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De onde viemos

Lorenzo Aldé

Quando o que existe é nada, tudo é possível, e cada passo inaugura um novo mundo. A liberdade total, já disseram, é fardo por demais pesado.

Menos mal que a liberdade do “Portal da Educação Pública” (hoje esta Revista) não era total. O projeto nascia com restrições orçamentárias, de recursos humanos e materiais. Muito mais grave, no entanto, era uma limitação que, naquele momento, sequer podíamos enxergar: a tecnologia. Como enxergar o que ainda está por vir? Afinal nossa intenção era conceber e oferecer oficinas e conteúdos para educadores se inspirarem e enriquecerem sua prática à distância, via internet. E a internet vivia outra era. No dia 31 de dezembro da virada entre 1999 e 2000, a humanidade temia que os sistemas mundiais de computadores perdessem todos os seus dados, por só identificar os últimos dois dígitos do ano: 99 e 00, o que os faria “retornar a 1900”. A ideia hoje soa absurda, mas chegou a ser debatida a sério. Ninguém tinha gmail, simplesmente porque ele não existia: o Google era apenas uma ferramenta de busca. Celular nem tirava foto. Rede social? Isto sim, e era uma grande novidade na época: havia uma, chamada Orkut. Não me lembro se já existia Youtube, mas se havia ainda era experimental, limtado, engatinhando. A sensação mesmo eram os blogs, com sua interatividade garantida pelas caixas de comentários.

A nascente web 2.0 nos surpreendia a cada dia, trazendo para a realidade o até então inexistente. Em 11 de setembro de 2001 [link http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/comportamento/0010.html], a equipe assistiu junta, perplexa, à cobertura ao vivo, online, dos atentados às Torres Gêmeas. No mesmo dia, publicávamos esta declaração de intenções: “O sonho do Portal é este: ser um espaço onde a produção passa a ser coletiva, onde os saberes se realimentem e se transformem” [link http://www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materias/0012.html]. Ora, quem tem um sonho como este não se limita pelas tecnologias: usa as que tiver à mão. E foi isso que a gente fez.

Num ambiente de permanente motivação coletiva e intercâmbio de saberes, nos perguntávamos: o que mais podemos fazer que seja interessante para o professor? O resultado foi que nunca paramos de produzir. Resenhas de sites especiais? Boa, vamos lá. Uma Biblioteca com textos próprios e de convidados sobre as mais variadas áreas de saber? É pra já. Mas também um Jornal, para mapear novidades e notícias de interesse do nosso público. E uma seção para divulgar Eventos. E um Fórum para chamar os educadores a debater temas polêmicos. “Sua Voz”, mais um espaço para livres contribuições e trocas. E, claro, as oficinas. Usando os (até então) incríveis recursos da web, possibilitar ao professor navegar por textos, links, imagens que o possibilitassem repensar sua prática, atualizar seus saberes e temperá-los com tecnologia. Tínhamos o luxo de contar com o (já então) premiado (depois premiadíssimo) ilustrador Salmo Dansa. A mente arejada, reflexiva e multidisciplinar de Lourdes Grzybowski, sempre entusiasmada com novas ideias. A competência também inovadora de Monica Duque nos domínios da web. Alberto Tornaghi como mentor pedagógico e descortinador de poesias tecnológicas. E professores do primeiro time de uma união inédita das melhores universidades públicas do Rio de Janeiro.
Na UERJ, na Mangueira, de volta à UERJ, onde quer que morasse o Portal estávamos em casa. Mais do que o terrível termo “capacitação” (que felizmente saiu de moda) ou qualquer pretensão de “orientação em serviço”, o Portal da Educação Pública foi um espaço de liberdade, sim. Se não total (pois esta não há), irrestrita nos campos do livre pensar e do livre produzir. Um espaço mais poético do que “formativo”. Mais filosófico do que “conteudista”. Em que o prazer de construir e compartilhar experiências e conhecimentos contagiava toda a equipe – e isso reverberava pelos bytes que houvesse disponíveis por aí. Um lugar onde um mero relato pessoal (a adaptação de minha filha na creche) [link: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/prosaepoesia/0228.html] podia levar uma colega de Portal às lágrimas, e ainda ser útil para pensarmos juntos (e emocionados) o papel da educação infantil.

Me pediram para escrever “dois parágrafos” sobre a origem da Revista (que insisto em chamar de “Portal”). Agora ela vai ficar de cara nova, acertar o passo com os recursos atuais da internet, renovar o seu layout e suas funcionalidades. Tenho medo de não mais me reconhecer no visual dessa plataforma. Por isso peço desculpas pelo texto longo e por demais autocentrado. Mas penso que Paulo Freire, Rubem Alves e Cia. me perdoariam, pois me ensinaram que aprendizado, pra valer, tem que fazer sentido pra gente. E faz sentido, pra mim, entrar no Portal – digo, na Revista – e ainda reconhecer-me nela, depois de tanto tempo. Tenho certeza de que esta sensação, independentemente da cara nova, vai continuar.

A velocidade da internet já me fez sentir “velho aos 30” [link: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materias/0062.html]. Hoje posso dizer que me sinto novo aos 40. A nova Revista Educação Pública – pelo meu desejo e minha eterna identificação – há de continuar andando junto comigo (mesmo que à distância): dez anos mais velha, também está a um passo de rejuvenescer.

Publicado em 16 de setembro de 2014

Publicado em 16 de setembro de 2014