E o cérebro se reinventa...

Claudia Nunes

Há muito tempo desisti do quadro de giz. Língua Portuguesa e Literatura podiam ser reinventadas. Apresentá-las paulatinamente aos aprendentes tinha que acontecer em outra dimensão, de outro jeito e, principalmente, com outros objetivos. Duas palavras borbulham em minha mente tal e qual um mantra: ritmo e repetição. Depois de compreendido o contexto de onde vêm meus aprendentes, ritmo e repetição são minhas palavras de ordem.

Mas como (me) reinventar? Como ativar essa engrenagem de sentidos em práticas mais prazerosas sem perder significância em meio a cada etapa do ensino e da aprendizagem? Só tenho uma opção: fazer diferente. E fazer diferente é me articular com outras formas de ensinar, outros recursos, outros olhares sobre meu aprendente; fazer diferente é provocar mutações em mim, em minha formação e, por consequência, em minha sala de aula.

Primeiro movimento: entender a dinâmica intrínseca da minha sala de aula. Aí eu reconheci que o tempo de aprendizagem deve ser usado (e organizado) de outra maneira: eu precisava causar surpresas, sustos, estranhamentos.

Segundo movimento: por motivação, ritmo e repetição, a aula precisava se articular dentro de práticas cujos resultados fossem descobertas variadas e a produção de novas conexões cerebrais e mentais em torno dos conteúdos. Mais do que quantificar, era preciso qualificar as mentes curiosas para aprender, ainda que não se percebam assim.

Ainda hoje, diante de um educador, encontram-se mentes com potenciais de ação inimagináveis em intensa expectativa e que, por isso, demandam transformações nas estruturas de ensino. Ainda hoje, diante de um educador, encontram-se milhões de neurônios cheios de informação e totalmente interconectados esperando estímulos (excitações) que empreendam dinâmicas neocorticais (sinápticas) variadas: é o desafio, é a surpresa, é o fazer diferente.

Esses estímulos (desafios, jogos, atividades individuais, trabalhos em grupo e/ou dinâmicas) são importantes para nutrir, tonificar e fortalecer os cérebros de maneira a prevenir, ampliar e resgatar capacidades e habilidades mentais; além disso, entram em perspectiva com as expectativas discentes porque são sentidas como mais agradáveis, reais e focadas em seus contextos pessoais ou intelectuais.

Ao rompermos com conjuntos estáticos de comportamentos com a crença de que ‘sucesso do passado deve ser reproduzido’, ou, ao rompermos com a estrutura tradicional de ministrar aula, rompemos com a linearidade do pensamento, rompemos com as zonas reflexivas de conforto (exercícios descontextualizados) e rompemos com determinadas desconcentrações, desatenções e indisciplinas: causamos mais desconforto do que prazer. É uma questão do timing perceptivo docente.

Numa turma de 2º ano do Ensino Médio à noite, eu tenho 32 alunos frequentes. Em sua maioria, rapazes. Desde o início do ano letivo, eu percebia forte indiferença com a Literatura, além de grande dificuldade com Língua Portuguesa. Enquanto outras turmas de 2º ano iam muito bem, essa turma teve primeiras avaliações muito ruins. Aí era a minha vez de pensar: o que fazer? Como promovê-los? Como afetá-los em sua vontade de aprender?

Passei um fim de semana pensando. Eu não tinha feito um link com esses cérebros. Minhas práticas não foram pertinentes. Eu tinha a afetividade (sistema límbico) equilibrada, mas não alcançara o patamar do neocórtex de maneira que eles aprendessem para a vida, para a vivência autônoma da própria subjetividade em outros ambientes. Era, então, preciso influenciar o sistema nervoso diretamente e provocar a evocação mnemônica pessoal de maneira mais contundente. Era preciso mudar o comportamento cognitivo, reprogramando as emoções. Mas antes, eu precisava mudar.

No domingo, sem conseguir concentração para a leitura, deixei a TV na MTV e fiquei vendo clipes de músicas. De repente tive um insight: todos gostam de música! Cada clipe conta uma história. A partir dessas historias, posso trabalhar fundamentos da literatura e da língua portuguesa. Mas como seria a dinâmica? Com a música, eu atingiria os cinco sentidos, modificaria os ritmos intrínsecos dos cérebros e atingiria emoções apropriadas, memórias e certos comportamentos. Além disso, segundo Lent, “ao ser estimulado e dependendo do ambiente, o cérebro se reorganiza”, se adapta e aprende. Mas como?

Bem, pensei muito e fiz o seguinte: ao final da aula, apresentei a ideia sobre os clipes e pedi que trouxessem, em DVD, clipes de hip-hop que contivessem uma história, ou seja, clipes cujas letras (enredos) fossem representadas no vídeo. Surpresa: olhos brilhantes, sorrisos no rosto e perguntas interessadas: “como assim, professora? Hip-hop na sala? Como assim? Pode?” Eles ficaram animados e, de repente, eu tinha atenção, participação, ideias e um mundo de material para escolher. Meus aprendentes estavam atentos, participativos e ansiosos pelo que eu faria ou pelo que seria possível fazer em sala de aula. Vimos muitos clipes, separamos aleatoriamente os clipes e organizei a aula da semana seguinte: ansiedade positiva é o sentimento da hora.

