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Nova Sociologia do Currículo: um ensaio do conceito

Karina Arroyo C. G. Pereira

Mestranda em Geografia Humana (UERJ), pedagoga e socióloga

A Sociologia desenvolveu-se na Inglaterra principalmente na década de 1950, quando o ensino dessa disciplina expandiu-se nas escolas secundárias e no ensino superior. Esses estudos surgiram primordialmente para dar conta de resolver de maneira prática e eficiente os problemas sociais advindos das novas reordenações classistas, dos anseios populares e das mudanças na dinâmica econômica. Visando essa efetividade, a Sociologia viu-se obrigada a se apoiar cientificamente nos métodos das ciências naturais, haja vista apenas a partir disso poderia lograr reconhecimento e ser inserida entre as ciências legitimadas e aceita como tal.

Ainda visando à caracterização de seu campo de investigação, a Sociologia buscou aporte teórico no marxismo, moveu-se do funcionalismo para o interacionismo simbólico e fenomenologia, vindo com o apoio técnico do neomarxismo para focar questões culturais. O afastamento de um funcionalismo se deve porque através dessa corrente pouco pôde avançar nas explicações e no encontro de pontos nodais que fundamentassem as grandes crises socioeconômicas após a Segunda Guerra Mundial.

No que tange a uma Sociologia voltada à Educação, que é o que nos interessa academicamente neste momento, podemos delinear nos anos 1960 seu aparecimento gradual e profundo, com interesses bem definidos e com metodologias próprias.

Em um primeiro momento, a Sociologia da Educação era uma disciplina do curso de formação de professores, que passara de três para quatro anos; esse ano adicional servia apenas para os estudos de cunho pedagógico, e era exatamente aí que a Sociologia estava inserida. Isso aumentou a demanda de professores sociólogos, para que ela pudesse ser ensinada. Além desse fato, que marcou o início da permanência da Sociologia na Educação, outro fator fez com que ela se remodelasse, o que, por sua vez, é natural das ciências que buscam incessantemente dar respostas válidas, precisas e legítimas às demandas do mundo.

Em resposta ao fracasso inicial de apontar a educação britânica como elitista, mas, em contrapartida, não conseguindo levar a cabo as reformas e iniciativas educacionais promovidas pelo governo, a Sociologia da Educação perdeu a credibilidade de teoria que fundamentava todo o corpo científico da ciência social. Essa crise temporária permitiu que novas correntes ideológicas perpassassem a Sociologia e alimentassem novas perspectivas, dentre elas estão o neomarxismo, a fenomenologia, o interacionismo simbólico e a etnometodologia.

A Nova Sociologia da Educação (NSE), iniciada por Michael Young na Inglaterra nos primeiros anos da década de 1970, constituiu-se na primeira corrente sociológica primordialmente voltada para a discussão do currículo. O grande marco de seu surgimento foi a obra Knowledge and control: new directions for the Sociology of Education, editada por Young em 1971; nela encontramos alguns artigos hoje considerados clássicos. Dentre os principais colaboradores da obra, além do editor, destacam-se: Basil Bernstein, Pierre Bourdieu, Geoffrey Esland e Nell Keddie (Moreira, 1990).

Logo, para esses primeiros sociólogos a Sociologia da Educação não deveria ser atrelada às políticas governamentais nem deveria vir calcada em problemas sociais prontos para serem resolvidos matematicamente; em vez disso, a Sociologia da Educação se utilizaria de técnicas e pressupostos que fossem focados no professor, para benefício dele e que o ajudassem a compreender e a se beneficiar da disciplina. Com isso, a Sociologia viria ajudar na melhor compreensão da Epistemologia e da construção dos pressupostos éticos da prática docente. Enquanto a tradição sociológica anterior focava na compreensão e na análise das relações macroestruturais, a NSE focava nos contextos interacionais e seus conteúdos. Portanto, o grupo, a relação social, os fenômenos cotidianos, e as particularidades do ambiente eram os fatores que delineariam o objeto de estudo, pois assim se compreenderia com pormenores a base social do conhecimento de determinado lócus, e ainda se poderia espraiar a discussão pedagógica, examinando o conteúdo transmitido, que deveria atender às demandas do grupo específico em questão. Era uma necessidade de combater a homogeneização escolar, o afastamento entre teoria e vivência do educando.

