Bach

Luis Estrela de Matos

Um divino som nos atinge em cheio
Rachamos ao meio em duas partes
Desiguais
e talvez agridoces
Metade feliz e outra um bocado infeliz,
Dolorosamente infeliz.
Ele sempre faz isso conosco
Tem a alma em forma de um órgão
imenso e sacro
(não há lugar para a indiferença
Jamais ele seria modernista).

E cindido, cortado, despedaçado, enfim,
Tento me reerguer
por entre meus olhos
nesses tubos infernais
Que sobem goticamente rumo a um infinito sem fim
De tão cósmicos azuis
e nuvens que desconheço

Ele não me faz pequeno,
Ele só me faz querer esticar o corpo,
rasgá-lo se possível for,
e dilacerar a alma em sucessivas expansões
como as ogivas e nervuras de tantas vozes
que habitam seus acordes mais incontornáveis
num teto espantosamente crivado
de milagres musicais e multicoloridos.
Tento não continuar nesta mediocridade reinante
crepuscularmente contemporânea
E resolvo me cortar, me ferir
nos imensos vitrais que me faço na vida

Não sou mais eu,
e isso é Bach!

Publicado em 02 de dezembro de 2014