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Uma questão de ponto de vista

Mariana Cruz

Semana passada estava passando em frente à ABBR – um centro de reabilitação física para pessoas de todas as idades, aqui no Rio de Janeiro – quando um ônibus parou na minha frente e, ao abrir a porta traseira, vi que saía de lá um moço forte, de rosto marcante e sem as pernas. Tinha dois cotos que ficavam no início das coxas. Fiquei observando a movimentação do rapaz e permaneci ali parada em frente à escada, pronta para ajudá-lo quando fosse necessário, mas não foi. Ele era tão ágil que não dava brecha. De repente puxou uma cadeira de rodas dobrável – que parecia ser bem leve –, ajustou-a e colocou atrás de si. Depois, usando os braços como se fossem muletas, foi descendo degrau por degrau e já no último virou-se pegou a cadeira e colocou-a na calçada.

As pessoas ficavam em torno dele tentando dar um apoio, mas ele gentilmente dispensava a ajuda, pois já tinha a "manha" de fazer aquilo sozinho. Só na hora de pular do degrau para a cadeira (colocada estrategicamente com o assento virado para ele) as rodas deslizaram da calçada para a rua (o ônibus havia parado um pouco distante da calçada), então me apressei para recolocar a cadeira em cima da calçada (apesar de não ter dúvida de que ele saberia como resolver isso sem problema). Nesse momento, ele pulou do degrau para a cadeira com uma desenvoltura de ninja. E assim, já acomodado em sua cadeira, ele seguiu, prescindindo de qualquer ajuda, em direção à ABBR.

Eis que um cidadão desavisado, desses que querem ajudar e acabam atrapalhando, pegou a cadeira e foi empurrando, mas o rapaz era tão rápido que logo logo o bem-intencionado deu-se conta do quão dispensável era. Ao ver tal cena, tive a impressão de que o compadecimento de algumas daquelas pessoas não era algo genuíno; tinha um quê de superioridade, como se quisessem convencer a si mesmos de como eram bons por estar ajudando o "coitado". O problema é que, de "coitado", o cara não tinha nada. Era forte, bonito, ágil e autossuficiente. Ele não precisava ser ajudado por ninguém; simplesmente se bastava.

E eu ainda ali, esperando o sinal fechar (já devia ter fechado algumas vezes, mas eu nem notara), fiquei acompanhando o rapaz com o olhar, observando sua agilidade, até ele entrar na ABBR, quando fui despertada do transe por uma senhora que estava ao meu lado e falou alto: "coitado, um homem desse sozinho!”. Achei que não tinha entendido direto e pedi para ela repetir. Era aquilo mesmo, a moça estava morrendo de pena do rapaz. Era uma pena deixarem um homem daquele jeito sair sozinho; vai ver que a família nem ligava para ele, não tinha ninguém para acompanhá-lo. Era justamente isso que tinha chamado minha atenção: a autonomia, independência, força e até a forma gentil com que ele recusava a ajuda das pessoas que mais atrapalhavam do que ajudavam seus movimentos ágeis.

E, na visão da senhorinha, aquele cara não passava de um coitado solitário. Enquanto atravessávamos a rua expus rapidamente para ela minha impressão sobre o cara, ela me olhou com estranheza, virou o rosto e seguiu o seu rumo. Deve ter me achado maluca, pois não sentia pena de uma cara sem pernas que não precisa da ajuda de ninguém para se deslocar pela cidade.

Tal acontecimento me fez lembrar o conto O peru de natal, de Mário de Andrade, em que o protagonista, por fazer certas "loucuras", era taxado de "doido, coitado" pelos parentes. E foi justamente esse rótulo que lhe deu passe livre para obter uma "esplêndida conquista contra o ambiente familiar". Diz ele que seu comportamento fora dos padrões vinha desde a infância, com as reprovações na escola, um beijo às escondidas na prima, aos dez anos, e outras peraltices; foi justamente isso que lhe proporcionou uma "existência sem complexos".

Assim como o protagonista do conto, meu ninja amputado parece estar muito além daqueles que morriam de pena dele. Esses, sim, uns coitados!

Publicado em 02 de setembro de 2014

Publicado em 02 de setembro de 2014