Um excepcional documentário sobre a globalização da educação

Mariana Cruz

Um professor amigo meu, defensor da pedagogia libertária e bastante engajado nas questões relacionadas à Educação, indicou um documentário sobre a situação da Educação no mundo atual. Sinceramente não esperava grande coisa, achava que deveria ser interessante em relação ao conteúdo, mas que seria chato de assistir. Logo nos primeiros minutos vi que estava enganada: que boa surpresa tive ao ver Escolarizando o mundo – o último fardo do homem branco, de Carol Black.

O filme mostra o processo de ocidentalização devastador que escolas de diversas partes do mundo vêm passando ao longo dos anos. A diretora trata do caso específico de Ladack, “região situada no sudeste da Ásia e conhecida como ‘pequeno Tibet’, palco de disputas políticas entre Índia, Paquistão e China, em uma região do Himalaia (a parte oriental e sob controle indiano)”, um lugar rodeado por belas montanhas e conhecido por seguir a cultura budista tibetana. Na cidade grande vizinha, Leh, há uma grande escola que segue a pedagogia ocidental, e é para lá que a maioria das crianças de Ladack vai estudar. Até aí tudo parece normal e benéfico. Mas não é bem assim. Ao deixarem sua cidade, deixam para trás toda sua cultura, tradição e história. Na Escola Missionária Moráviana Leh, por exemplo, as crianças são proibidas de falar o hindu; só podem falar inglês. Nem mesmo na hora do recreio elas podem se expressar na sua língua nativa, sob pena de pagar 5 rúpias por tal ‘infração’.

Tal processo de desvalorização das culturas locais em prol de uma educação homogeneizante não é recente. No século XIX os Estados Unidos não mediram esforços para destruir a cultura dos índios nativos e impor seu sistema de educação. No filme são mostrados pôsteres, cartazes, fotos e frases ditas por governantes (“Deixe morrer tudo que for indígena dentro de você”) que revelam os diversos mecanismos aos quais os índios americanos foram submetidos a fim de esquecer suas origens, os ensinamentos de seu povo e absorver toda a cultura dos colonizadores. À medida que estes avançavam para o oeste, milhares de crianças nativas americanas eram arrancadas de suas famílias para serem educadas em internatos administrados pelo governo. Hoje em dia, mais de dois séculos depois, vemos que tal processo está cada vez mais formal. Essa “educação” globalizada tende a se estender para diversas partes do mundo como Filipinas, Cuba e diversos países da África.

De volta a Ladack, vemos que quem permanece na aldeia são os mais velhos; muitos deles ficam sozinhos para cuidar da terra, do gado. Ladack é de uma beleza ímpar, de uma natureza exuberante, um lugar onde o homem vive em harmonia com o meio ambiente. Mas tal relação é extremamente desvalorizada, uma vez que o dinheiro não reina absoluto lá.

A cultura milenar passada de geração em geração, bem como os ensinamentos budistas baseados na compaixão e na solidariedade, vão sendo deixados de lado para dar lugar aos ideais capitalistas que são transmitidos pela educação ocidental. Tal processo faz com que os antigos moradores fiquem com a autoestima cada vez mais baixa, pois acham que não sabem nada. Uma das antigas moradoras de lá se diz triste por estar longe dos seus filhos. Ela cuida sozinha das terras e desabafa: "não é como antes (…), agora estão todos educados”. Uma jovem senhora com trajes budistas fala sobre o passado recente, quando os jovens eram educados de acordo com os ensinamentos de Buda, e agora as crianças são mandadas para a escola em nome do desenvolvimento, do dinheiro, do mercado; e os antigos valores de bondade, compaixão começam a declinar e a ênfase passa a ser o sucesso material. As pessoas pertencentes à cultura tradicional são levadas a acreditar na ideia de que o povo que não segue o padrão da educação ocidental voltado para a economia de mercado não é um povo educado. Por outro lado, é sabido que tal economia é restritiva, não há lugar para todo mundo, poucos serão bem-sucedidos. Diante de tal realidade, parece evidente que esse projeto de “educação para todos” é um treinamento para subempregos que sirvam de apoio para a cultura urbana e de consumo. Isso traz também a destruição da diversidade, pois, ao perder a relação com a sua cultura, perde-se a sua história, a sua identidade, a relação com a terra.

