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Letra cursiva ou letra bastão?

Mariana Cruz

As primeiras séries do Ensino Fundamental representam um mundo novo para as crianças, sobretudo quando vêm junto com a mudança de escola. Um dos problemas que parecem irrelevantes, mas que vira e mexe aparecem é aquela história acerca do tipo de letra com que a criança será alfabetizada.

Já ouvi casos de mães angustiadas porque a escola nova do filho exige letra cursiva e o menino só escreve com letra bastão. Aí lá vão elas, desesperadas, atrás de aulas particulares de caligrafia para o guri não ficar atrasado em relação à turma. Tenho uma amiga francesa que está vivendo esse "drama" atualmente; ela mora no Brasil, mas irá voltar para sua terra natal no fim deste ano. Lá, ao que parece, a maioria das escolas trabalha com letra cursiva (assim como as escolas que seguem a pedagogia tradicional aqui no Brasil), e seu filho está aprendendo a escrever aqui com letra bastão. Como será quando chegar lá? Será que ele terá de refazer o primeiro ano simplesmente por não saber fazer letra cursiva?

O debate sobre qual das letras é a melhor está longe de acabar. Há argumentos consistentes de ambos os lados. Alfabetizar-se tendo como primeiro modelo a cursiva traz maior grau de dificuldade inicial, o que pode ser desafiador para as crianças, já que aprender tal letra requer toda uma técnica sobre como se desenha cada uma, onde se inicia e onde termina. Além disso, alguns educadores consideram que esse aprendizado serve para desenvolver a psicomotricidade fina, estimular o cérebro e, consequentemente, suas sinapses.

Mesmo sendo francês, o filósofo Michel Foucault não parecia não estar muito de acordo com a pedagogia infantil aplicada em seu país; em seu livro Vigiar e Punir, descreve os danos que uma "boa caligrafia" pode produzir no corpo:

uma boa caligrafia, por exemplo, supõe uma ginástica - uma rotina cujo rigoroso código abrange o corpo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador. Deve-se manter o corpo direito, um pouco voltado e solto do lado esquerdo e algo inclinado para a frente, de maneira que, estando o cotovelo pousado na mesa, o queixo possa ser apoiado na mão, a menos que o alcance da vista não o permita; a perna esquerda deve ficar um pouco mais avançada que a direita, sob a mesa. Deve-se deixar uma distância de dois dedos entre o corpo e a mesa; pois não só se escreve com mais rapidez, mas nada é mais nocivo à saúde que contrair o hábito de apoiar o estômago contra a mesa; a parte do braço esquerdo do cotovelo até a mão, deve ser colocada sobre a mesa. (...) O mestre ensinará aos escolares a postura que estes devem manter ao escrever e a corrigirá seja por sinal seja de outra maneira, quando dela se afastarem. Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente. A articulação corpo-objeto: a disciplina define cada uma das relações que o corpo deve manter com o objeto que manipula. Ela estabelece cuidadosa engrenagem entre um e outro (2004, p. 68).

Os defensores do uso da letra cursiva consideram que por meio dela é mais fácil para as crianças perceberem o espaço entre as palavras, o que dizem não acontecer com a letra bastão, pois, por ser naturalmente separada uma da outra, pode causar confusão no discernimento dos vocábulos. 

Na matéria Escrita em reforma, Magda Soares, da Faculdade de Educação da UFMG, tem uma visão distinta ao considerar a letra bastão mais propícia para perceber os fonemas, pois, de acordo com ela, "no momento em que a criança está descobrindo as letras e suas correspondências com fonemas, é importante que cada letra mantenha a sua individualidade".

E o que dizer da quantidade de palavras escritas com que a criança diariamente se depara? São letreiros, propagandas, placas, todos majoritariamente escritos em letra bastão. Desse modo, a letra cursiva, não sendo ensinada na escola, cairia no risco de o aluno não aprendê-la nunca, uma vez que ela é cada vez menos vista. Mas, se ela é cada vez menos usada, então por que aprendê-la? É mera questão de tradição, criticam alguns. E por que não preservar uma tradição? Saber como nossos pais, avós e bisavós escreviam e assim poder ler suas cartas e cadernos de receitas.

É certo que iniciar a alfabetização com letra cursiva é bem mais trabalhoso do que com a letra bastão; por outro lado, depois que se aprende a primeira ela é escrita com mais rapidez que a segunda, pois é uma letra contínua, enquanto a letra bastão exige, ao final de cada letra, que se tire e bote o lápis no papel.

Diante desse verdadeiro debate acerca do melhor tipo de letra para ser usada na alfabetização, por que não ensinar os dois tipos de letra e então deixar que os pequenos optem por escrever com aquela com que se sentem melhor?

Publicado em 09 de setembro de 2014

Publicado em 09 de setembro de 2014