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Lembranças de viagem

Alexandre Rodrigues Alves

Estive no Chile há pouco tempo. E, como é inevitável, fiz observações que me levaram a compará-lo com a situação atual do Brasil em vários aspectos, do comportamental ao econômico, do ambiental ao educacional.

A primeira coisa que me impressionou foi, na chegada a Santiago, o formulário que os viajantes tinham que preencher (independente da nacionalidade) quanto aos produtos que estavam trazendo na bagagem. Produtos alimentícios de origem animal ou vegetal, sementes, substâncias usadas na agricultura, na pecuária e na saúde deveriam ser declaradas. Dias depois, Gerardo, um professor chileno amigo meu, explicou: a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, juntos, fazem com que o Chile torne-se uma região isolada, com muito pouco intercâmbio ambiental. Com isso, uma semente que traga uma bactéria, um vírus, um verme pode disseminá-lo rapidamente sem que haja defesa para os organismos locais. Por isso a barreira na alfândega é tão rígida.

A barreira chilena natural trouxe também uma coisa boa: a permanência das vinhas de uvas carmenère, de origem francesa; na Europa, as vinhas dessa uva foram atacadas por uma praga que as dizimou em todo o continente. Os chilenos acharam que havia acontecido o mesmo com suas videiras, pois a produção caíra drasticamente. Entretanto, tempos depois, um enólogo francês foi ao país e descobriu que um vinho classificado como cabernet na verdade tinha o tipo de uva considerado desaparecido. E os vinhos carmenère voltaram a existir, com esse nome, em função da visita do francês e da barreira natural formada no ambiente do país que se denomina “sul do mundo”.

Outro problema que os santiaguinos enfrentam em função dessa barreira é a poluição aérea, pois não há circulação do ar na cidade, em função dos Andes, de um lado, e da Cordilheira da Costa, que a separa do Pacífico, de outro.

A questão da educação escolar chilena está para ser resolvida desde o fim da ditadura de Pinochet, há mais de 20 anos, mas os interesses de grupos econômicos impedem a transformação da lei que está em vigor. Por ela, todas as escolas de nível básico (fundamental e médio) recebem subvenções governamentais – sejam elas particulares ou públicas. Isso significa que os recursos chilenos para a educação (que não são muitos) têm que ser distribuídos por mais “participantes”, e não apenas pelas escolas públicas, como era de se esperar. Com isso, as escolas públicas têm menos condições de oferecer educação de qualidade para seus alunos – todos oriundos das classes de menor renda. O ensino superior é mais complicado ainda para a população, pois não há ensino gratuito, nem mesmo nas universidades públicas.

Uma solução que encontrei lá, e que mistura educação e ecologia, é a colocação de grandes caixas de arame para depósito de garrafas PET pelas pessoas que transitam pelas calçadas. A cada dois quarteirões das ruas movimentadas há uma delas – uns cubos de uns dois metros de lado, abertos em cima. Dá até pra brincar de basquete... Não vi nenhum caminhão recolhendo-as, mas nenhuma delas estava com garrafas em excesso. Nos supermercados essa caixa é substituída, claro, por um carrinho de compras, na entrada da loja. Acho que é uma ideia ótima para aplicar em nossas escolas.

Estava no Cerro San Cristóbal, ponto turístico de Santiago, quando chegou um grupo de uns 50 estudantes, todos uniformizados. Pela diferença de tamanho, de uniforme, de atitude, dava para perceber que eram de séries e turmas diferentes. Entretanto, vinham conversando e discutindo em grupos heterogêneos, sem se agrupar por turma, como seria esperado. E vi algumas vezes uns mais velhos explicarem coisas sobre a cidade, a cordilheira, a poluição, apontarem prédios e ruas, cumprindo aquilo que Vigotsky chamava de desenvolvimento proximal.

As cidades chilenas são menores do que as metrópoles brasileiras, é certo, mas algumas coisas poderíamos aprender com eles, especialmente em termos de trânsito. Primeiramente, não há a poluição sonora daqui; parece que os motoristas de lá são mais pacientes (ou têm ouvidos mais sensíveis).

Outra situação que me surpreendeu foi em relação ao pedestre: ele tem sempre prioridade na travessia (se não há sinal para pedestres na esquina, claro). Várias vezes, em ruas de diferentes calibres, era só botar o pé no meio-fio que o carro que vinha chegando parava. Quando eu hesitava, os motoristas sinalizavam para que eu atravessasse. E nunca ouvi uma buzinada de outro motorista que, atrás, tivesse pressa ou discordasse da atitude do outro.

Pois é, uma viagem traz lembranças dos pontos que visitamos e dos amigos que encontramos, mas também lições que podem ser seguidas.

Publicado em 01 de julho de 2014.

Publicado em 01 de julho de 2014