Uma das entrevistadas, Helena Norberg, da Sociedade Internacional pela Ecologia e pela Cultura, afirma que tal educação é responsável por introduzir uma monocultura humana ao redor do mundo, uma vez que o mesmo currículo é ensinado sem levar em conta as diferenças culturais. Ela fala também dos conhecimentos que se perdem quando essa nova educação homogeneizadora se entranha nessas culturas. Antes as culturas tradicionais sabiam seu clima, solo, água; tinham formas de promover sua sustentabilidade geração após geração. Eram maneiras que, mesmo não sendo perfeitas, funcionavam.

Na economia moderna, as crianças não aprendem nada disso; aprendem, sim, a como usar o computador da Microsoft – o que não é algo negativo; o problema é que tal conhecimento é dado em detrimento de outro. Uma vez desconectados de suas raízes, eles não sabem mais viver em seu próprio ambiente.

A entrevistada Vandana Shiva, da Navdanya – Foundation for Science, Technology and Ecology (RFSTE), diz que tal educação não cria indivíduos autônomos e sim pessoas com conhecimento parcial, feitas para servir, alimentar a produção da cultura dominante.

A língua, a tradição, os costumes locais são uma barreira para a modernização; portanto, o que tal processo de ocidentalização visa é enfraquecer tais elementos cada vez mais e, se possível, extingui-los. “O objetivo é claro”, diz Vandana: “é tirar as pessoas de suas independências, suas próprias culturas e autorrespeito e torná-las dependentes”.

Outro ponto abordado no documentário é o programa que está sendo mundialmente adotado, denominado "Educação para todos”. Trata-se de um projeto que ninguém questiona, todos parecem aceitar. O intuito é colocar toda criança na escola para que ela possa fazer parte da sociedade de massa e, assim, fazer parte da economia global.

À primeira vista isso parece uma boa iniciativa; um exame um pouco mais aprofundado, porém, mostra há outros interesses por trás disso: o “Educação para todos” está sendo sancionado por todos os governos do mundo e apoiado pelo Banco Mundial, pela ONU e por outras grandes corporações, como o McDonald's. Na prática, o que ocorre é uma substituição da economia, da cultura e dos recursos locais por uma cultura a serviço da economia global. Aí cabe o questionamento: quem se beneficia se toda criança do planeta for educada da mesma forma?

A cultura do dominador se coloca como se estivesse ajudando a cultura do dominado a se desenvolver. As crianças das culturas tradicionais crescem pensando que seu modo de vida é menor, primitivo. Para alcançar uma educação superior, devem esquecer todos os seus valores.

Dos alunos que são mandados para estudar nos grandes centros, menos de 10% são bem-sucedidos; 90% não conseguem um bom emprego e vão trabalhar em subempregos. Muitas vezes, diz Helena, são pessoas brilhantes, talentosas e que se acham fracassadas porque repetiram o ano. Muitas vezes são pessoas que pensam de diferentes formas, que não são valorizadas, são rechaçadas. São pessoas que não sabem mais nada de sua própria cultura nem da outra. São duplamente excluídas.

Diz-se falaciosamente que, com a ocidentalização da educação, a renda per capta quadruplicou, mas nada falam sobre o declínio da qualidade de vida. Isso pode significar que um agricultor saiu de uma economia agrária não monetária para trabalhar numa fábrica que explora trabalhadores em Deli. Sua renda vai aumentar, certamente, talvez na mesma proporção em que a sua qualidade de vida irá piorar.

Ao final do documentário, a conclusão que se tira é que o caminho para as culturas sobreviverem não é, obviamente, se isolando ou se excluindo, e sim criando um diálogo, uma partilha de informação entre o Ocidente e as partes não industrializadas. Não cabe aos países ricos do Ocidente ditar como as crianças de uma cultura tradicional devem ser educadas. Como ensina Helena, "as diferentes culturas, tradições, visões não são tentativas fracassadas de alcançar o sucesso, como os países ricos tentam passar; são formas de viver, de estar no mundo que servem há várias gerações dando conta de como se vive de modo sustentável em nosso planeta”.

Ficha técnica do filme:

Publicado em 01 de setembro de 2015