Nada melhor do que do que não fazer nada

Mariana Cruz

Atualmente muitas crianças têm uma rotina de dar inveja a qualquer executivo atribulado: natação, futebol, aula de música, Kumon, teatro, inglês, francês e até mandarim. Isso tudo sem contar as atividades escolares e os diversos deveres de casa, os quais muitas vezes os pequenos só conseguem fazer à noite. No tempo livre eles podem ver TV ou divertirem-se com o tablet. Com uma agenda dessas, não só os filhos como os pais acabam se estressando, pois muitas vezes cabe a eles a função de levar os pequenos de um lado para o outro. Até que, para dar um break nessa extenuante rotina, chegam as férias escolares.  

Mas o que era para ser um período de brincadeira e descanso ultimamente tem sido cada vez mais associado a atividades incessantes, como se a criança fosse a engrenagem de uma máquina que não para nunca. Tal situação se agrava quando os pais não conseguem conciliar suas férias com as dos filhos. É quando a tão sonhada vontade de não fazer nada vai se tornando um sonho cada vez mais distante. Para evitar que os pequenos fiquem em casa ociosos, os adultos, além de não tirar as crianças das atividades corriqueiras, ainda as colocam para fazer cursos e colônias de férias.

Não há nada de errado nisso; o problema é que muitas vezes tal excesso de tarefas ofusca o principal dos ofícios infantis: brincar, atividade essa que muitos pais, preocupados em dar um futuro brilhante para seus filhos, consideram perda de tempo. Estão redondamente enganados: é por meio das brincadeiras que a criança irá ventilar as ideias, organizar, colocar em prática as suas vivências e expressar de forma lúdica a infinidade de informações que recebeu no decorrer do ano letivo. As férias foram feitas para brincar, descansar, não fazer nada, acordar bem mais tarde, ter um horário menos rígido, conhecer lugares novos, visitar e receber a visita dos amigos.

Nesta matéria da revista Crescer, Andressa Basílio traz um estudo feito pela Academia Norte-Americana de Pediatria (AAP) no qual se constatou que as férias, além de serem um período necessário para descanso e diversão, são benéficas para o “desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança". Tanto assim que os pesquisadores norte-americanos "chegaram à conclusão de que deveria haver um intervalo maior entre uma aula e outra, já que essas pequenas pausas entre as aulas e as maiores entre os semestres, ou seja, as férias, são essenciais para preparar a criança para novos conteúdos, além de deixar seu filho mais disposto para o aprendizado na volta às aulas". 

Publicado em 21 de outubro de 2014