O texto hipertextual: um novo formato de leitura?

Silvio Profirio da Silva

Auxiliar de Desenvolvimento Infantil na Secretaria de Educação, Esportes e Lazer (Prefeitura do Recife); mestrando em Linguística e Ensino (UFPB)

Palavras iniciais

Cereja e Cochar demonstram como a web, mais especificamente o texto hipertextual, instiga alterações e modificações nas habilidades linguísticas de leitura e escrita: “com o surgimento e a popularização da internet, alterou-se profundamente a noção de texto. Na internet, o processo de ler ou escrever um texto deixou de ser linear, ou seja, da esquerda para a direita e de cima para baixo, com um procedimento de cada vez” (2009, p. 23).

De acordo com Silva (2009, p. 87), “os suportes textuais exercem influência no modo da leitura, pois, dependendo do suporte, a relação do leitor com o texto será diferente”. Nessa perspectiva, o suporte textual incute modificações no ato de ler. Em outras palavras, a alteração no processamento textual é reflexo dos elementos linguísticos materializados em um dado suporte textual. O suporte hipertextual traz consigo uma gama de elementos textual-discursivos provenientes da web. Tais elementos vão suscitar novos formatos de ler. Isso está em consonância com Silva (2014; 2015).

Recorrendo, teoricamente, aos postulados de Cereja e Cochar (2009), Coscarelli (2009), Dalmaso e Mielniczuk (2012), Silva (2014), Xavier (2003; 2010), entre outros, este trabalho tem por objetivo refletir sobre como o texto hipertextual origina novos formatos de leitura. Buscamos conhecer o texto hipertextual, seus elementos discursivos e qual o papel eles exercem no ato de ler.

O hipertexto: como ele modifica a leitura?

Segundo Coscarelli (2009), o hipertexto consiste em um formato textual marcado linguisticamente por links e/ou hiperlinks, os quais agem como elos de conexão/união com outros textos. Isso está em consonância com Xavier (2003, p. 283), que conceitua hipertexto como “tecnologia enunciativa que se atualiza no suporte digital e se interconecta instantaneamente com outros hipertextos on-line”. Dessa forma, a natureza constitutiva do hipertexto tem como marca essa perspectiva de articulação e junção com outros textos relacionados por algum aspecto. Na maior parte dos casos, essa relação é de cunho temático.

No texto hipertextual, a distribuição da informação e o acesso do leitor ao texto irão adquirir novos formatos. Isto é, a informação não é materializada em um único texto. Com isso, o leitor sempre terá opção de outro construto textual (leia-se texto) relacionado à temática em tela. Ora, o leitor adentra em um dado texto, podendo a qualquer momento adentrar em outro construto textual subsequente, como defende Xavier (2003; 2010). Nesse ato, os links e/ou hiperlinks assumem papel de substancial relevância: os links instigam a passagem do leitor para uma sucessão de textos subsequentes.

Os hiperlinks são estrategicamente construídos para levar o hiperleitor a lugares outros na rede. Lê-se um hipertexto navegando pelos textos verbais, imagens e figuras estáticas e dinâmicas nele ancorados. Ao abordá-lo, o hiperleitor pode lê-lo linearmente do início ao fim dentro de um mesmo site ou pode realizar desvios pelos hiperlinks, explorando as digressões. Os hiperlinks, espalhados pela superfície das páginas eletrônicas, estão prontos para serem acionados. Uma vez postos em operação, abre-se espaço virtual para o encadeamento da hiperintertextualidade que vai se enovelando até o infinito virtual (XAVIER, 2003, p. 285-286).

Na ótica de Xavier (2003; 2010), o hipertexto traz consigo a diversidade de registros da linguagem. Ou seja, a linguagem verbal escrita, a sonora e a visual. Essa união/soma de formas da linguagem recebe o nome de multissemiose e/ou pluritextualidade. Diante dessa perspectiva, o hipertexto é um texto construído não só por intermédio de elementos alfabéticos como também de animações, arquivos de áudio e vídeos, galerias de imagens, ilustrações marcadas pela inércia e movimentação, gráficos, músicas e sons, entre outros elementos textual-discursivos. Para Xavier, essas novas marcas discursivas carreiam alterações no processamento textual e, por conseguinte, nos processos cognitivos de leitura.

