A Educação Ambiental é uma disciplina?

Any Bernstein

Professora da Fundação Cecierj

Riva Roitman

Professora da UFRJ

A Educação Ambiental tem como objetivo final trabalhar a relação da sociedade com o ambiente a partir do entendimento das causas e consequências da ação humana sobre a natureza. Conteúdos e reflexões produzidos durante o processo de Educação Ambiental que representem diferentes formas de pensar o bem comum precisam ser sistematizados pedagogicamente.

Mas será que o conhecimento deve ser sempre sistematizado em disciplinas? A fragmentação de conteúdos é desejável quando se aborda o meio ambiente? Pare e Pense!

Problemas decorrentes de abordagens interdisciplinares sugeridos nos PCN

A interdisciplinaridade, sob a ótica do MEC, veio para contrapor a segmentação entre os campos de conhecimento; essa fragmentação induz a uma visão compartimentada e restrita da realidade.

No currículo escolar brasileiro, o tema água, por exemplo, é apresentado de forma interdisciplinar, com conteúdos dispersos entre disciplinas como Química e Físico-Química do meio aquoso, Biologia, aplicações nas engenharias, entre outros. Esse modelo interdisciplinar pressupõe que os estudantes e os profissionais façam a ligação desses conhecimentos, aplicando-os na solução de problemas do meio ambiente.

Analisando a poluição ambiental, urbana ou rural, do solo, das águas ou do ar, verifica-se que não é algo só "biológico", só "físico" ou só "químico", pois o ambiente, poluído ou não, extrapola as fronteiras de qualquer disciplina, exigindo, para que a problemática socioambiental possa ser mais adequadamente equacionada, além das Ciências da Natureza, também as Ciências Humanas (http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencias.pdf).
Normalmente, professores de diferentes disciplinas só participam do trabalho interdisciplinar quando o projeto é uma imposição institucional. A justificativa para a baixa adesão parece ser a exigência de que o professor compartilhe com os colegas sua forma de trabalhar; nem todos os professores se sentem à vontade para explicitar o seu trabalho pedagógico.

As razões para isso podem ser diversas: receio da crítica ao seu trabalho e/ou consequência da ausência da cultura da interdisciplinaridade na escola? Será que a formação do professor segundo uma prática pedagógica tradicional que compartimentaliza os saberes em diversas disciplinas dificulta o ensino interdisciplinar?

A visão moderna transdisciplinar: o que muda?

Deliberações e documentos feitos nos encontros de educadores e pesquisadores em ensino levam a mudanças na matriz das políticas educacionais, que, embora significativas, ainda não implicaram progresso. Por que será?

Passados 15 anos da introdução dos PCN, os alunos continuam apresentando dificuldades para transpor, mobilizar e utilizar o conhecimento construído em situações novas e na resolução de problemas formulados a partir de situações reais do cotidiano.

Como medida corretiva, as diretrizes curriculares para a Educação Ambiental do MEC/CNE (2012) recomendam a transversalidade: temas de interesse devem ser priorizados e contextualizados de acordo com as realidades locais (aprender na realidade e da realidade).

A abordagem transdisciplinar de qualquer contexto da realidade exige que o sujeito se insira nela considerando aspectos científicos, filosóficos, sociais e políticos. A transdisciplinaridade ocorre quando há uma aproximação interdisciplinar de tal ordem que faz emergir dados novos que articulam as disciplinas entre si e oferecem uma nova visão da natureza e da realidade.

Eventos catastróficos precisam ser interpretados de forma holística, utilizando conhecimentos científicos das ciências da natureza (Biologia, Química, Geografia, Geologia etc.) e daqueles derivados da Economia, da Sociologia e da História. Ao promover a convergência dos saberes do conjunto das Ciências sem procurar fronteiras entre as várias disciplinas, há a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.

No entanto, para atingir esses novos objetivos, as disciplinas precisam ser repensadas e reapresentadas com foco em temas atuais e amplos o suficiente para permitir conexões intra e interdisciplinares→ transdisciplinaridade.
A transdisciplinaridade pode ser ilustrada pelo esquema sobre a complexidade da Educação Ambiental.

Só por meio da transdisciplinaridade será possível produzir o desenvolvimento científico-tecnológico de alcance econômico, político, social e cultural na vida da população.

Para enfrentar desequilíbrios ambientais, há que se compreender as inter-relações entre diversas situações reais que abrangem conhecimentos de ciências naturais, econômicas, sociais e de direito ambiental, sem fronteiras! Fazer a ponte entre esses conhecimentos não é uma tarefa trivial e não pode estar reduzida a uma disciplina específica.

Publicado em 07 de julho de 2015

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.