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Bullying na escola: o que fazer?!

Tereza Cristina Borba Cornélio da Silva

Psicóloga e especialista em Psicopedagogia Institucional

Jeanne de Fátima Cunha de Oliveira

Psicóloga e especialista em Psicopedagogia Institucional

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Biólogo, especialista em Supervisão Escolar e mestrando (Prodema-UFPB)

Introdução

A sociedade contemporânea enfrenta um agravamento na violência, que passou a ser considerada não apenas um distúrbio comportamental, e sim, um problema de saúde pública, que vem crescendo e trazendo graves consequências individuais e sociais (CÓRDULA, 2013). Nas escolas e em diversos âmbitos sociais, têm-se intensificado várias formas de preconceito e violência contra a vida humana, levando pessoas a julgar outras com base em fatores sociais, econômicos, linguísticos, etários, de orientação sexual, de aparência física, de etnia etc. (ANTUNES; ZUIN, 2008). É fato que a violência escolar vem tomando proporções assustadoras em nossa sociedade; o que antes acontecia esporadicamente hoje se tornou uma constante no meio escolar (ABRAMOVAY; RUA, 2002; CÓRDULA, 2013).

O termo bullying tem origem na língua inglesa; é definido, conforme Fante e Pedra (2008), como atitudes agressivas, repetitivas, intencionais e deliberadas, com o intuito de intimidar e causar sofrimento a um indivíduo ou grupo que se sinta incapaz de se defender. Na escola, acarreta danos, frequentemente irreversíveis, na vida global dos envolvidos, de modo a destruir-lhes a saúde psicológica e física, merecendo intervenção direta da direção e da família (CHALITA, 2007).

Para Fante (2005), apesar de o bullying ser um fenômeno antigo e os professores possuírem consciência de sua ocorrência nas escolas, até a década de 1970 não existiam estudos ordenados que abordassem o tema. Foi a partir desse período, principalmente na Suécia, que a sociedade apresentou maior empenho sobre as consequências do bullying escolar.

O problema no âmbito escolar

Na escola privada ou pública, o fenômeno bullying apresenta-se mascarado na forma de “brincadeiras”, porém não o são, por ultrapassar os limites e graus de tolerância de cada indivíduo, trazendo sérias consequências ao desenvolvimento do vitimado. Para Costantini (2004), esses atos hostis e degradantes significam uma ação de transgressão individual ou da coletividade, que é exercida de maneira continuada, por parte de um indivíduo ou de um grupo de jovens definidos como intimidadores nos confrontos e com uma vítima predestinada.

Fante (2005, p. 24) afirma que este comportamento agressivo tem como marca constitutiva o desrespeito, a intolerância e o preconceito, sendo classificado pela forma de ocorrência: bullying direto é quando as vítimas são atacadas diretamente com apelidos, agressões físicas, ameaças, roubos, chantagens, recusa social, ofensas verbais ou expressões; o bullying indireto caracteriza-se por atitudes de indiferença, isolamento, difamação e negação aos desejos, mediante atos velados e discretos.

Nas ocorrências de bullying registradas e pesquisadas nas escolas, a maior frequência se dá entre o público infantojuvenil; a ocorrência é mais intensificada no público masculino (ANTUNES; ZUIN, 2008). A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência – Abrapia (2008) identificou os seguintes papéis na ocorrência desse fenômeno entre os sujeitos nas escolas: alvos, alvos/autores, autores e espectadores (Figura 1).


Fonte: Os autores, 2014.

Figura 1 - Diagrama da ocorrência do bullying no meio social e os papéis dos sujeitos nesta problemática.
1) Alvos (vítima) são aqueles alunos que só sofrem aas agressões.
2) Alvos/autores (vítima/agressor) ora sofrem, ora praticam.
3) Autores (agressores) são aqueles que praticam a agressão.
4) Espectadores (testemunhas) são aqueles que não sofrem nem praticam bullying, mas convivem em um ambiente onde isso ocorre.

A escola deve agir precocemente contra o bullying, trabalhando junto à família para identificar e educar conjuntamente na reversão dessa problemática (BEAUDOIN; TAYLOR, 2006). Porém a falta de preparo dos profissionais, principalmente do(a) professor(a), para lidar com o problema é um dos principais entraves à prevenção (ROLIN, 2008). Isso se deve ao fato de os professores estarem desgastados pela dupla jornada de trabalho (duas escolas ou mais), pelas condições do exercício da profissão e pelo desgaste físico e emocional, entre tantos outros aspectos da atividade magisterial, que levam à dificuldade de lidar com essa situação.

