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Em busca do tempo perdido – em sala de aula

Mariana Cruz

Se fôssemos contar o tempo que nós, professores, gastamos em sala de aula com atividades que nada têm a ver com a matéria provavelmente ficaríamos chocados com o desperdício.

Imagine se somarmos os minutos em que solicitamos aos alunos para saírem do corredor e entrarem em sala, para desligarem o celular, o ipod – ou seja lá qual aparelho eletrônico tenham em mãos –,  pararem com a conversa paralela em voz alta sobre um assunto que nada ter a ver com o que está sendo dado!

Engana-se quem pensa que tal conduta ocorre apenas em escolas menos severas ou em países subdesenvolvidos. Mesmo em países considerados exemplares em matéria de educação os professores despendem preciosos minutos de aula tentando controlar a turma – a diferença é que o tempo consumido é muito menor do que o gasto no Brasil. É o que mostra Karina Yamamoto, na matéria da Uol da qual retiro um trecho:

Os professores brasileiros gastam, em média, 20% do tempo de aula mantendo a disciplina na classe, segundo levantamento internacional. (...) O desempenho brasileiro é o pior entre os 32 países que responderam a essa parte da pesquisa. A média entre os países é de 13%. Na Finlândia, país tido como exemplar no quesito educação, o percentual de tempo dedicado a essa atividade não chega a 13%.

Tais informações foram retiradas da Talis, uma pesquisa internacional sobre ensino e aprendizagem coordenada mundialmente pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A tentativa de organizar a sala não é a única vilã; além da demanda de tempo gasto com questões comportamentais, o professor tem que lidar com as funções burocráticas que também roubam o tempo útil de aula, como a obrigação de fazer chamada e preencher diário. Nas aulas de cinquenta minutos, sobretudo a primeira do turno ou após o recreio, a matéria tem que ser dada a toque de caixa, pois até que os alunos entrem em sala, se acomodem, respondam à chamada pode-se levar até 15 minutos para começar a aula de fato.

E se multiplicarmos esse tempo perdido pela quantidade de aula que damos em uma semana, um mês, um semestre? Quantos minutos teríamos jogado fora em um ano?

No Brasil, outros fatores colaboram para esse “tempo perdido” durante as aulas: além das salas cheias, os professores brasileiros muitas vezes são obrigados a trabalhar em diversas escolas para cumprir sua carga horária. Tal razão, que aparentemente parece não estar relacionada ao desperdício de tempo em sala de aula, indiretamente pode ser um fator complicador: o tempo de deslocamento de uma escola para outra gera estresse, ansiedade e, invariavelmente, atrasos. Além disso, o professor se vê obrigado a participar de reuniões e conselhos de classes em todas as escolas em que trabalha. Como afirma a pesquisadora Gabriela Moriconi, ainda na matéria da Uol:

“Nos países da OCDE, o professor trabalha em uma única escola, em tempo integral e leciona, em média, 19 horas. Aqui no Brasil, a jornada quase dobra se pensarmos que os docentes trabalham 26 horas em mais de uma escola e em salas maiores”.

O ideal seria o professor ter uma matrícula por escola, mas enquanto isso não é aplicado, quais seriam as formas de otimizar esse tempo desperdiçado?

Penso que a direção da escola deve, sempre que possível, colocar as disciplinas em tempos duplos, pois economiza tempo de chamada (com aulas duplas só é preciso fazer uma chamada). Além disso, os próprios docentes podem tentar reduzir tal desperdício com medidas simples, como tentar resumir os longos textos escritos na lousa (tanto professores como alunos levam muito tempo para copiar) e substituí-los por textos impressos e reservar um tempo para planejar a aula. Uma aula bem elaborada tende a ser muito mais dinâmica e proveitosa do que uma aula sem planejamento. Estas são apenas algumas das coisas que estão nas mãos dos professores.

Com a colaboração de todos – diretores, professores, alunos e, principalmente, do sistema educacional – é bem possível reduzir o tempo gasto inutilmente durante as aulas e, quem sabe, chegar a um percentual até menor que os 13% da Finlândia.

Publicado em 22 de julho de 2014.

Publicado em 22 de julho de 2014

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