Formação de professores por meio das tecnologias educacionais via web

Maria Cristina Pfeiffer Fernandes

Doutora em Ciências pela COPPE/UFRJ; Fundação CECIERJ / Diretoria de Extensão

Andreza Regina Lopes da Silva

Doutoranda em Engenharia e Gestão do Conhecimento; UFSC/Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento

Sandra Menezes Vasconcellos

Professora de História; Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro

Na sociedade contemporânea, também denominada Sociedade da Informação (DZIEKANIAK et al., 2014), a manipulação e o domínio das tecnologias detêm a cena, gerando demandas em diversas áreas do conhecimento, dentre elas a Educação. Essas características e demandas necessárias para que a sociedade evolua e atinja o status pleno de Sociedade do Conhecimento está transformando o processo de ensino-aprendizagem, que deixa de ser centrado no modelo tradicional de comunicação, “um para um” ou “um para muitos”, e passa a acontecer em rede, potencializando a construção coletiva e colaborativa do conhecimento.

Nesse contexto, a Educação a Distância  (EaD) vem ganhando destaque, pois não difere da educação tradicional; a combinação entre tecnologia, comunicação e conhecimento converge para o desenvolvimento de competências dos indivíduos, permitindo que as pessoas possam desenvolver habilidades e formar competências. No entanto, para que ocorra um processo de ressignificação na relação professor-estudante se faz necessária a construção de novos saberes a partir de um cenário multimidiático. Para criar é preciso desconstruir um conhecimento tido como crença absoluta e observar o que se esconde nesse saber (MATURANA; VARELA, 2001).  Isso reforça a importância atribuída à formação continuada dos professores pelas características da sociedade pós-moderna, que colocam novas exigências ao saber, ao saber-fazer e, sobretudo, ao saber como fazer profissionais (TARDIF, 2002).

Ao mesmo tempo, o uso das tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC) no processo de ensino-aprendizagem, destacando-se a internet, tem sido o ponto de partida para a divulgação de trabalhos e experiências educacionais de professores ativos em formação continuada, de maneira efetiva, contínua e eficaz. Para Silva (2013), a construção do conhecimento é um processo resultante da aprendizagem que se inicia com base no conhecimento preexistente dos indivíduos e que se consolida, na Educação a Distância, por intermédio do material didático do curso. Para Holmberg (1989), a EaD se estrutura pautada em dois elementos basilares: 1) curso estruturado e previamente planejado; 2) conteúdo disponibilizado ao estudante em diferentes mídias. Ou seja, a EaD é uma modalidade educacional que também evoluiu com os avanços das TDICs. Isso está deslocando o paradigma tradicional da sala de aula para um ambiente de aprendizagem baseado numa educação mais centrada no aprendiz, que tem se mostrado bastante desafiadora e inovadora (ESTEVES et al., 2008).

Hoje a internet é compreendida como o maior conglomerado de redes de comunicação em escala mundial, por isso é o ponto de partida de onde poderia ser disparado um processo de divulgação de trabalhos e experiências educacionais de professores ativos em formação continuada de maneira efetiva, contínua e eficaz. A internet é um conjunto de tecnologias, um conjunto de redes – redes de computadores que convergem em diferentes lugares do mundo para acesso à informação. Diante dessa realidade não se pode pensar em fazer educação sem se preocupar com os artefatos que esta envolve. 

Motivada por questões como estas, a Diretoria de Extensão da Fundação Cecierj tem como missão criar mecanismos que incentivem e promovam a formação continuada de profissionais da Educação para que participem da sociedade do conhecimento, contribuindo para a prática da coesão social, da cidadania ativa, do diálogo intercultural e da igualdade de oportunidades. A partir dessa realidade, o objetivo deste artigo é mostrar de que forma os professores que participaram, de 2010 a 2013, de uma disciplina de um curso de extensão vêm se apropriando dessas ferramentas. Para tanto, a metodologia de pesquisa utilizada é descritivo-exploratória a partir de uma abordagem qualitativa que, com o intuito de uma análise aprofundada da realidade, adotou o estudo de caso como método de observação.

