Desenvolvimento, sustentabilidade e Educação Ambiental: uma análise contributiva de Paulo Freire

Josué Barreto da Silva Júnior

Mestrando em Recursos Naturais (UFCG)

Hélio de Oliveira Nascimento

Professor titular do Departamento de Geografia (UEPB)

A relação sociedade-natureza, ao longo do processo histórico, tem se desenvolvido por meio de processo de exploração, no qual a primeira se apropria da segunda, buscando subsidiar suas satisfações, necessidades e desejos. Assim, resulta dessa relação, a intensiva produção de externalidades (positivas e negativas), gerando em alguns casos rupturas irreversíveis nos ciclos ecossistêmicos e a geração de vulnerabilidades socioambientais. Em função desse processo, têm sido enfatizadas questões como a reafirmação do paradigma social dominante; o aprofundamento e a naturalização da ideologia de produção em massa e consumismo exacerbado; e o desrespeito à capacidade de suporte dos ecossistemas na busca incessante de obtenção de matérias-primas (visando o aumento da margem de lucro das indústrias e monopólios produtivos), ao mesmo que todas essas questões convergem para a intensificação das desigualdades sociais econômicas e ambientais.

Dada tal conjuntura, como realizar as transformações e rupturas necessárias do atual modelo social, econômico e filosófico? Ao mesmo tempo que superar os desafios para implementação do desenvolvimento sustentável e da sustentabilidade? Desse modo, visando à obtenção de tais respostas, objetiva-se neste trabalho compreender a relevância dos estudos de Paulo Freire no que se refere à constituição do saber ambiental, ao mesmo abordá-los mediante uma proposta de desenvolvimento sustentável. Buscou-se compreender a Educação Ambiental com a aplicabilidade dos estudos de Freire, dentro de uma proposta de concepção pedagógica libertadora.

A corrente pedagógica libertadora está filosoficamente ligada à corrente ideológica anarquista, disseminando a perspectiva de autonomia e liberdade do ser. Na perspectiva educacional/institucional, essa corrente direciona-se à concepção de autogestão, em que cada grupo possuiria a sua gestão; a ideia de escola seria norteada pela autogestão, ou seja, uma escola autônoma, com currículo e metodologia implantados pelo formato de gestão por conselho. Os conteúdos são voltados à realidade em que se insere o educando; o professor é um mediador, catalisador no que se refere ao aprendizado do aluno, com a valorização do conhecimento adquirido pelo educando na sua vivência cotidiana.

Dado o processo de apropriação dos recursos naturais e a reafirmação do paradigma social dominante, concomitante à filosofia de produção em massa e consumismo exacerbado, desrespeitando a resiliência dos ecossistemas e ampliando-se a necessidade de compreender o processo de desenvolvimento econômico, concomitante à avaliação dos níveis de intervenção antrópica sobre o ambiente, construíram-se ao longo dos últimos anos tecnologias de exploração e alternativas pela gestão dos recursos naturais visando uma perspectiva de implementação do “desenvolvimento sustentável”.

Uma das vias de aplicação dos postulados da sustentabilidade do desenvolvimento está condicionada à incorporação de novos paradigmas metodológicos de planejamento de políticas públicas que respeitem a vinculação meio ambiente-desenvolvimento, tendo em vista influenciar a construção de uma nova relação homem-natureza, no processo de apropriação e utilização do meio natural. Dessa maneira, dois aspectos de ordem social, cultural e econômica devem ser levados em questão:

  1. a grande demanda populacional, que passa a aglomerar-se nos centros urbanos, causando um processo de esvaziamento demográfico do campo, sendo o “morar na cidade” um falso sinônimo de qualidade de vida e de acesso a um emprego;
  2. o ritmo e a necessidade impostos pelo sistema em vigência para implantar um modelo de consumo que pudesse casar a proposta de produtividade com a absorção de todos os produtos por parte da população, que é vista como consumidora; dentro dessa lógica, surge o que conhecemos como consumismo.

Diante das características da sociedade atual, os desafios que enfrentamos e enfrentaremos estão relacionados com a promoção de justiça social, justiça nacional e entre nações; justiça entre a geração presente e a geração futura; justiça entre os seres humanos e as demais espécies vivas; e com a promoção da prudência ambiental (Sachs, 2012). O homem é uma espécie autodestrutiva e, curiosamente, é a única que tem consciência da morte. A ocorrência de desastres ambientais resultantes da sua atividade que, por sua vez, promove desconforto na sua própria vida, não é suficiente para que suas atitudes ambientalmente imprudentes cessem. O homem precisa aprender a consumir. O instinto da modernidade é o consumo.

O consumo material não implica felicidade, mas é necessário que todos tenham acesso a uma renda que garanta acesso a uma vida decente. O homem precisa ter tempo para usufruir sua condição de ser vivo, não sendo submetido a jornadas de trabalho que lhe neguem desfrutar de atividades culturais e lúdicas. Se a sociedade imprimir padrões de vida que retirem do homem essa possibilidade, pode causar um “colapso nervoso geral”; assim, quanto antes forem reduzidas as desigualdades sociais, maiores são as chances de sucesso para a espécie humana como um todo (Sachs, 2012).

