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Educação, muito além do ABCD

Wiler Passos

Quando estou dirigindo, sempre dou preferência para as rádios de notícia; é um habito antigo que gosto de conservar. Mas outro dia fui pego de surpresa, na Rádio CBN, por uma entrevista do economista Gustavo Ioschpe. Para ele, o problema da educação não é dinheiro e sim qualidade; segundo Ioschpe, o Brasil já está passando da hora de mudar o foco dessa conversa e ter um olhar mais crítico sobre três pilares: a formação do professor, as indicações dos gestores escolares e o aproveitamento do tempo em sala de aula.

Para falar a verdade, acho que ele não está de todo errado, pois só analisando por essa perspectiva podemos entender o fato de o Brasil investir na educação bem mais que a maioria de nossos vizinhos latino-americanos e ter desempenho medíocre no Pisa, quando comparado com Chile, Peru, México etc.

Mas o assunto é complexo; numa rápida conversa com professores e dirigentes da rede pública de ensino vemos que as reclamações são as mesmas, talvez não na mesma proporção, mas o tema é recorrente, ou seja, a educação familiar dada a nossas crianças é cada dia pior, o que interfere, e muito, na produtividade em classe de aula.

Uma boa dica para solucionar este tipo de problema pode vir do outro lado do planeta. No Japão, os primeiros anos nas escolas têm como prioridade a formação do cidadão, ou seja, respeito, gentileza etc. A receita é simples: de que adianta o indivíduo saber ler e escrever e não saber jogar o lixo na cesta de lixo, não respeitar uma fila nem os mais velhos, falar palavrão, comunicar-se aos gritos e não respeitar a opinião e a fala do próximo etc.? Isso é o básico do básico para o aluno ser centrado e disciplinado numa sala de aula. No Japão, a criança primeiro aprende a se comportar em sala de aula para depois aprender o 1, 2, 3.

Outra boa dica pode vir dos Estados Unidos. Em seu livro How children succeed (Uma questão de caráter, Intrínseca, 2014), o jornalista Paul Tough demonstra, pelo cruzamento de pesquisas e experiências diversas nas escolas norte-americanas, mais especificamente nas da cidade de Nova York, que a boa educação tem relação direta com a capacidade individual em ter sucesso na busca de seus objetivos; para isso ocorrer, as escolas públicas precisam ir além do ABCD e introduzir no processo educacional métodos que ajudem as crianças a fortalecer seu caráter. Esses métodos visam estimular o aluno a desenvolver a disciplina, autocontrole, determinação, gratidão, entusiasmo, otimismo e curiosidade. Nos Estados Unidos, esse assunto é levado a sério, e inúmeras escolas de ensino médio já adotam dois boletins: um para avaliar o aproveitamento das disciplinas regulares e outro para avaliar a evolução do caráter dos alunos.

Como mencionamos, o tema educação é complexo, precisamos melhorar a qualidade e a eficiência de nossos professores e dirigentes, mas precisamos ir além e abrir novos horizontes para as atribuições da educação na sociedade contemporânea. Nesse contexto, nossas crianças precisam ser capacitadas a desenvolver atitudes proativas na superação das adversidades cotidianas e passar a atuar como protagonistas de uma sociedade mais justa, eficiente, sustentável e competitiva, independente do contexto familiar. Pois filhos de pais separados e exclusão social existem aqui e lá fora. A diferença é que nos países desenvolvidos, como Japão e Estados Unidos, eles já descobriram o “caminho das Índias”, ou seja, que a educação precisa ir além do ABCD.

Publicado em 17 de junho de 2014.

Publicado em 17 de junho de 2014