A Diretoria de Extensão da Fundação Cecierj oferece semestralmente  cursos gratuitos, totalmente a distância, voltados para a atualização e a qualificação profissional de docentes que atuam principalmente na Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio), tendo como prioridade aqueles que se encontram em sala de aula nas escolas públicas. Para participar do curso, os professores devem se inscrever na página dos cursos de extensão oferecidos pela Fundação Cecierj.

O corpo docente é formado por profissionais qualificados com larga experiência na modalidade a distância nas seguintes áreas: Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Linguagens e Códigos, Matemática, Tecnologia Educacional e Prática Docente. Cada área engloba cursos, e cada curso é formado por disciplinas com carga horária de 30h e duração de um semestre. No segundo semestre de 2014, a Diretoria de Extensão lançou novo curso, Qualificação Profissional em Tutoria, com o objetivo de capacitar profissionais da área educacional para atuar como tutores em cursos a distância.

A Diretoria de Extensão constituiu, no primeiro semestre de 2011, o curso de Formação via Web, com o planejamento e consequente oferta de três disciplinas: Formação Continuada em Tecnologias Educacionais na Web, Modelos de Design Instrucional (DI) para material didático: potencializando o processo de ensino-aprendizagem em EaD; e Mediando cursos em AVAs. A elaboração do material didático das disciplinas parte de um modelo de design instrucional aberto (FILATRO, 2008) para cursos on-line, o qual implica, como destaca Silva (2013), um conjunto de reflexão, ação e estratégia para soluções educacionais, com abrangência sistêmica que deve direcionar e envolver todas as fases do processo de ensino-aprendizagem, de modo a potencializar a construção do conhecimento. As disciplinas foram organizadas em etapas distintas, cada uma com objetivos claros, em que são propostos um texto-base, vários textos de apoio e atividades de aprendizagem para que o estudante, pela filosofia do “fazer aprendendo”, verifique se atingiu os objetivos de aprendizagem propostos (FERNANDES et al., 2011).

Até o segundo semestre de 2013, a disciplina Formação em Tecnologias Educacionais na Web era oferecida em dois módulos, cujo objetivo é estimular os professores a usar ferramentas gratuitas da web 2.0 (Google Drive, Twitter, blog e Facebook) em sua prática docente integradas ao AVA Moodle. Entre os participantes, também são promovidas reflexões, discussões e avaliações do uso dessas ferramentas na área educacional. No Módulo 1, os participantes interagem em fóruns via AVA e compartilham o resultado de suas pesquisas na internet a respeito de atividades educacionais que utilizam ferramentas web 2.0. Em seguida elaboram uma atividade educacional que utilize ferramentas web 2.0 e que esteja relacionada à sua área profissional, compartilhando-a em seguida no Google Drive com os colegas e divulgando a atividade criada por meio de uma conta Twitter. Somente os cursistas aprovados no Módulo 1 participaram do Módulo 2, quando disponibilizam num blog a atividade educacional elaborada no Módulo 1, constroem em grupo uma atividade educacional para disponibilizá-la no Facebook e aprendem a construir uma página pessoal no Facebook para utilizar com seus alunos. Nesse módulo também é proposto um fórum para refletir sobre o uso das redes sociais no processo de ensino-aprendizagem (FERNANDES et al., 2013).

Ao final de cada módulo, os cursistas fazem uma autoavaliação e uma avaliação final para obter um feedback do público alvo que possa auxiliar na melhoria de futuras edições da disciplina FCTEWeb. Ao final do Módulo 2, os cursistas já realizaram várias atividades educacionais utilizando Google Drive, Twitter, blog e Facebook; por isso, dentre as questões propostas na avaliação final deste módulo é feita uma pesquisa com os cursistas a respeito da apropriação dessas ferramentas em sua prática docente.

Os períodos das edições do Módulo 2 utilizados nesta pesquisa foram: 2010 – 3º trimestre; 2011 – 2º semestre; 2012 – 2º semestre; e 2013 – 2º semestre. O Gráfico 1 mostra o nível de evolução dos cursistas referente à utilização de alguma ferramenta gratuita da web 2.0. Pode-se observar que é crescente o nível de utilização ao longo do período citado.  

