A viagem é um convite para estética da vida

Arthur Vianna Ferreira

Filósofo e doutor em Educação (PUC-SP); Tutor da Fundação Cecierj nos cursos de atualização de Filosofia

O período de férias é sempre um dos momentos mais desejados na vida de todos os que se dedicaram a um ano de trabalhos e realizações. Na verdade, a viagem é um momento de projeção do ser na ociosidade que compõe a sua existência. Se por um lado o trabalho significa o domínio do homem sobre a natureza, por meio da transformação no meio ambiente e social em que ele se encontra, o ócio se apresenta como possibilidade de encontro do homem com a matéria-prima da sua própria existência, o vazio a ser preenchido com suas habilidades e competências no mundo. O descanso, para além de ser apenas a recuperação de forças biológicas e psíquicas para a continuação da tarefa humana de dar significado à sua existência, é o momento em que o homem se percebe como ser para além de sua força física de trabalho diário, mas pensamento que se declina sobre novas paisagens e possibilidades de conhecer o mundo – e mundos – eclético ao seu cotidiano.

Por isso, as viagens de férias se tornam esse espaço em que o ser é capaz de uma transposição física do local comum para um espaço de descoberta e de novidades. As viagens promovem nas pessoas três etapas importantes da organização do ser no mundo: os ritos preparatórios da viagem, o momento presente vivido e as memórias.

A preparação para a viagem é um desses espaços de projeção do ser no mundo. Constituindo-se como meta de médio prazo, a viagem passa a ser organizada pela pessoa em seus principais aspectos, movimentando desejos e colocando a pessoa em constante exercício de controle de seus anseios e expectativas. Uma das características da pessoa madura é a capacidade de postergar os seus desejos em prol de algo momentâneo, necessário e importante para o seu contexto social. Isso não significa que a pessoa deverá abrir mão de suas vontades, mas ser capaz de perceber que a vivência com o grupo social exige de cada um de nós certo autodomínio de nossas pulsões. Quando estas são bem aplicadas, podemos aproveitar essa força libidinal, como se expressa na teoria de Freud, para atividades que expressem a força interna dos indivíduos e sua proposição no mundo.

O momento da viagem é realmente um exercício do ser-estar no mundo. Fora do seu ambiente comum, como uma praia, uma casa na montanha, o contato com uma cultura estrangeira ou até mesmo uma trilha na Floresta da Tijuca, as pessoas são colocadas em diversos ‘espaços-tempos’ distintos, tornando-se capazes de fazer experiências sensoriais que não encontrariam em seu cotidiano e exercitando sua abertura a diferentes realidades. As viagens promovem encontros de alteridade, em que o outro-distinto ganha determinada relevância diante da realidade presente. Entrar em contato com esse outro que encontramos em nossas viagens ajuda a perceber que a nossa existência é bem mais do que o cartesianismo vigente na sociedade ocidental. Somos seres que pensamos, mas também sentimos, desfrutamos, somos afetados pela realidade e por isso existimos. Pensar na possibilidade de uma existência carregada de sentidos que são estimulados com o contato das diversas vivências que realizamos ao longo da vida pode ser um dos elementos que nos ajudam a usufruir de nossas viagens.

Outro aspecto que parece importante ressaltar é que as viagens nos desafiam e nos colocam em possíveis situações de limite que se fazem necessárias para a construção de uma criatividade sutil e elementar de nossas vidas. As malas extraviadas, os dias de chuva na praia e a perda dos horários de passeio se transformam em possibilidades de exercícios de criatividade nas quais a realidade que se apresenta pode explorar nova reorganização da vida. A fixidez e a estabilidade são ilusões e convenções necessárias, porém não são verdades absolutas. Nossa vida é constituída dessas constantes mudanças e acostumar-se com elas é a busca de viver a existência humana. O pensamento filosófico de Sartre, de que somos condenados à nossa própria liberdade, deve nos impulsionar a essa responsabilidade de sermos conscientes de que tudo que vivemos são desdobramentos da nossa existência com os demais. E por que essa realidade seria diferente em nossas viagens?

Em seguida às etapas descritas, as viagens produzem memórias. O grande perigo não está nas memórias, mas ficarmos presos a elas. Algumas pessoas valorizam mais esse elemento do que as próprias viagens. A vida virtual que escolhemos nos responsabiliza por sua manutenção constante a partir de fotos, pensamentos, frases, vídeos. O nosso lobo temporal, região do córtex onde se encontra grande atividade correspondente às memórias da vida, ficou pequeno. Fazem-se necessários vários terabytes para colocarmos todos os posts e curtidas das nossas férias e viagens. Esse apelo parece novo, mas não é. A tentativa de eternizar o homem no tempo-espaço é antiga e remonta aos túmulos, estátuas, pirâmides, monumentos, obras, livros e teorias ao longo da história da humanidade. A ideia de eternização do presente é uma tentativa do homem de escapar do pensamento sobre sua finitude, ou seja, do seu ser-para-a-morte. A memória é um dos principais resquícios que as viagens promovem em cada um de nós. E todo o esforço de recordação do momento se faz presente nas máquinas fotográficas, celulares e câmeras de vídeo.

As viagens se transformam em um exercício para as nossas memórias de curto e longo prazo, embora o grande desafio devesse ser concentrar-nos na memória sensorial. As imagens de uma viagem deveriam colar em nossas retinas e suas sensações deveriam nos levar a ter esse encontro com a nossa epiderme racional, na qual deixaríamos os sentidos se associarem aos pensamentos que essa relação nos provoca. A areia sentida por entre os dedos dos pés, o cheiro das plantas, o olhar perdido sobre um quadro milenar, tudo é motivo para novas descobertas, sensações e racionalidades.

A viagem é um convite para a estética da vida, em que o pensamento relaxa e nos coloca em contato conosco e com os outros do mundo. O espaço de férias passa a ser o exercício de outra de forma de racionalidade que não passa pelo pensar ou fazer, mas pelo sentir e existir.

As viagens são espaços fecundos de encontros e de crescimento que exigem o desgarrar-se das verdades construídas no cotidiano para novas possibilidades de vida. O propósito primeiro da viagem não é descanso, mas o fortalecimento de nossa empatia com o mundo a ser descoberto. Neste espaço exercitamos a nossa criatividade e os sentimentos necessários para sermos pessoas mais presentes em nossas escolhas pelo mundo.

Boas viagens para todos. E excelente regresso a um mundo de trabalhos a serem realizados nesta etapa de nossas vidas.

Publicado em 16 de dezembro de 2014