Terra devastada

Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia do IFRN

Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam nos seduzir com seu conforto e, ao mesmo tempo, nos prender como quando se cai em uma armadilha.

Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que exista algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fôssemos apartados, cindidos, separados.
A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo a distância pelas janelas desse quarto.

As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós. Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.

O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na Filosofia Contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossa sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta às antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da Terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um Eu intangível que se esconde por trás de suas paredes.

Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de ‘terra devastada’. Quando Stanley Keleman, coordenador do Centro para Estudos Energéticos, em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devastada começou a ser pensado.

A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo; é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreender a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da Terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar neste mundo.

O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell, da Summus). A conexão de nosso self com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos em que a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar, é expressa por meio da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não pode ser contada sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice...

Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.
Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõem nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh... Não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente.

Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.

Publicado em 21 de julho de 2015