Na prática, a teoria é outra: os resultados das pesquisas e sua influência nas salas de aula

Luciane Santos Rosenbaum

No dia a dia, são comuns expressões como:

Na prática, a teoria é outra.

Na teoria, não há diferença entre a teoria e a prática, mas na prática há muita diferença.

Teoria é quando se sabe tudo e nada funciona. Prática é quando funciona e ninguém sabe o porquê.

Vamos iniciar nossa conversa a partir da última frase e verificar o quanto, conscientemente ou não, ainda há resquícios deste comportamento nos representantes dos dois times – teoria e prática –, que mesmo estando do mesmo lado se comportam como adversários.

Uma primeira provocação: o que te levou a ler este texto? Será que foi o título provocativo?

O objetivo da nossa revista é contribuir para a formação de educadores do Estado do Rio de Janeiro, do Brasil, seja por meio do intercâmbio de conhecimento com educadores, seja entre eles, a fim de contribuir para o desenvolvimento profissional de cada professor.

Assim, ao almejarmos o intercâmbio de conhecimentos e experiências estamos declarando a valorização do conhecimento produzido em sala de aula pelos professores No entanto, sem o artifício de analisar sistematicamente a prática, de modo a refletir sobre ela, os conhecimentos ficam limitados a meros relatos.

O que queremos dizer é que sem a luz das teorias não conseguimos “enxergar” todas as riquezas que a prática nos traz. Assim, a frase que critica a prática que não é intencionada e refletida mostra o quanto no dia a dia não estamos acostumados a parar e analisar o que fazemos, como fazemos, para que e quem fazemos e como faríamos diferente em uma nova oportunidade.

Ao mesmo tempo, o outro lado da frase que questiona a teoria que pretensiosamente se coloca como “a dona da verdade” e que se distancia da prática se torna vazia e letra morta.

Mas a dicotomia entre teoria e prática não é exclusividade da Educação. Infelizmente, essa concepção está presente em outras áreas que dividem com fronteiras intransponíveis os pesquisadores e os praticantes.

É aqui que nos colocamos como uma nação sem passaportes com territórios nas duas nações e que almeja aproximar, a cada número da revista, os nativos de cada uma delas.

O objetivo é que os nativos praticantes compreendam a cultura, a linguagem, os usos e necessidades dos teóricos e vice-versa.

Não há teoria sem prática e a prática torna-se precária sem uma teoria que a sustente.

É importante compreendermos que as teorias não são elaboradas por esquizofrênicos com problemas sociais que vestem xadrez e que se enclausuram em escritórios recheados de livros sem nenhum contato com outros seres humanos.

A crítica que os professores fazem às teorias e às mudanças na área da educação é que os que elaboram tais mudanças nunca foram a uma escola. Não conhecem o chão da sala de aula. Não sabem as condições de trabalho dos professores.

Pois esta que aqui escreve trabalha há 18 na escola pública da Educação Básica. Conhece a sala de aula e se tornou pesquisadora sem deixar a escola.

Muitas vezes nossos preconceitos criam visões estereotipadas que nos impedem até de ver se a teoria pode nos auxiliar.

Se és teoría, soy contra!

Ler não é comigo!

Já estudei muito na faculdade!

As teorias educacionais são elaboradas vendo o que acontece nas salas de aula. O famoso pesquisador francês Gérard Vergnaud, aluno de Piaget, que estuda como as crianças constroem os conhecimentos matemáticos, relata que a pesquisa “é fundamental para ensinar a disciplina, pois permite prever formas mais eficientes de trabalhar os conteúdos”. Ao estudar as teorias o professor passa a compreender melhor o que se passa na sala de aula (VERGNAUD, s.d.).

A dualidade entre teoria e prática é assunto discutido por Zeichner (1998). Segundo esse pesquisador, é preciso eliminar a separação que atualmente existe entre o mundo dos professores e o mundo dos pesquisadores acadêmicos. Para os professores, os resultados das pesquisas são irrelevantes para suas vidas nas escolas, não reconhecem o uso das pesquisas para instruir e melhorar suas práticas. Por outro lado, Zeichner comenta que os pesquisadores acadêmicos não consideram os conhecimentos produzidos pelos professores nas escolas como uma forma de pesquisa: Há claras evidências de que somente em poucos casos a pesquisa acadêmica tem estimulado reformas em escolas” (ZEICHNER, 1998, p. 1).

Alguns motivos apontados por Zeichner para o ceticismo dos professores quanto as pesquisas: a linguagem dos artigos científicos distancia os professores; frequentemente os professores se veem descritos de forma negativa, os docentes sentem que os pesquisadores são insensíveis às condições de trabalho dos professores, os resultados das pesquisas são apresentados como certos e definitivos ou usados como justificativa para impor algum programa prescritivo a ser seguido pelos professores.

