Síndrome de burnout no magistério

Sílvia Aparecida Alves

Especialista em Organização Escolar (FacInter); pedagoga (Ulbra); professora de Educação Infantil da Prefeitura de Bom Despacho (MG)

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Mestrando no Prodema/UFPB; licenciado em Biologia; pesquisador Gepea-Gepec/UFPB; presidente da Ong MAR/Lucena (PB)

O que é e pra onde vai?

Burnout é um termo inglês que significa queimar (burn) até o exterior (out) (SANTINI, 2004, apud FREIRE, 2010); é utilizado para indicar usuários de drogas que eram consumidos pelo vício e que internalizavam fisicamente esse estado. No âmbito educacional, começou a surgir entre os educadores e foi descrito pela literatura psicológica como uma situação literal de esgotamento total causado pelo consumo de energia psíquica, cognitiva, emocional e física (SILVA; CARLOTTO, 2003).

A principal característica dessa síndrome é o estado de tensão emocional e estresse crônico provocado por condições laborais desgastantes; ela se manifesta especialmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e constante (CAMPOS, 2008). Aliada a esse fator, está a ocorrência de inúmeras adversidades diárias que fogem ao controle da pessoa, ocasionando a desmotivação, o desinteresse, o mal-estar e a insatisfação ocupacional que afetam diretamente a atuação de alguma categoria ou grupo profissional (BALLONE, 2002) (veja a Figura 1).

Atualmente registram-se vários níveis de manifestação da doença entre os profissionais do magistério; ela é reforçada negativamente pela baixa autoestima e o desrespeito à categoria, pela falta de condições adequadas para o exercício profissional (BALLONE, 2009), além da excessiva cobrança por parte da gestão escolar. No setor público, além dessa cobrança interna na escola há a pressão das secretarias de Educação (estaduais e/ou municipais) para conseguir atingir metas de "qualidade na educação", registradas por meio de quantitativos de aprovação. As secretarias passam a adotar uma postura fiscalizadora perante o professor, atribuindo, não raras vezes, julgamento negativo ao docente por não atingir as metas, além de atitudes repressoras e punitivas (CÓRDULA, 2012).

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Figura 1: Problemas que levam ao desenvolvimento da síndrome de burnout no profissional do magistério
Fonte: Eduardo Beltrão de Lucena Córdula (2014)

Sintomatologia no magistério

Reinhold (2002), afirma que o profissional da Educação que possui a síndrome passou anteriormente por diversas perturbações psicoemocionais que minaram sua estrutura psicologia e emocional, levando ao desenvolvimento da doença.

Quadro 1: Etapas do desenvolvimento da síndrome de burnout

Idealismo e realismo

Início de carreira, recém-formados e com toda vontade de atuar profissionalmente

Estagnação e frustração ou quase burnout

Dificuldades começam a surgir na atuação; após alguns anos, é nítida a falta de reconhecimento da atividade, falta de união na própria classe, adversidades de todos os tipos no ato de ensinar, falta de compromisso de algumas gestões, políticas públicas insuficientes ou insalubres para com a educação, baixo salário, jornadas duplas ou triplas de trabalho etc.

Apatia, burnout total

Falta de perspectiva de melhora, agravamento da condição de trabalho, acúmulo de trabalho e cansaço em virtude de anos de atuação em jornadas duplas ou triplas para ter uma condição socioeconômica que atenda as necessidades pessoais e familiares e a perda da vontade de buscar mudanças; conformação com o quadro instalado etc.

Fenômeno fênix

Poucos conseguem rapidamente encontrar forças em si mesmos e buscar tratamento ou mudar o quadro instalado pela síndrome e retornar ao trabalho de educador nas escolas. Por isso, para que esta etapa ocorra, é de suma importância o papel da gestão, do corpo pedagógico das escolas e da família.

Fonte: Reinhold (2002).

Para Silva e Carlotto (2003), na etapa inicial há grande entusiasmo do educador em relação ao trabalho; a seguir surge a constatação de que suas ideologias e aspirações não serão alcançadas e que o esforço empreendido não será recompensado, causando estado de total frustração e fragilidade que leva ao desenvolvimento da síndrome.

Atualmente se vem discutindo muito na academia e na mídia que a profissão docente é bastante estressante pelas pressões no cotidiano de suas atividades profissionais: desde as relações trabalhistas, os desvios de comportamento de parte do alunado, a falta de união da classe até a falta de apoio da sociedade ao professor (BOY, 2009).