Com relação à educação familiar, não há receita eficaz para educar filhos, pois cada família é um mundo particular com características peculiares (ANTUNES; ZUIN, 2008). Diante dessa constatação, deve-se fazer o exercício do afeto entre os membros da família, pois o diálogo, a verdade e a confiabilidade são elementos importantes para o processo evolutivo e formativo do ser humano, assim como instrumento poderoso no combate a todo tipo de violência (CHALITA, 2007). As escolas devem adequar os seus planos político-pedagógicos e os regimentos internos escolares para essa nova realidade, além de propor projetos pedagógicos interdisciplinares para sensibilizar a comunidade escolar quanto à problemática.

As secretarias de Educação devem, por sua vez, apoiar intensivamente as atividades das escolas no enfrentamento desse problema, além de promover a educação continuada dos(as) professores(as) com cursos, palestras e oficinas. Devem atuar na formação de redes de proteção social, incluindo a ação conjunta de prefeituras e governos com suas secretarias, conselhos tutelares, Ministérios Públicos Federal e estaduais, as polícias civil e militar, órgãos de saúde pública e as instituições de ensino superior, por meio de pesquisas, programas, projetos, cursos, oficinas, palestras etc.

Os alunos, devem ser encorajados a participar de projetos e programas antibullying da própria escola, pois o enfrentamento das testemunhas demonstra aos autores que eles não terão o apoio do grupo.

Considerações finais

A eliminação da violência social e o estabelecimento da paz são tarefas difíceis, porém não são impossíveis. Exigem um trabalho sério, árduo, comprometido e continuado com todos os membros do contexto educacional, partindo de uma postura que resgate valores humanistas e de respeito às diferenças e diversidades da sociedade, cultivando valores desvirtuados na atualidade e de hipervalorização da paz.

Esperamos que este estudo seja uma contribuição a professores, pais e profissionais de áreas afins, para que juntos possam colher bons resultados contra o bullying no contexto escolar, familiar e da comunidade, apoiar os educadores e auxiliá-los na busca de conhecimentos que construam redes de diálogo; que eles, repensando suas práticas educativas, despertem para novas pesquisas, transformando valores para uma escola democrática e cidadã.

Referências

ABRAMOVAY, M; RUA, M. G. Violência nas escolas. Brasília: Unesco/Banco Mundial, 2002.

ABRAPIA. O que é bullying?. Revista Construir Notícias, Recife, nº 40, ano VII, mai.-jun. 2008.

ANTUNES, D. C.; ZUIN, A. A. S. Do bullying ao preconceito: da barbárie à educação. Revista Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, UFMG, v. 20, n. 1, 2008, p.33-42. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v20n1/a04v20n1.pdf>. Acesso em: 11 jun. 2014.

BEAUDOIM, M. N.; TAYLOR, M. Bullying e desrespeito: como acabar com essa cultura na escola. Porto Alegre: Artmed, 2006.

CHALITA, G. Bullying: o crime do desamor. Revista Profissão Mestre, ano IX, nº 99, dez. 2007.

CONSTANTINI, A. Bullying: Como combatê-lo? São Paulo: Itália Nova, 2004.

CÓRDULA, E. B. L. A escola no resgate da afetividade humana: quebra do paradigma social da violência. In: CANANÉA, F. A. Trilhas educacionais. João Pessoa: Imprell, 2013, p.39-56.

FANTE, C. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. São Paulo: Verus, 2005.

FANTE, C.; PEDRA, J. A. Bullying escolar: perguntas e respostas. Porto Alegre: Artmed, 2008.

ROLIN, M. Bullying o pesadelo da escola. Porto Alegre, mai. 2008. Disponível em: <http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/14951>. Acesso em: 30 mar. 2009.

Vídeos recomendados

Longa-metragens

Bully. Direção de Lary Clark, Paris Filmes, França/EUA, 2001, 100 min. (drama/suspense).

Bully. Direção de Lee Hirsch, Vinny Filmes, EUA, 2011, 98 min. (documentário).

Lucas, um intruso no formigueiro (The ant bully). Direção de John A. Davis, Warner Home Video, EUA, 2005, 89 min. (desenho/comédia).

Curta-metragens

Cuerdas. Direção de Pedro Solís García, La Fiesta Producciones Cinematográficas, Espanha, 2013, 10 min. (animação/drama). Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=xvpisfYM8qY>. Acesso em: 20 ago. 2014.

A peste da Janice. Direção de Rafael Figueiredo, Filmes Casanova, Brasil, 2007, 14 min. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=povo9wCtITo>. Acesso em: 20 ago. 2014.

Publicado em 02 de setembro de 2014

Publicado em 02 de setembro de 2014