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Gráfico 1: Utilização das ferramentas web 2.0 no período 2010-2013
Fonte: Dados primários.

O Gráfico 2 mostra o nível de evolução em relação ao uso de algumas ferramentas da web 2.0 durante o curso. O que mais chamou a atenção é que em 2010 a ferramenta blog era muito utilizada, o Google Drive começava a ser utilizado e não aparecia ainda o uso do Facebook. No entanto, nos períodos subsequentes, observa-se que as ferramentas Facebook e Google Drive começam a se sobressair, apesar de a ferramenta blog continuar presente na prática docente dos professores cursistas.

Que ferramentas Web 2.0 utilizou?
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Gráfico 2: Que ferramentas web 2.0 utilizou (período 2010-2013)
Fonte: Dados primários.

Nos dias atuais, a educação vislumbra uma reforma curricular, um modelo híbrido de ensino, e nessa direção a atenção de instituições de ensino e pesquisadores da área vem sendo potencializadas quando o assunto é mídias e múltiplas plataformas de ensino-aprendizagem. A Sociedade do Conhecimento percebe a necessidade de passar a ser a protagonista no processo de aprendizagem, e instituições de ensino de sucesso precisam perceber que é necessário deixar de lado o papel de detentoras do conhecimento em que a aprendizagem, na grande maioria, ainda é resultante em grande parte da transmissão de informações para uma aprendizagem em que o resultado é a potencialização da competência dos indivíduos.

Considera-se que a EaD não é uma distribuição da educação a granel, por isso é necessário investir e repensar as práticas, e nesse sentido é preciso convergir para uma apropriação das mídias com a ampliação do processo ensino-aprendizagem. Para tanto, se considera que plataformas multimidiáticas potenciais para a educação devem ter traços filosóficos e metodológicos que proporcionem ao estudante a condição de aprender como resultante do processo de construção do seu conhecimento.

A inovação transcende a sala de aula tradicional. Numa proposta de educação virtual, os dados desta pesquisa mostraram a crescente procura dos professores pelos cursos de extensão da área de Tecnologia Educacional à luz da convergência midiática – uma nova realidade cultural que desafia e amplifica possibilidades na sociedade contemporânea. Pode-se observar também, por esta pesquisa, um número crescente e contínuo fazendo a proposição de design instrucional para cursos que versem sobre aprendizagem significativa e colaborativa sem limites, de modo a fazer links desbravando caminhos antes impensados, excluídos do ensino tradicional.

Com base nos resultados apresentados e no intuito de atender ao objetivo desta pesquisa,observa-se que a convergência midiática no processo de ensino-aprendizagem é uma realidade e precisa ser considerada no cerne das discussões e práticas educacionais com o objetivo de avançarmos em modelos pedagógicos, passando do modelo um-para-muitos (mídia de massa) para o modelo um-para-um. Ou seja, o conceito de massa é atenuado e as limitações, como tempo e espaço, são gradualmente minimizadas, o que implica um novo perfil de sociedade. Isso exige uma nova forma de pensar a Educação, transcendendo a passividade e a autonomia e passando à interação e à colaboração.

Embora esta discussão, com base nos resultados apresentados, possa se mostrar simplista, uma vez que  bastaria uma reforma didática e a inclusão de mídias interessantes, a capacitação e a iniciativa dos docentes por esta nova prática são fundamentais. Para tanto, são essenciais o apoio e o incentivo institucional, de modo que se provoquem rupturas, promovam a interatividade e a correlação dos saberes por meio de nós de rede, eliminando as fronteiras rígidas em que o professor era o detentor do conhecimento e o estudante era mero receptor.

Dada a relevância do tema abordado aqui sugere-se que equipes multidisciplinares envolvidas em projetos de EaD, design instrucional, que abarquem a convergência das mídias, promovam novos estudos profundos nesta área, considerada carente de práticas e pesquisas profundas. Sendo assim, a contribuição deste artigo concerne a uma reflexão, ainda que inicial, a respeito do princípio das mídias do conhecimento e suas implicações na participação de usuários nas multiplataformas.

Referências

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Publicado em 04 de novembro de 2014