As diferenças entre o ensino municipal e estadual do Rio de Janeiro na visão dos alunos

Mariana Cruz

Muitas vezes, em vez de nos debruçarmos sobre teorias, dados e estatísticas para saber a opinião de um grupo sobre determinado tema, é mais simples ir ao ponto e perguntar diretamente aos indivíduos. Há alguns anos, eu tinha que escrever um texto sobre as diferenças entre as escolas públicas e as privadas no Rio de Janeiro; li diversos artigos sobre o tema e todos me pareceram muito teóricos. Foi quando resolvi pedir a opinião de meus alunos (nessa época dava aula nas redes pública e privada) sobre o que pensavam de seus respectivos colégios. Eles fizerem uma redação sobre o tema e nela aparecia claramente o abismo que havia entre os dois tipos de escola sem que eles em qualquer momento fizessem tal comparação de forma direta. Percebi como a demanda de cada grupo era bem diferente. Enquanto os alunos do ensino particular discutiam acerca da pedagogia da escola, os da rede pública reclamavam da sujeira do banheiro, da água quente do bebedouro e das carteiras quebradas.

Mas o tempo passou – essa matéria foi publicada em 2007 – e algumas coisas mudaram no ensino público. Pelo menos nesta escola posso garantir que o banheiro está bem mais limpo, as carteiras são todas novas e a água no bebedouro, bem, esta às vezes está gelada, outras, meio quente. Certamente hoje o depoimento dos alunos seria bem diferente do que naquela época.

Porém... E as comparações entre as diferentes redes públicas de ensino – a saber, estadual e municipal? Como será que os alunos as avaliam? Pensando nisso, solicitei a um grupo de estudantes do primeiro ano do Ensino Médio da rede estadual que fizessem uma comparação entre o ensino do estado e o do município (afinal, todos eles tinham feito o Ensino Fundamental na rede municipal). Pedi que fizessem uma redação na qual  expusessem sua visão sobre as mudanças que sentiram de uma escola para outra.
Elizabeth, 16, disse que não gosta de sua escola atual. Tinha muitas expectativas ao mudar de escola, mas não fez novos amigos e não gosta da maioria dos professores. Ressalta que era bem diferente quando estudava no município. Lá gostava de todos os professores, sobretudo do de Matemática e do de História. Tinha muito mais proximidade com a direção da antiga escola. Diz que, no estado, "as diretoras não têm aquela proximidade com os alunos, aquele momento de discutir o que está se passando na escola".

Carina, 16, não vê diferença alguma entre o ensino público municipal e o estadual do Rio de Janeiro. Considera ambos fracos demais. Apesar disso, ao longo de sua redação, fez diversas comparações. Segundo ela, no Ensino Fundamental os professores "ficam mais em cima dos alunos". Relata uma cena que viveu assim que chegou ao Ensino Médio: "um professor que passou a matéria no quadro e simplesmente saiu da sala sem dizer nada, e a sala estava a maior bagunça, sem ninguém copiar. Achei um absurdo porque ele não ligou pra (sic) ninguém". Ela criticou a distância entre os alunos e a diretoria ("até bem pouco tempo nem sabia quem era a diretora"), reclamou dos baixos salários dos professores e concluiu que "assim fica difícil o Brasil mudar, pois tudo começa por nós, jovens”.

Evelyn, 16, também prefere a época em que estudava no município, mas os motivos apontados não estão relacionados à qualidade de ensino – já que considera o ensino do estado "bom demais". Parece ter uma ligação afetiva, que remete a uma época boa da sua vida ("meus amigos, brincadeiras, risadas, festinhas de criança"). Por outro lado, considera o Ensino Médio "meio complicado, por já ter mais pessoas, sem brincadeiras e muitas responsabilidades”.

A estudante Jaine, 17, é daquelas que pensam com o estômago. Afirma não ter muita diferença entre os dois ensinos, mas "a comida do Ensino Médio e os lanches são muito melhores que as refeições do Ensino Fundamental". Ainda de acordo com ela, o nível de ensino dos dois é o mesmo, "nem bom, nem ruim. Os dois têm muito que melhorar, não só no conforto, mas na qualidade". Ela sugere que tenham "mais profissionais capacitados e dispostos a se dedicar aos alunos e fazer da aula uma diversão, uma aula diferente, descontraída”.  Outra que também prefere a escola estadual é Caroline, 15; ela diz que a escola municipal em que estudava era muito diferente da sua escola atual. Lá havia "muitas cadeiras quebradas, o quadro (negro) todo ruim, as portas dos banheiros quebradas". Mas nem tudo é negativo: "as comidas eram boas e os professores eram todos excelentes". Em relação à escola estadual em que estuda tem vários elogios, além da comida, que também acha boa: "os professores são maravilhosos e os funcionários são legais”.

Grazielle, 16, diz preferir a escola municipal por diversas razões: "tinha mais atividades físicas, menos matérias e a gente saia cedo. Só do que não gostava era da comida. Já o colégio estadual tem mais matérias, poucas atividades físicas e a gente sai tarde". E conclui: "cada escola me mostrou e me ensinou coisas diferentes”.

Para Dayara, 16, "o ensino da rede municipal e estadual é o mesmo; (...) nos dois tipos de ensino, na maioria da vezes, as condições são péssimas para estudar. Para mim essas redes de ensino só mudam o nome". Diz que em ambas as redes os alunos "mal têm o direito de opinar, pois não temos contato direto com a diretoria". Em dado momento, porém, ameniza as críticas: "também não só existem coisas ruins, existem muitas pessoas esforçadas em ensinar aos alunos".

Se analisarmos atentamente tais elementos, vemos que algumas opiniões se repetem, se completam, coincidem. Mesmo que não possam ser consideradas estatisticamente devido ao número reduzido de entrevistados, elas apontam para as melhorias que vêm sendo feitas em ambas as redes e mostram que ainda há muito para ser feito. Fiquemos atentos e escutemos a opinião dos alunos, que, juntamente com os professores, são os principais interessados na melhoria de qualidade do ensino público. Sejamos uma dessas pessoas a que Dayara se refere: "mesmo sendo muito difíceis as condições da educação pública no Brasil, ainda existem pessoas que têm esperanças de que tudo isso melhore".

Publicado em 13 de janeiro de 2015