De 1967 a 1971, Young tentou elaborar, junto com outros dois professores e com seus estudantes, uma Sociologia do Currículo nos cursos do Departamento de Sociologia do Instituto de Educação da Universidade de Londres. Quando editou Knowledge and Control (1971), tomou o currículo como fonte de análise e redirecionou a Sociologia da Educação, retirando finalmente o foco da discussão da estratificação social para os conteúdos ensinados em sala de aula e sua importância, abrangência, coadunação e possibilidades de remodelação. O conhecimento dominava a discussão da Sociologia da Educação, que acabou por ter um subcampo particular de conhecimento, o currículo.

Apoiando-se nessa temática e analisando as formas de disseminação do conhecimento, os sociólogos puderam traçar várias relações causais entre a transmissão do conhecimento e seu conteúdo e as estratificações sociais; a educação seria, portanto, uma ferramenta poderosa e imprescindível de manejo social e de perpetuação do status quo.

Young sempre fazia duas perguntais essenciais, e as respostas dariam conta de justificar suas hipóteses. A primeira: que critérios têm sido usados, em uma dada sociedade, para atribuir diferentes valores a diferentes conhecimentos? A segunda: como relacionar esses critérios e a estratificação deles resultantes com as características da estratificação social?

Com isso, algumas conclusões são levantadas, e admite-se que existem relações perenes entre conhecimento e estrutura de poder, currículo, estratificação do conhecimento, funções do conhecimento e variações sociais. Tais campos são corporificados no cotidiano escolar e reproduzem a sociedade no estado atual. É necessária uma avaliação e uma ação planejada nesses pontos para que se opere uma diferença sensível na produção do conhecimento. Mesmo salientando a importância da Sociologia para compreender os mecanismos que disseminam o conhecimento em uma dada sociedade, bem como seus critérios de escolha de conteúdos, Young se preocupa sempre em salientar a importância do professor para pensar esses processos, não toma o sociólogo como sujeito pensante exclusivo em nenhum momento.

Como consequência positiva, o âmbito da Sociologia da Educação ampliou-se e acabou por desmistificar preconceitos, com seu enfoque emergente, aproximando-se da Sociologia do Conhecimento e pautando sua discussão no senso comum dos professores e retirando seus clichês pedagógicos e suas pré-concepções petrificadas, desmistificando e problematizando categorias pedagógicas como currículo, metodologia, avaliação, habilidade, inteligência e ensino.

Young faz pensar acerca do conhecimento escolar quando afirma que ele é socialmente construído, e a função de educar é pautada por escolhas pedagógicas, em que são selecionados e organizados os conhecimentos disponíveis em um determinado momento, sendo essas escolhas feitas consciente ou inconscientemente. Nesse sentido, inconsciente é que culmina no reflexo da distribuição de poder mais ampla, que rege e que é internalizada por nossa vida social, que legitima nossa maneira de ser, pensar e sentir, o habitus que nos impulsiona, poda e orienta. Por fim, pode-se ainda concluir que o currículo é um instrumento social de representação identitária, um instrumento eficiente que mantém a tradição, a autoridade e o reconhecimento de determinados signos. Essas reflexões puderam ser mais desenvolvidas graças ao impulso da NSE. Cabe ao professor articular o currículo com a cultura de origem das crianças, sendo referência para a prática curricular, portanto, um currículo não-hierárquico e colaborativo, criticando os aspectos marginalizantes e excludentes. Assim, não se trata apenas de ampliar a oferta educativa; é preciso observar que tipo de educação será ofertada, considerando sempre os aspectos culturais envolvidos. Não se pode educar sem inserir culturalmente um grupo; educar é ensinar a pensar com criticidade e autonomia, respeitando-se sobretudo a perspectiva cultural que embasará toda a reflexão crítica.

Publicado em 21 de janeiro de 2014.

Publicado em 21 de janeiro de 2014