Aprofundando a discussão sobre o novo formato adquirido pela leitura em virtude do suporte hipertextual, Xavier (2010) evidencia que o texto hipertextual erradica a perspectiva da linearidade e da hierarquia textual. Isso se dá porque, durante o decorrer da leitura, o leitor irá se deparar com caminhos que o levarão a outros construtos textuais (leia-se textos). A leitura do texto impresso faz com que o leitor, na maior parte dos casos, siga a sequência e a hierarquia das informações, isto é, leia do início até o final do texto. No hipertexto, essa linearidade é erradicada, na medida em que o leitor pode a qualquer momento sair do texto e da leitura inicial, partindo para outra subsequente. E, para tal, é necessário apenas clicar em um dado link. Tal postura é o que Xavier (2010) conceitua como “leitura self-service”.

Nesse ponto, é necessário abordar o papel do leitor na continuidade da leitura. Silva (2009) mostra que a condução da leitura é reflexo das escolhas e das opções efetuadas pelo leitor. Este irá especificar o roteiro e a trajetória da sua leitura. Ou seja, ao se deparar com a multiplicidade de links presentes na superfície do texto hipertextual, o leitor vai decidir como será o transcurso da sua leitura. Em um dado momento da leitura do texto inicial, o leitor opta por clicar em um link, o que vai propiciar sua passagem para outro texto e, consequentemente, para outra leitura. Essa escolha do leitor por clicar em determinado link especifica o percurso da sua leitura. Assim, o roteiro e a trajetória da leitura no suporte hipertextual é atribuição do leitor. Isso está em sintonia com Saldanha (2006), que conceitua essa perspectiva como “leitura eletiva”.

Dalmaso e Mielniczuk (2012) aprofundam ainda mais o debate teórico acerca da leitura tendo como base o texto no formato hipertextual. As autoras demonstram que, em função do formato hipertextual, as informações materializadas no corpo do texto serão alongadas e ampliadas. Ainda que essa ampliação do fluxo informacional não aconteça em uma mesma página, a leitura do texto no suporte hipertextual é marcada por uma perspectiva de não fechamento e não finalização textual. Sendo assim, a leitura do texto hipertextual é pautada na “continuidade temática e textual”, em face das leituras subsequentes.

Algumas considerações

Diante dos estudos realizados, foi possível constatar que a organização estrutural do texto hipertextual materializa distintos elementos discursivos; estes deflagram novas formas e maneiras de ler o texto. Em outras palavras, os elementos dispostos na arquitetura do documento hipertextual erradicam o fechamento, a finalização e a terminação do contingente informacional do texto, como defendem Dalmaso e Mielniczuk (2012). Entre tais elementos, podemos mencionar os links, que facultam o acesso do leitor a uma série ininterrupta de textos marcados por uma relação temática.

No entanto, o encadeamento textual não é a única marca/traço que reflete esse novo formato de leitura deflagrado pelo suporte hipertextual. Aludimos, nesse ponto, à sequenciação da leitura que é materializada a partir do leitor e da sua opção. Quando o leitor clica em um link e tem acesso a outro texto, ele está simultaneamente especificando o trajeto da sua leitura e dando continuidade ao fluxo informacional. Nesse sentido, o texto hipertextual enseja um novo formato de leitura ancorado na ampliação, na continuidade e na complementação do conteúdo informacional, como salientam Dalmaso e Mielniczuk (2012).

Referências

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COSCARELLI, C. V. Textos e hipertextos: procurando o equilíbrio. Revista Linguagem em (Dis)curso, Palhoça-SC, v. 9, n. 3, p. 549-564, 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ld/v9n3/06.pdf. Acesso em: 14 fev. 2015.

DALMASO, S. C.; MIELNICZUK, L.. Hipertexto e linkagem: apontamentos sobre aspectos constituintes de uma linguagem digital. In: PERUZZOLO, A. C.; MAGGIONI, F.; PERSIGO,
P. M.; WOTTRICH, L. H. (org.). Práticas e discursos midiáticos: representação, sociedade e tecnologia. Santa Maria: FACOS-UFSM, 2012, p. 237-255. Disponível em: http://www2.eca.usp.br/Ciencias.Linguagem/LII_Luciana.pdf. Acesso em: 16 fev. 2015.

SALDANHA. C. D. A informação como semiformação nas práticas de leitura no ciberespaço. Revista Tempo da Ciência, v. 25, p. 129-143, jan./jun. 2006. Disponível em: http://e-revista.unioeste.br/index.php/tempodaciencia/article/download/1533/1251. Acesso em: 15 fev. 2015.

SILVA, A. C. B. Gêneros textuais em novo suporte: os softwares educativos. In: BEZERRA, B. G.; LUNA, J. N. Língua, literatura e ensino: subsídios teóricos e aplicados. Recife: Edupe, 2009.

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XAVIER, A. C. S. Leitura, texto e hipertexto. In:MARCUSCHI, L. A.; XAVIER, A. C. S. (orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. São Paulo: Cortez, 2010.

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Publicado em 23 de junho de 2015