrência desses problemas em ambas as lagoas.

Referências

Andrade, H. A. S. (1973). Conclusões químicas sobre as razões da ocorrência de mortandades súbitas na Lagoa Rodrigo de Freitas com base no balanço de materiais.  Tese (doutorado) Departamento de Química, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 91 f.

Andreata, J. V. (2012). Ictiofauna da Lagoa Rodrigo de Freitas, Estado do Rio de Janeiro: composição e aspectos ecológicos. Oecologia Australis, v. 16(3), p. 467-500.

Araújo, Paulo Roberto (2013). Vinte anos após problemas ambientais, Lagoa de Araruama reage, e peixes estão de volta. O Globo, 26 de janeiro de 2013. Disponível em http://oglobo.globo.com/rio/vinte-anos-apos-problemas-ambientais-lagoa-de-araruama-reage-peixes-estao-de-volta-7406860. Acesso em 20 nov. 2013.

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Publicado em 14 de janeiro de 2014.

Publicado em 14 de janeiro de 2014