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A criatividade dos preguiçosos

Mariana Cruz

A preguiça, talvez o mais light dos sete pecados capitais, não parece ser um estado de todo ruim. Ironicamente, muitos trabalhos são feitos com vista a ampliar os momentos de repouso, sedentarismo e inatividade do ser humano. Não precisa ser um bom observador para perceber que parte considerável das invenções do mundo tem como objetivo diminuir nosso esforço físico e mental. Muitas dessas criações já estão tão entranhadas em nosso cotidiano que parecem que sempre estiveram em nossas vidas.

Um dos exemplos clássicos é o controle remoto. Lembro da minha tenra infância, quando tinha de levantar toda vez que queria mudar de canal; não bastasse isso, tinha que usar força para empurrar os benditos botões ou rodar o seletor, duríssimos. A sorte é que a oferta de canais era escassa, bem diferente da centena de opções da atualidade depois da popularização das emissoras a cabo. Hoje em dia, se tivéssemos que levantar a cada hora que mudamos de canal, o ato de assistir televisão poderia ser considerado uma atividade aeróbica. Diversos são os objetos feitos para nos mexermos o mínimo possível; só para citar alguns: bandeja com pés (para comer na cama sem tirar os olhos da televisão); cadeira com rodinhas; batedeira elétrica (lembro-me de criança vendo minha mãe batendo clara em neve com o garfo) etc. A lista vai muito além dos utensílios domésticos: podemos incluir escada rolante; elevador; carro quatro portas. Sobre este último item falo por experiência própria: lembro-me de que até bem pouco tempo – há dez, quinze anos – carros com duas portas eram bem comuns. Agora é uma exceção da qual eu faço parte. Não é à toa que mais de um amiguinho da minha filha se atrapalhou para chegar ao banco traseiro do meu carro: "ué, como eu entro?".

Indo para o mundo do trabalho, há o telefone sem fio, a cadeira de rodinhas, que, se de um lado serviu para agilizar a vida nos escritórios, de outro fez com que o trabalhador ficasse o dia inteiro sem se levantar. Tais invenções, junto com os alimentos industrializados e o estresse, provavelmente contribuíram para o ganho de peso e o sedentarismo que hoje acometem muitas pessoas que vivem nos centros urbanos.

 Nem todos os adventos pró-sedentarismo são produzidos por empresas e elaborados por especialistas; há certas funções, principalmente nos aparelhos eletrônicos, que os adolescentes, com sua criatividade aflorada, acabam descobrindo ou inventando. Os celulares que, por si sós já têm múltiplas funções, são um bom exemplo disso. Meus alunos, por exemplo, conseguem agregar outras tantas serventia a eles. Nos dias de hoje, quando a maioria dos estudantes passa boa parte do dia – e, muitas vezes, da noite também – teclando, escrever se tornou um suplício. Copiar matéria do quadro, pior ainda. Então porque não simplificar? Eles simplesmente fotografam o que está escrito.

 O objetivo foi alcançado: eles têm a matéria em dia. Mas não exercitam a escrita. Penso que é importante eles copiarem, verem como certas palavras são escritas, fazerem o desenho das letras. Para tanto, me vi obrigada a, de tempos em tempos, dar visto nos cadernos – coisa que sempre achei desnecessária para quem está no Ensino Médio. Com essas novas tecnologias, novos cenários aparecem. Assim, as fotos dos celulares estão muito além dos selfies tirados dentro de sala no intervalo entre as aulas; agora viraram um poderoso recurso para copiar matérias, bem como enviá-las para os amigos ausentes.

Aliás, tal método serviu de inspiração para os professores. Quando vemos no mural algum comunicado importante, nada de pegar um bloquinho e copiar. Basta tirar uma foto. Outro dia precisei de uma listagem dos alunos que ganharam ponto extra e a copiadora da escola não estava funcionando. Vi diversos professores tirando fotos da bendita lista e dizendo entre risos que aprenderam a fazer isso com os alunos. Pena que eu, com meu celular antigo (além do carro duas portas, meu celular não é um smartphone), tive que escrever um a um os nomes da lista; foram quase dez minutos copiando, contra os dois segundos dos que tiraram as fotos.

Refletindo sobre esse fato, penso que, independente de ser questão de preguiça ou não, talvez eu esteja precisando de um celular novo.

Publicado em 01 de julho de 2014.

Publicado em 01 de julho de 2014