Interessante como a presença de material eletrônico em sala já dá um up à futura dinâmica. Eles se interessaram, olharam, se aproximaram e se ofereceram para ajudar a ligar tudo: eles mexeram em tudo sem medo. Depois de um tempo, percebi que não havia o entra-e-sai de sala (banheiro, passeio, ida à secretaria, visita ao colega da turma ao lado) porque a perspectiva de algo diferente e a curiosidade eram tão grandes que o fora-de-sala era desnecessário e, pasme, sem sentido.

Meus cérebros estavam em plasticidade total e, segundo Lent, respondendo positivamente aos estímulos do ambiente “não apenas com alterações funcionais imediatas, mas também com alterações de longa duração, algumas das quais podem se tornar permanentes”.

Eles montaram tudo. Eu os deixei sentar em qualquer lugar, mesmo em cima da mesa. Ações iniciais: eles viram cada clipe e anotaram (descreveram) que historias foram vistas (narradas). Eles viram oito clipes. Depois troquei todas as anotações e pedi que completassem a história do colega com detalhes esquecidos, se fosse o caso (dissertação e argumentação). Aí ‘destroquei’ tudo e pedi, oralmente, que separassem alguns elementos a partir das seguintes perguntas: onde aconteceu, com quem aconteceu, quando aconteceu, como aconteceu (elementos da narrativa). A partir disso, discutimos alguns clipes (valores, ética, perda) e pedi que refizessem os finais de dois clipes a escolher (escrita e interpretação). Ao final, apresentei os elementos da narrativa e expliquei o que é texto (tipos de) e suas formas de interpretação. Fio condutor: os períodos do Romantismo e do Realismo. Foram quatro aulas de 50 minutos.

Na aula seguinte, aproveitamos as escritas e trabalhamos substantivo, adjetivo, artigo e alguns pronomes (classes de palavras). Menos classificação e mais compreensão sobre a participação dessas classes de palavras nos sentidos que queremos dar aos nossos pensamentos por escrito. No fim do trabalho e até hoje escuto: “e aí, professora, vamos fazer algo diferente hoje?” Ou “Poxa, professora, entendi muito melhor agora o que é interpretar; é difícil mesmo, né?”. Ou ainda “Não perco mais suas aulas, sabe-se lá o que vai acontecer?”.

Estou satisfeita, porém o movimento de transformação (e inovação) não pode mais retroceder: não posso mais me dar ao luxo de perder esses cérebros para o nada; preciso continuar antenada e manter a motivação, o ritmo e a repetição. As mudanças geraram novas necessidades de aprender, de conhecer, de entender outros assuntos; geraram também confiança para perguntar o que quer que fosse. Estavam motivados! E por que, de repente, essa motivação?

A dinâmica abriu espaço para que eles se apresentassem como seres pensantes reais, proporcionou abertura para criatividades cognitivas objetivas e melhoria nos relacionamentos interpessoais. O desenvolvimento da atividade gerou reflexos positivos no contexto da sala de aula e aumento das capacidades verbal, auditiva e visual da maioria dos aprendentes. Minha sala de aula estava emocionada!

Faço minha, então, a questão que Lent levanta: “não é a educação a prática social que objetiva mudar as pessoas, capacitá-las a realizar tarefas e comportamentos, ensiná-las a executar operações mentais sofisticadas e complexas e viver em sociedade segundo normas vantajosas para as coletividades?” Sim! Então, um bom meio para isso é fortalecer o sistema atencional do aprendente com práticas desafiantes cuja repercussão seja uma forte alteração cerebral e o uso pleno das funções cognitivas em geral.

A mudança de ritmo da sala e a repetição de atividades diferentes vão incorporando outros hábitos à cognição discente, o que gera eficiência no tratamento dos desafios seguintes. É afetar o corpo caloso no meio dos hemisférios cerebrais e energizar a mielinização das sinapses. É entender que, para aprender, é preciso prestar atenção. E pode-se aprender a prestar atenção importando o cotidiano à sala de aula.

Hoje realmente outra questão me incomoda: por que tantas reclamações sobre a superficialidade das cognições de nossos alunos? Se essa suposta superficialidade for um fato, qual é o papel do professor hoje? Só reclamar? Eu reconheço que há outros senões embutidos nessas reclamações, mas será que há disposição para mudar e assim criar um clima melhor na sala de aula, quiçá na escola?

Eu não sei. Isso demandaria outra análise séria. Porém acredito que seja preciso outras posturas profissionais diante do outro que se desconhece e que está ali, na escola, na expectativa de aprender ou de ser (fazer) diferente.

Mesmo hoje, em tempos líquidos, mais velozes, de forte integração das novas tecnologias virtuais, continuamos recebendo aprendentes em nossas escolas. Aprendentes com características cognitivas diferentes? É, pode ser, esta é uma discussão que vai longe; mas são aprendentes, estão dentro da escola e precisam aprender a aprender para fazer, ser, conhecer e conviver em sociedade.

E aí não cabe ao professor se isentar desse processo: somos muito importantes, sim! Só que precisamos remodelar nossas práticas diante dos novos alunos e seus novos comportamentos em geral.

Publicado em 04 de novembro de 2014