De acordo com Ballone (2009, p. 1), “A prevalência do burnout ainda é incerta, embora os dados sugiram que acomete um número bem expressivo de pessoas”. De acordo com o SINPROABC (JBEILI, 2011), são raros os números de docentes diagnosticados com burnout, pois em muitos casos a síndrome é confundida com a síndrome do pânico, por apresentar sintomas parecidos. Para Moscoso (2011), os recém-formados para o magistério perdem o interesse em lecionar devido às péssimas condições de trabalho (salas lotadas, baixo salário, falta de apoio, violência, dentre outros); outro fator preocupante é que muitos assumem as salas de aula e desistem antes do fim do estágio probatório. Muitos se aposentam bem antes do tempo por causa dos problemas de saúde devidos ao estresse a que são submetidos constantemente. Esses dados são preocupantes, uma vez que os jovens não se sentem atraídos para a profissão e os que já estão em sala de aula perdem a vontade, o prazer de lecionar.

A profissão docente é, infelizmente, muito desgastante; quando os educadores não encontram o devido suporte ou têm só a omissão da gestão e da supervisão escolares e das seretarias de Educação, são acometidos pela frustração, o estresse, o abalo emocional; com o tempo desenvolverão os sinais da burnout, levando-os ao abandono da profissão.

Para evitar que isso ocorra, além do devido apoio psicopedagógico que necessitam, os gestores e supervisores podem ajudar os educadores promovendo momentos de descanso, descontração e logistica as suas atividades. Além disso, devem oferecer orientações pedagógicas para que as relações entre professor e aluno se desenvolvam plenamente e dar respaldo às decisões tomadas pelos educadores dentro da sala de aula (CAMPOS, 2008).

Considerações finais

Diante do exposto neste artigo e da gravidade do burnout, é imprescindível um processo de sensibilização de todos os envolvidos para que essa síndrome não se manifeste nos profissionais da Educação; é necessário mesmo que as políticas públicas se adéquem a essa nova realidade, e, ainda, que sejam estabelecidas condições de trabalho atrativas, com maior valorização, melhores salários, formação contínua custeada com recursos públicos, além, é claro, de garantia de proteção física e moral.

Referências

BALLONE, Geraldo José. Síndrome de burnout. PsiqWeb – Psiquiatria Geral, 2002. Disponível em: www.psiqweb.med.br/cursos/stress4.html. Acesso em: 13 fev. 2013.

______. Estresse e síndrome de burnout. PsiqWeb – Psiquiatria Geral, 2009. Disponível em: http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=70. Acesso em: 13 fev. 2013.

BOY, Priscila Pereira. Inquietações e desafios da escola. Rio de Janeiro: Wak, 2010.

CAMPOS, D. A. P. Síndrome de burnout:o esgotamento profissional ameaçando o bem-estar dos professores. Dissertação de mestrado. Unioeste, Presidente Prudente, 2008.

CARLOTTO, Mary Sandra. A síndrome de burnout e o trabalho docente. Revista Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, nº 1, p. 21-27, jan./jun. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pe/v7n1/v7n1a03.pdf. Acesso em: 15 dez. 2012.

CÓRDULA, E. B. L. Educação, política e sociedade: identidade nacional. Educação Pública, Rio de Janeiro, n° 13, 03 abr. 2012. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0325.html. Acesso em: 23 jul. 2014.

FREIRE, Paula Ariane. Assédio moral, reestruturação produtiva e síndrome de burnout em docentes. Psicologia – Portal dos Psicólogos, 2010. Disponível em: http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0509.pdf. Acesso em: 20 dez. 2012.

JBEILE, C. Síndrome de burnout: identificação, tratamento e prevenção. SINPROABC, 2011. Disponível em: http://www.revistaoprofessor.com.br/wordpress/wp-content/themes/revistaonline/download/cartilhasaude.pdf.  Acesso em: 19 fev. 2013.

MOSCOSO, Lina. Violência e baixos salários afastam professores novatos. Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=958089. Acesso em: 19 fev. 2013.

REINHOLD, H. H. Burnout. In: LIPP, M. E. N. O stress do professor. Campinas: Papirus, 2002, p. 63-80.

SILVA, Graziela Nascimento da; CARLOTTO, Mary Sandra. Síndrome de burnout: um estudo com professores da rede pública. Revista Psicologia Escolar e Educacional, v. 7, nº 2, Campinas, p.145-153, 2003.

Publicado em 21 de outubro de 2014