Para Sachs (1995), o desenvolvimento deve apresentar o social no comando, o ecológico como restrição assumida e o econômico recolocado em seu papel estrutural. Atingir o desenvolvimento sustentável requer modificação de estilo de vida; dessa forma, devemos agir como o precavido Prometeu ou o inconsequente Epimeteu? Uma das principais questões que fundamentam a ideia de degradação é o distanciamento que o homem faz do meio ambiente, como se não fizesse parte dele, de acordo com Webber (1997).

Na busca da identificação dos impactos dos estudos de Paulo Freire para a formulação da Educação, em especial para a Educação Ambiental, torna-se importante compreender o enquadramento dos aspectos teóricos e metodológicos em que este se insere, ao mesmo tempo que identificar quais as contribuições podem ser assimiladas durante o processo de aplicação de uma práxis da Educação Ambiental. Dessa forma, Freire desenvolve papel de destaque, sendo um dos grandes influenciadores da Educação moderna, seus estudos constituem a base para a formulação e desenvolvimento de estudos ligados à Pedagogia, bem como aos processos de ensino-aprendizagem.

Entre as obras desenvolvidas por Freire, destacam-se: Pedagogia do Oprimido e Educação como prática de liberdade; a primeira apresenta uma visão critica sobre o processo denominado “educação bancária e educação problematizadora”. Segundo Freire (1982, p. 66), “o método da concepção bancária é a opressão, o antidiálogo”. Configura-se então a Educação exercida como prática da dominação, “em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receber os depósitos, guardá-los e arquivá-los”. Na educação problematizadora, “para o educador-educando [...] o conteúdo programático da Educação não é uma doação ou imposição, mas a revolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada”.

A ideia de libertação, fundamentada de acordo com a proposta de libertação que se apresenta de acordo com Bacelar (2001), é "uma pedagogia utópica e esperançosa, orientada para o futuro, construída a partir de sonhos possíveis, fiel ao compromisso histórico que exige a denúncia da sociedade existente e a vontade de uma sociedade futura melhor, com base numa teoria da ação transformadora do homem-sujeito na (e da) História”.

Compreende uma abordagem critica no que se refere à Educação, que é um processo que, em suas linhas tradicionais, apresenta-se mediante um viés que se propaga dentro de visões sexistas, racistas e favorecendo a passividade por parte dos oprimidos, reproduzindo assim a lógica daqueles que estão no poder. Para Freire, a Educação é a principal arma para libertação do povo, sendo apreendida como ação política.

No modelo de sociedade atual, a “sociedade do ter”, pensamos se é possível transfigurar na prática os pressupostos da sustentabilidade. Um ser humano que nasce e cresce sob forte influência de um meio que classifica as pessoas por suas posses naturalmente tende a assumir que essa é a forma correta, senão a única, de viver: tendo. A Educação tem o poder de contribuir na formação de um pensamento crítico, que advirta o homem, segundo Freire (1999), “dos perigos do seu tempo, para que, consciente deles, ganhe a força e a coragem de lutar, ao invés de ser levado e arrastado à perdição de seu próprio ‘eu’, submetido às prescrições alheias”. Render-se à cultura do seu tempo não se trata apenas de uma tentação; trata-se sobremaneira de manter-se incluído no sistema. “O homem massificado apresenta certa rigidez mental e deixa de assumir postura conscientemente crítica diante da vida”. Dessa forma, Freire (1999) indica que vivemos a ilusão da escolha, que achamos ter o poder de definir o que precisamos, o que seremos, quando na verdade estamos seguindo comportamentos que nos são impostos pela nossa própria sociedade, que por sua vez são ditados por uma pequena porcentagem de pessoas que detém a posse de grande parte da produção de bens de consumo. O homem passa a ser comandado pela publicidade.

Uma Educação que critique o pensamento possibilita ao homem a discussão corajosa de sua problemática. No entanto, conforme Freire (1999), a Educação vem “enfatizando cada vez mais em nós posições ingênuas, que nos deixam sempre na periferia de tudo o que tratamos”. Como poderemos pensar em sustentabilidade se nos deparamos com pessoas que não conseguem enxergar sua própria inserção nessa problemática? A sociedade do ter implica o imediato reconhecimento do modo de consumo: quanto mais inserida na conjuntura do que a publicidade indique como preponderante, mais valorada a pessoa será. Esse meio agressivo de imposição de um modo de vida não deixa brechas para posicionamentos que inquietem as pessoas, mas que as deixem passivas e submissas a esses comandos.