O próprio Zeichner traz uma sugestão de como aproximar os habitantes dessas nações vizinhas: projetos colaborativos em que professores e acadêmicos trabalhem juntos como parceiros, em que cada um reconheça e respeite a contribuição do outro.

A pesquisadora Passos (2007) atribui à formação inicial o papel determinante do interesse dos professores pelos resultados de pesquisas. Para que os professores utilizem as teorias da educação e os resultados das pesquisas como instrumentos de auxílio à prática é preciso que tenham vivenciado esse tipo de contribuição antes de entrarem em sala de aula como educadores.

Para ser professor, é necessário compreender como se aprende e como ensinar para promover o aprendizado. No entanto, nossos cursos de formação ainda estão distantes de apresentar o mundo da pesquisa aos professores.

Em um relatório lançado em 2009 com os resultados obtidos em um estudo da Unesco no Brasil, esses dados coletados contribuíram para a conclusão acerca da falta de articulação entre a formação em disciplina específica e a formação didática. Mesmo após a promulgação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores, em 2002, ainda há maior número de disciplinas e horas-aula dedicados à formação específica, se compararmos com as disciplinas pedagógicas e com nenhuma ou insuficiente articulação entre as formações. Nos cursos de formação inicial e continuada, os professores não são expostos às pesquisas; nos raros casos em que isso acontece, é de maneira superficial, que não permite que o professor se torne consumidor dos conhecimentos desenvolvidos nas pesquisas em Educação.

Pretendemos que este texto contribua para que os leitores sintam-se atraídos não apenas para ler os artigos publicados pelos pesquisadores, mas que também sintam sua prática reconhecida e desejem contribuir com a revista sendo um professor colaborador. O relato de suas experiências, reflexões ou textos comporá nossas próximas edições.

A busca por promover a articulação entre as pesquisas acadêmicas e a atuação do professor em sala de aula visa a contribuir para que o professor tenha subsídios para melhorar sua prática ao buscar temas que já foram desenvolvidos por seus pares em pesquisas em sala de aula e para ampliar a teoria acerca do processo de ensino e aprendizagem.

Pretendemos também que os professores comecem a refletir sobre sua atuação docente e, tal como preconizado por Donald Schon (1983), utilizem seus saberes oriundos da experiência a partir de uma reflexão sobre a prática. A busca pelo profissional reflexivo visa a eliminar a distância entre a pesquisa e a prática profissional. O professor pesquisador deve identificar os problemas do ensino e construir propostas de solução embasadas na teoria e na experiência docente; após a implantação das ideias, deve observar os resultados e, eventualmente, corrigir ações que não obtiveram êxito (BECKER, 2010; SIMON, 1995; ANDRÉ, 2001).

Encerramos este texto com um trecho do matemático reconhecido internacionalmente Ubiratan D´Ambrósio:

Entre a teoria e prática persiste uma relação dialética que leva o indivíduo a partir para a prática equipado com uma teoria e a praticar de acordo com essa teoria até atingir os resultados desejados. Toda teorização se dá em condições ideais, e somente na prática serão notados e colocados em evidência certos pressupostos que não podem ser identificados apenas teoricamente. Isto é, partir para a prática é como um mergulho no desconhecido. Pesquisa é o que permite a interface interativa entre teoria e prática (D´AMBROSIO, 1996, p. 79).

Referências

ANDRÉ, M. Pesquisa, formação e prática docente. In: O papel, da pesquisa na formação e na prática dos professores. Campinas: Papirus, 2001.

BECKER, F. Ensino e pesquisa: qual a relação? In: Ser professor é ser pesquisador. Porto Alegre: Mediação, 2010.

D´AMBROSIO, U. Educação Matemática: Da teoria à prática. Campinas: Papirus, 1996.

SCHON, D. The reflective practitioner: how professionals think in action. New York: Basic Books, 1983.

SIMON, M. A. Reconstructing mathematics pedagogy from a constructivist perspective. Journal for Research in Mathematics Education, v. 26(2), p. 114-145, 1995.

VERGNAUD, G. Entrevista concedida ao site da revista Nova escola. Sem data. Disponível em http://revistaescola.abril.com.br/matematica/fundamentos/todos-perdem-quando-nao-usamos-pesquisa-pratica-427238.shtml. Acesso em 07/09/2014.

ZEICHNER, K. M. Para além da divisão entre professor-pesquisador e pesquisador acadêmico. In: GERALDI, C. M. G.; FIORENTINI, D. & PEREIRA, E. M. A. Cartografia do trabalho docente: professor(a) pesquisador(a). Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 207-236.

Publicado em 07 de outubro de 2014