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Concepção de infância: o que mudou?

Silvio Profirio da Silva

Auxiliar de Desenvolvimento Infantil na Secretaria de Educação, Esportes e Lazer da Prefeitura da Cidade do Recife

O objeto de reflexão deste artigo são as modificações ocorridas na concepção de infância. Fazemos aqui um apanhado das principais concepções teóricas do que vem a ser infância, recorrendo para isso aos pressupostos teóricos trazidos por Dahlberg et al. (2003) e Kramer (2003). Objetivamos, desse modo, contrapor duas posturas antagônicas de conceituações sobre a infância. Uma, tradicionalista, concebia a criança como um ser homogêneo e passivo, que simplesmente reproduzia práticas presentes na sua realidade circundante. Outra, contemporânea, concebe a criança como um sujeito heterogêneo e ativo/atuante, ou melhor, como um ator e construtor social, como postulam os autores citados.

Nos dias de hoje, a temática da concepção de infância é objeto de debate de uma gama de pesquisadores provenientes de distintos campos de investigação. Pesquisadores advindos da Pedagogia, da Psicologia e da Sociologia aderem a essa temática adotando diversos enfoques e perspectivas, como: a) uma perspectiva histórica das concepções de infância e seus efeitos no tratamento dado à criança ao longo dos anos; b) uma perspectiva documental, mais especificamente a concepção de infância e seus reflexos nos documentos oficiais e propostas curriculares; c) uma perspectiva educacional, mais precisamente a concepção de infância e seus reflexos nas práticas pedagógicas, isto é, a forma como os profissionais da educação concebem a infância e como tal noção influi no seu fazer pedagógico. Há, portanto, vasta linha temática que predomina nos trabalhos acadêmicos acerca da infância.

Os aportes teóricos trazidos por Dahlberg et al. (2003) mostram inicialmente uma concepção de infância ancorada na centralidade, por intermédio da qual a criança é vista como um ser unificado, estando dissociada do campo social. Dito de outro modo: os elos e os vínculos traçados entre a criança e o campo social não influem na sua constituição como sujeito. É desconsiderada, dessa maneira, a forma como os aspectos socioculturais influenciam o desenvolvimento da criança.

Kramer (2003), em seus postulados, faz uma bem-sucedida abordagem das noções de infância surgidas ao longo dos anos. Abordaremos aqui duas delas: a concepção de infância homogênea e/ou a-histórica e a concepção de infância heterogênea e/ou histórica. Neste primeiro momento, colocamos em pauta a concepção de infância ancorada na homogeneidade, isto é, a-histórica. Essa concepção está em consonância com a noção de infância pautada na centralidade trazida por Dahlberg et al. (2003). Mesmo que tenham nomenclaturas distintas, ambas postulam a igualdade como aspecto que marca todas as crianças. O que erradica, nesse sentido, as distinções e as singularidades entre elas.

Ampliando a discussão acerca da noção de infância, Dahlberg et al. (2003) trazem a concepção de criança como reprodutor de conhecimento, identidade e cultura. Tal concepção parte do pressuposto de que a criança consiste em um ser desprovido de conteúdos, ou seja, “uma tábula rasa”, como salientam os autores. Nesse viés, a criança simplesmente irá receber e, em especial, reproduzir conteúdos, conhecimentos e valores culturais advindos das práticas sociais. A criança, nessa perspectiva, é um ser passivo que vai receber e reproduzir mecanicamente os padrões culturais estabelecidos pela sociedade.

As concepções postas até aqui são de caráter tradicional e/ou tradicionalista, na medida em que preconizam uma concepção de infância monolítica e universal, não atentando para as implicações dos fatores sociais e culturais para o desenvolvimento da criança (em seus múltiplos e diversificados aspectos). A perspectiva tradicional reflete-se ainda no fato de tais concepções defenderem a recepção e reprodução daquilo que é ditado pela sociedade.

Nos anos 1980, as discussões acadêmicas atinentes à infância foram colocadas em pauta por diversos campos de investigação, proliferando-se de maneira considerável. Consoante Dahlberg et al. (2003), essa disseminação de postulados acerca da infância advém de distintos campos de estudos – Filosofia, Pedagogia, Psicologia (destacando-se a Psicologia do Desenvolvimento) e Sociologia (com destaque para a Sociologia da Infância). Esses campos de investigação ensejam a produção de novos paradigmas, dentre os quais destacamos aqui uma nova concepção de infância.

Os referenciais teóricos trazidos por Dahlberg et al. (2003) mostram também uma concepção de infância pautada na descentralização. Isso significa dizer que a constituição da criança como sujeito está diretamente atrelada ao âmbito sociocultural. A infância é, diante dessa perspectiva, um construto social. No dizer dos autores,

a infância, como construção social, é sempre contextualizada em relação ao tempo, ao local e à cultura, variando segundo a classe, o gênero e outras condições socioeconômicas. Por isso, não há uma infância natural nem universal, nem uma criança natural ou universal, mas muitas infâncias e crianças (DAHLBERG et al., 2003, p. 71).

Essa concepção descentralizada vai ao encontro da segunda noção de infância, postulada por Kramer (2003). Referimo-nos, nesse ponto, à concepção de infância heterogênea e/ou histórica. A constituição da criança como sujeito, nesse viés, está intrinsecamente ligada aos múltiplos e diversificados contextos sociais, rompendo desse modo com a visão monolítica de infância e de criança.

Aprofundando mais uma vez o debate acerca da noção de infância, Dahlberg et al. (2003) trazem à tona a concepção de criança como co-construtor de conhecimento, identidade e cultura. A criança é, aqui, tida como um ator social que age e participa ativamente da construção social do seu conhecimento. Ela, nesse viés, dá sentido e elabora significados para suas experiências socioculturais, em vez de simplesmente reproduzir as práticas já estabelecidas. Nessa perspectiva, a infância consiste em um construto social marcado pela singularidade e pelos elos/vínculos traçados entre a criança e o seu campo social.

Estas últimas concepções de infância e de criança aqui postas refletem uma perspectiva contemporânea, na medida em que partem do pressuposto de que a criança é ser singular/único, autônomo e ativo. Essa guinada na concepção de infância é algo resultante dos postulados de diversas ciências (leiam-se Filosofia, Pedagogia, Psicologia e Sociologia). Os paradigmas produzidos por esses campos de estudos são complementares, visto que corroboram para a efetivação da atual concepção de infância como construção social – momento marcado pela singularidade – e da atual concepção de criança como ator social, como propõem Dahlberg et al. (2003).

Referências

DAHLBERG, G.; MOSS, P.; PENCE, A. Construindo a primeira infância: o que achamos que isso seja? In:DAHLBERG, G.; MOSS, P.; PENCE, A. Qualidade na educação da primeira infância: perspectivas pós-modernas. Trad. Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2003.

KRAMER, S. Infância e sociedade: o conceito de infância. In: KRAMER, S. A política do pré-escolar escolar no Brasil: a arte do disfarce. São Paulo: Cortez, 2003.

Publicado em 01 de julho de 2014.

Publicado em 01 de julho de 2014