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A importância das brincadeiras para crianças... E adultos 

Mariana Cruz

Há pouco tempo fui a uma festa infantil em um sítio. A mãe da aniversariante se empenhou na elaboração do evento. Nada de megadecoração, animadores, brindes caros: foi uma produção feita "com as próprias mãos". Era uma gincana. As crianças vestiam roupas simples, "para sujar", conforme vinha recomendado no convite.

Exceto pelos celulares de última geração dos pais atentos que filmavam as brincadeiras, parecia tratar-se de uma típica festa dos anos 80. Teve corrida de saco, de ovo na colher, cabo de guerra, corda, campeonato de totó, jogo de perguntas e respostas (hoje mais conhecido como quiz) e, depois da pausa para o almoço, a esperada caça ao tesouro.

O curioso é que, durante todo o tempo em que durou o evento, das 10h às 16h, nenhuma criança quis sair da brincadeira para ir jogar no tablet ou no celular dos pais. Riam, chateavam-se e comemoravam de acordo com o resultado obtido em cada etapa da gincana. Nem a pausa para o almoço foi capaz de relembrá-los da existência dos joguinhos eletrônicos.

Isso apenas reforçou minha suspeita de que, de forma geral, independente dos games cada vez mais sofisticados, as crianças gostam mesmo é de brincar com seus pares, pé no chão, correr, torcer e pular. Não há joguinho de computador que supere. A empolgação de minha filha com a gincana estendeu-se durante a semana, a ponto de ela até me pedir para matriculá-la em uma "aula de corrida de saco". Expliquei que tal "esporte" não era oferecido nas academias – mas até que não seria má ideia criar uma aula com tais brincadeiras, já muitas delas estão sendo esquecidas de geração para geração.

Professores novatos desconhecem as brincadeiras

Tenho o hábito de ir com minha filha à pracinha perto de casa e, vez ou outra, levamos giz para fazer uma amarelinha no chão de terra. Noto que, mesmo entre as crianças que são habitués da praça, muitas não sabem jogar nem mesmo desenhar uma amarelinha; além disso, não sabem pular corda nem elástico. Provavelmente desconhecem uma série de brincadeiras de rua. Tal observação foi ao encontro do que a coordenadora pedagógica Leninha Ruiz colocou no recente post As novas gerações de professores e as brincadeiras tradicionais. Ela afirma que, nos últimos anos, "as brincadeiras tradicionais (como corre cotia, elefantinho colorido, queimada, pula-elástico e até pular corda) não fizeram parte da infância dos professores mais novos". Vemos assim que "o buraco é mais embaixo", já que as crianças não têm mais contato com essas brincadeiras de rua – pois é cada vez mais raro ver crianças utilizando os espaços públicos para brincar – nem na escola, local que, num passado recente, ainda buscava preencher tal lacuna. Atualmente, ao que parece, isso não vem mais ocorrendo, devido ao fato de os professores mais jovens simplesmente desconhecem as brincadeiras.

Os benefícios das brincadeiras

Aparentemente algo sem uma utilidade definida, a brincadeira, na concepção das crianças, é um fim em si mesma. Os benefícios decorrentes dela, porém, são inúmeros: auxiliam no desenvolvimento motor e cognitivo do indivíduo, no aprendizado de estratégias, de regras, no senso de cooperação e na afetividade. As crianças brincam para passar o tempo, dar vazão à intensa vontade que têm de se movimentar, transformar, criar e, mais do que tudo, de serem felizes.

Muitas brincadeiras que conhecemos hoje em dia têm origem nas celebrações de rituais da Antiguidade, e até o século XVIII tanto adultos como crianças praticavam. Depois disso é que se tornaram quase majoritariamente restritas ao universo infantil. Muitas dessas brincadeiras são transmitidas ainda hoje oralmente; talvez por isso estejam ficando cada vez mais raras de se ver. Os adultos de hoje  não brincam, não participam, não lembram e, portanto, são incapazes de transmitir esse conhecimento às crianças.
Muitos estudos defendem que aqueles que tiveram uma infância cheia de brincadeiras têm grandes chances de se tornarem adultos felizes e capazes de agir positivamente no mundo.

Para dar uma refrescada na memória, veja aqui 100 brincadeiras para ensinar/aprender brincando. Agora não tem desculpa.

Site pesquisado

Aliança pela infância

Publicado em 15 de julho de 2014.

Publicado em 15 de julho de 2014