Dentro da concepção dialética, Freire (1987) aponta o homem como um ser que se diferencia dos demais animais existentes por ter como princípio elementar o poder de transformação de sua história através de uma relação dialética vivida na sua inserção na natureza e na cultura, diferenciando-o dos outros animais. Assim, o homem não pode participar ativamente na história, na sociedade, na transformação da realidade se não for ajudado a tomar consciência da realidade e da sua própria capacidade para transformá-la (Freire, 1977).

Assim sendo, a Educação Ambiental tem papel muito importante quando promove a construção de ideias. Atitudes individuais são importantes, mas a sustentabilidade pressupõe um tripé (econômico, social e ambiental) que necessita de atividades em grupo, pois envolve processos políticos e econômicos. Dessa forma, os alunos não devem ser educados para ser sustentáveis, mas para entender porque podem/devem ser, ou seja, eles devem ser educados para pensar (Lima, 2003). Para Cavalcanti (2003), sustentabilidade “significa a possibilidade de obter continuamente condições iguais ou superiores de vida para um grupo de pessoas e seus sucessores em dado ecossistema”, apresenta-se essa definição através da perspectiva de mantimento da qualidade de vida das gerações e dos ecossistemas, garantindo condições para perpetuação. Sachs apresenta a compreensão das múltiplas dimensões da sustentabilidade, mostrando as mesmas de forma desagregada, porém articuladas por meio de uma relação interdependente, entre os aspectos sociais, econômicos, ecológicos, espacial e cultural. A compreensão do aspecto social direciona-se para a ideia de eliminação da pobreza, utilizando táticas de equidade na repartição de renda mediante ações que aperfeiçoem as condições de renda e o direto a população à vida digna. Assim, compreende-se a proposta conceitual de desenvolvimento sustentável de Sachs; a definição de base integrada, porém que não trabalha vertentes como a institucional, que é tratada por outros teóricos que tratam da temática.

Considerações finais

No modelo de sociedade vigente, pensamos se é possível transfigurar na prática os pressupostos da sustentabilidade. Essa transfiguração pode ser alcançada a partir de uma Educação Ambiental crítica que promova o entendimento e a importância da preservação dos recursos naturais; seu papel é essencial na motivação de mudanças de hábitos das quais depende a qualidade de vida da espécie humana.

O primeiro passo, no que consiste a Educação Ambiental, está na necessidade de compreensão do homem como “ambiental”, ou seja, que esteja inserido na ideia de meio ambiente, e assim possamos realizar uma proposta de práxis que tenha como norte a ideia de uma nova postura frente à questão ambiental. Freire (1999) aponta a necessidade de “uma Educação que leve o homem a uma nova postura diante dos problemas do seu tempo e de seu espaço”. Um dos grandes problemas do nosso tempo é vislumbrar até quando nosso planeta aguentará as pressões que a superpopulação humana impõe sobre ele. Os recursos naturais estão sucumbindo diante do consumo desenfreado, muitas vezes desnecessário, mas culturalmente instalado nas mentes de pessoas que não conseguem criar diálogos com novos modos de vida que tragam mais liberdade ao seu ser, uma vez que vivemos numa prisão ideológica valorada na exposição do que temos. Com isso, na compreensão das tipologias da educação bancária e problematizadora, no processo de formulação de uma consciência ambiental, pode-se constatar que, dada a complexidade envolvida na questão ambiental, não se tem espaço para implementação de uma visão bancária, sendo dessa forma a necessidade de implementar a educação problematizadora, visando melhor compreensão por parte do educando, visando intervenções que afetem as escalas locais e globais.

Referências

BACELAR, Maria Gabriela. Violência e Educação. 7. Paulo Freire - Uma Pedagogia Utópica e Esperançosa. In: CARVALHO, Adalberto Dias de (org.). Filosofia da Educação: Temas e problemas. Porto: Afrontamento, 2001. p. 123

CAVALCANTI, C. (org). Desenvolvimento e natureza: estudo para uma sociedade sustentável. São Paulo: Cortez, 2003.

FREIRE, Paulo. A mensagem de Paulo Freire: textos de Paulo Freire selecionados pelo Inodep. São Paulo: Nova Crítica, 1977.

______. Pedagogia do Oprimido. 12ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

______. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

______. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 1994.

LIMA, G. C. O discurso da sustentabilidade e suas implicações para a educação. Ambiente & Sociedade, vol.VI, nº 2, 2003.

SACHS, I. Em busca de novas estratégias de desenvolvimento. Estudos Avançados, v. 9, nº 25, 1995.

______. De volta à mão visível: os desafios da Segunda Cúpula da Terra no Rio de Janeiro. Estudos Avançados, v. 26, nº 74, 2012.

WEBER, Jacques. Gestão de recursos renováveis: fundamentos teóricos de um programa de pesquisas. In: VIEIRA, Paulo Freire; WEBER, Jacques (orgs.). Gestão de recursos naturais renováveis e desenvolvimento: novos desafios para a pesquisa ambiental. Trad. Anne Sophie de Pontbriand Vieira e Christilla de Lassus. São Paulo: Cortez, 1997. p. 115-146.

Publicado em 04 de agosto de 2015